No Reino do Dragão (Sikkim - Bhutan Tour 2013)


Duas semanas a viajar pelos Himalaias. Paisagens fantásticas, templos coloridos, uma sociedade diferente. Uma viagem que não foi apenas andar de moto. Teve uma componente cultural e de aprendizagem muito forte.
 

Tudo começou por uma pesquisa na Internet. A intenção era ir ao Tibete mas descobri que os chineses só dão visto de entrada para grupos com um mínimo de 6 pessoas, todas da mesma nacionalidade. Achei que em cima da hora seria complicado arranjar mais 5 aventureiros Tugas para embarcar nesta aventura.

Pesquisei de novo e descobri uma viagem pelo Norte da Índia e Butão. Afinal há alternativas para viajar pelos Himalaias. Contactei o organizador. Respondeu-me que o Tour estava completo. Insisti e perguntei se o completo era mesmo cheio ou se dava para mais uma. Levou 4 dias a responder. Primeiro deu-me os parabéns pelas viagens que eu já tinha feito (claro que quando o contactei lhe mandei o link para os meus blogues) e muito polidamente informou que até conseguia ter mais uma vaga mas que eu seria a única mulher. Não há problema, respondi. Estou habituada. E prontos, formalidades de visto, seguro, aviões e está feito. Parto daqui a um mês. Muito em cima da hora, como de costume.



SÁBADO, DIA 16 MARÇO 2013

O pior de uma viagem para o outro lado do mundo é chegar lá. Por terra iria demorar uns 3 meses mas ia divertir-me bastante de certeza. Como não tenho este tempo, a alternativa é avião. Bem mais cansativo que por estrada, saltitar entre aeroportos, num mesmo dia acertar o relógio várias vezes e perceber que a hora de almoço afinal já é hora de jantar. Um dia inteiro a mudar de avião e de país, as horas passam e o cansaço vence.

Desembarco em Dheli ao nascer do sol. O meu relógio marca 3h da manhã e o relógio do aeroporto marca 9:30h. O transfer obriga a mudar de terminal. Uma hora dentro de um autocarro que já devia estar num museu há 20 anos, 3 avenidas atulhadas de trânsito. O céu está carregado, cinzento da poluição, a adivinhar a onda de calor anunciada para estes dias. À entrada do Terminal 1 há uns quiosques de comida. Aproveito a brisa fresca que ainda sopra e engulo um queque de amêndoa com chá. O meu organismo pergunta-me se é uma ceia ou o pequeno-almoço. Estou demasiado ensonada para lhe explicar que estamos do outro lado do mundo, com outros ritmos.

Uma fila de táxis redondos, pretos e carunchosos alinha-se frente ao terminal. No ar voam uns pássaros parecidos com pombos mas que grasnam como corvos. Cheira a caril e a pudim de coco. Há 18 horas que ando no ar. Sinto-me transpirada e incomodada. No duty free do aeroporto há lojas de perfumes. Escolho um que me agrada, pego na embalagem de teste e borrifo-me de perfume. Sempre disfarça a sensação de precisar de um banho. Os altifalantes metralham números de voos, portas de embarque e nomes de passageiros em falta. Em Hindu e em inglês, uma ladainha que me mantém acordada.




Finalmente em Bagdogra. São 2h da tarde. Fui a última a chegar. Já cá estão os 9 alemães que fazem parte do Grupo de aventureiros. Enfiamos as malas no tejadilho dos jipes. O guia pergunta-me se perdi alguma mala. Sou a que tem menos bagagem. Os outros trazem grandes malas de viagem e mais sacos. Começo a sentir-me esquisita.




Rumo a Siliguri, a vila onde começa o Tour e onde as motos nos esperam. Chamam autoestrada a uma avenida interminável com um trânsito caótico. Dá para mentalizar do que nos espera. Camiões e vacas. As estradas da Índia são sempre um desafio e uma surpresa.

Chegamos ao Hotel. Enquanto eles foram experimentar as motos eu corri para o restaurante do hotel. Estou esfomeada e só há torradas a esta hora. Durmo até à hora de jantar. Ligo para casa. Em 2 minutos o roaming cobra-me 10 euros. Desligo o telemóvel (e só o liguei 2 semanas depois).

Somos um total de 10 aventureiros, 9 alemães e uma portuguesa. O guia do Tour é Butanês. Nenhum de nós se conhece à excepção de 3 amigos dentistas de Munique. Não fazemos grandes apresentações. Cada um diz o nome e de onde é. Também não é necessário grandes conversas, estamos todos aqui para passear de moto. Vamos estar juntos 24h por dia durante duas semanas. Temos tempo de conversar.


DOMINGO, DIA 17 MARÇO 2013

O dia começa às 6h da manhã. Tenho o jornal do dia pendurado na porta do quarto. Influência inglesa. O pequeno-almoço são torradas e chá. No buffet há mais pratos de comida mas todos cheiram a picante. Estou condenada a torradas durante as próximas semanas. Isto começa bem.







Uns 10 km de planície e trânsito infernal. Camiões, rickshaws, bicicletas, peões e vacas. Muitas vacas no meio da estrada. Mais preguiçosas que as do Kerala, nem abanam a cauda. Ali estão, impávidas e serenas como se a estrada fosse um campo de relva. E calor. Abafado pelo céu cinzento de fumo.





Perguntei ao guia se era sempre assim. Respondeu-me que em 9 anos que anda nesta região não se lembra de ver o céu azul. Depois começamos a subir a montanha. De Siliguri a Darjeeling uma estrada estreita que acompanha uma velha linha de comboio que vem de Calcutá (Kolkata) até às montanhas. À volta da linha de comboio cresceu uma estrada e nasceram pequenas vilas e aldeias confusas. Do lado da encosta as casas encaixam dentro da montanha, espalmam-se ao longo das curvas. Do lado da falésia as casas encavalitam-se em estacas, de frente para a estrada num equilíbrio frágil. Toda a vida se alinha junto ao alcatrão esburacado e comido. Habitações, lojas, artesãos e mais a linha de caminho-de-ferro que vai subindo lentamente montanha acima.




















Aqui não há silêncio. Reinam as buzinadelas em cada curva apertada, cotovelos sem fim. Partes da estrada estão em obras, homens espalmam o alcatrão a ferver com pedaços de madeira e ferro. Artesanal. Ao atravessar uma cidade confusa a moto começa a abanar, a traseira a resvalar. Um furo, logo no primeiro dia. Tinha de ser eu. O mecânico salta do carro de apoio com uma jante completa e em 5 minutos muda a roda. Agora tenho uma jante da cada qualidade. Uma racing e outra de raios. Deu-me um ataque de riso. Dizem que na Índia tudo é possível. Acredito!












Nesta paragem encontramos um grupo de turistas alemães. Na paragem seguinte a mesma coisa. Os meus
companheiros de viagem (todos alemães) acham que a Alemanha está cá toda de férias.

Darjeeling está situada no West Bengal a 2.000 metros de altitude. Uma cidade nas montanhas do Lower Himalayan Range que era a estação de férias dos ingleses. Vinham para aqui apanhar o ar fresco da montanha e fugir ao calor abafado das planícies. É também famosa pela indústria do chá, um dos mais apreciados chás pretos. Também é conhecida pelo caminho-de-ferro himalaio de Darjeeling, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO.

Quatro horas para fazer 80 km. Entramos em Darjeeling pela estação de caminho-de-ferro. Locomotivas do princípio do século passado, movidas a carvão. Carruagens estreitas com bancos corridos. Parece incrível como as máquinas ainda funcionam e fazem dezenas de km duas vezes por dia naquela linha de comboio.








Chegamos ao Swiss Hotel perto da hora de almoço. Uma entrada agradável disfarça uns quartos medonhos. Está frio, o quarto tem mobília do tempo do meu tetravô, a casa de banho tem um chuveiro no tecto. Mas é considerada quase um luxo por estas bandas.


















Há uma enorme banheira cravada no jardim. Parece que foi utilizada num Hotel da região que teve de preparar uma casa de banho especial para o actor de cinema Robert Redford. Depois de ele ir embora, ninguém quis a banheira e o dono do Hotel trouxe-a. Agora serve de lago onde bóiam flores artificiais.







Vamos almoçar a um restaurante tibetano que segundo o nosso guia é o melhor que se encontra por cá. Um restaurante minúsculo que se encheu connosco. Sopa de legumes com pão indiano e MOMOS de carne e legumes.
MOMOS é um prato típico do Nepal e Tibete. Uma massa de farinha e água enrolada com carne ou vegetais temperados com cebola, alho e gengibre. Os bolinhos são depois cozidos ao vapor.





Depois vamos dar uma volta pela cidade, seguimos por uma rua cheia de gente até ao passeio dos ingleses, um passadiço de calçada de pedra que circunda o pico da montanha e onde os ingleses vinham passear. Ao longo do caminho vêm-se muitos turistas e vendedores de rua, com panos estendidos cheios de bugigangas, lenços, xailes, gorros e roupa.

Nas ruas da cidade reina a confusão. Nota-se uma grande mistura de raças. Pessoas de baixa estatura, magros, pele escura, Hindus. Pessoas altas, bem constituídas, pele clara, olhos rasgados, Nepalis. Têm um ar superior. Não se desfazem em vénias como os indianos.




















Há cabos de electricidade espalhados pelo ar e dezenas de canos de água que rompem as paredes, atravessam o alcatrão em todas as direcções. Cada um faz uma ligação directa ao cano do vizinho. Na praça principal um cantor local faz um espectáculo de rua, uma aparelhagem de som rouca e estridente, muitos locais a bater palmas. Um mimo.





Depois de jantar dou de caras com o dono do Hotel que me cumprimenta com deferência. Teve azar. Reclamei logo do chuveiro e da canalização que não funciona. Tive de me lavar às prestações, de joelhos, debaixo de uma torneira que pinga meia dúzia de gotas de água. Fez um ar aflito e consternado. Manda o recepcionista ligar para o canalizador. Fitas da Índia. Eles dizem que fazem só para agradar aos turistas. Daqui a uns anos a torneira está na mesma. Mas pronto. Estou em modo de não me chatear.

Começamos à conversa sobre o país e sobre Darjeeling, cujo nome tem origem na região conhecida pela terra das trovoadas e dos trovões (dargong significa raio de trovão). Diz que é um local de grande magnetismo onde se sente a vibração da terra. Muitas pessoas de diferentes religiões vêm cá para rezar neste local mágico. Uma longa conversa sobre religião e espiritualidade, sob as estrelas, ao frio, no jardim.

Aqui a previsão do tempo é dada pela direcção do vento e pelo voo dos pássaros. Como estamos longe do mar, a temperatura varia conforme a direcção do vento. Se sopra das montanhas trás nuvens e frio, a pressão atmosférica sobe, os insectos voam perto do chão e os pássaros voam baixo à cata dos insectos. Se o vento vem da planície trás temperaturas quentes, a pressão diminui, o ar aquece, os insectos voam mais alto e os pássaros também.





SEGUNDA-FEIRA, DIA 18 MARÇO 2013

Ao pequeno-almoço todos se queixaram do frio e dos colchões e da falta de água. Afinal não sou só eu. Um frio de rachar que me obrigou a tirar os cobertores da outra cama. Um colchão que mais parecia uma tábua. E todos tomaram banho em prestações. Um grupo de mal-lavados.

A manhã acordou limpa. Durante a noite o céu estrelado disse que as nuvens passaram para a planície. Vamos ter um dia bom. Atravessar Darjeeling é um tormento. As ruas são um amontoado de terra, pedras, buracos, água que escorre estrada abaixo, peões, buracos e crateras medonhas. E eu que nem gosto de TT tenho de subir serra acima por uma nesga de terra entre as crateras. Só tenho olhos para o caminho. Nem consigo levantar a mão do volante para ligar a câmara de filmar. Estou apavorada a pensar que o caminho vai ser todo assim. Quase uma hora para sair da cidade e entrar em estrada aberta.












Afinal é só na zona mais urbana que a estrada não existe. Depois daquela prova de perícia até acho a estrada boa. Relativamente. Estrada estreita, a subir a encosta, asfalto picado. Muito trânsito. Por vezes a estrada está em obras. É um tormento passar por cima da areia, dos buracos, sempre com atenção às pedras que rolam da encosta e aterram no meio do caminho. Já entendo porque se vêem tantos jipes por aqui. Com estas estradas é o único meio de transporte que consegue circular. Os carros normais partiam-se todos nos buracos.

Com o trânsito de camiões e as obras na estrada, andar a 40 km/h é uma velocidade estonteante. E sempre a subir. Do outro lado da montanha descemos para o vale. A estrada está comida dos lados, deixa uma pequena faixa de alcatrão sujo por onde todos querem passar. Camionetas ferrugentas carregadinhas de gente, camiões gigantes, todos correm estrada abaixo, parece uma montanha russa. A descida é a pique, levo a moto com a 1ª engatada e travões a fundo. Até cheira a queimado.




Circulamos por entre plantações de chá numa estrada mais larga. Até respiro de alívio. Há macacos e palmeiras à beira da estrada. Debaixo de um sol escaldante, atravessamos vilas estreitas atulhadas de carros estacionados na estrada, um caos até para passar de moto. Estamos sempre a parar à espera que passe um camião ou a admirar a incrível manobra de passagem de dois camiões sem deitar nenhuma casa abaixo. A estrada corre junto ao rio, por vezes picada e cheia de lombas, outras vezes em melhor estado. Já percebi que junto às povoações a estrada está pior. Nas encostas, a subir e descer, por vezes apanhamos bocados de estrada razoável. Nos parâmetros indianos, claro. As pontes são estreitas, com o piso em madeira, dois carreiros por onde se alinham os pneus. Uma delas nem tinha chão para lá das placas de madeira. Bem-vindos à Índia.












Paramos no caminho para visitar um colorido templo. Para chegar lá temos de atravessar uma ponte suspensa que balança ao sabor do vento. Dá tonturas e vertigens. À entrada está uma enorme estátua com uma cara estranha.













Chegamos à fronteira de Sikkim, uma província da Índia que outrora foi um reino independente. Há poucos anos foi dada à população a escolha em continuarem como reino independente ou tornarem-se uma província da Índia. Escolheram a Índia mas mantiveram alguma autonomia e leis próprias. Como está muito perto de território chinês (Tibete) e é a única fronteira aberta por terra com este país, tudo e todos são controlados. É necessário uma autorização para entrar. Um visto especial.






O carimbo na fronteira é gratuito mas exige preencher papelada e colar uma foto. Que ninguém tem. Fomos autorizados a ir até à localidade próxima para tirar fotos. Uma aldeia de uma rua, com meia dúzia de lojas. Uma delas tem um grande letreiro que diz “Xerox”. Entramos numa espelunca com um balcão, uma fotocopiadora antiga, um armário de bebidas e uma cama que ocupa quase todo o espaço. O dono tem pele escura, cabelo oxigenado e um grande anel.

Perguntamos se tiram fotos. Responde naquele aceno indiano, um pendular de cabeça que não é nem sim nem não. O famoso NIM dos indianos que serve para tudo. Um por um, sentamos-nos no colchão para tirar uma foto com uma câmara compacta e velha. Tira o cartão de memória e introduz numa minúscula máquina impressora a cores digital. Espanto!









Lá voltamos para a fronteira, cada um com 6 fotos tipo passe embrulhadas num envelope, por 40 Rupias (20 cêntimos). Gastamos 2 horas com as formalidades da fronteira para entrar no Sikkim. Não é por termos de negociar algum presente. É mesmo o ritmo calmo e lento que as coisas acontecem por aqui.

O tempo mudou. O céu já é normalmente cinzento mas agora está a ficar mais escuro. E o nevoeiro cai rapidamente. Faltam uns 30 kms até ao Hotel e o guia decidiu que vamos direitos para lá pois aproxima-se a tempestade. O mosteiro de Pemayangtse fica para amanhã.

Montanha acima, curvas e mais curvas, até já acho que a estrada é melhor. Pequenos troços de terra e lama, um rio que desce encosta abaixo, muitos jipes em alta velocidade fora de mão ou apenas pedregulhos caídos da montanha, solitários no meio do alcatrão. Começo a ficar habituada aos buracos.

Começa a pingar. Bátegas ralas mas grossas. Caem com força e magoam. Pinga cada vez mais, o nevoeiro é denso, ouvem-se trovões lá ao fundo. Instintivamente aceleramos a marcha. Só quero chegar ao Hotel antes da tempestade.

Estamos na recepção do Hotel a beber chá e a fazer tempo até podermos tomar banho. Só ligaram o termostato agora. Ainda não há água quente. O telefone do Hotel não faz chamadas internacionais. Por causa da tempestade também não há Internet. Nem televisão. De vez em quando a luz falha. Temos kit de velas nos quartos. Lá fora a tempestade rebenta.


TERÇA-FEIRA, DIA 19 MARÇO 2013

Às cinco da manhã já há alvoroço no Hotel. Uma família indiana – avós, tios, jovens e crianças – está na entrada do hotel a tirar fotos na paisagem. Alegres e barulhentos, fazem poses teatrais iguais às estrelas do Bollywood. Uma algazarra que acorda o hotel todo até aqui mergulhado no silêncio da montanha. Não consigo voltar a adormecer. Mais um colchão de tábua. Doí-me o corpo todo.

O pequeno-almoço é chá e torradas. A única coisa que consigo comer. Os indianos estão a comer grandes pratos de arroz com legumes e carne. Cheira a picante. Os meus companheiros comem omeletes com um preparado parecido com chili. Até o cheiro me agonia.

Saímos para a estrada. O céu está limpo, finalmente azul. Fios de nevoeiro dançam por cima da floresta. Está frio. Muito frio. Descemos a montanha e subimos de novo para visitar o mosteiro de Pemayangtse. Uma estrada estreita e estragada, mais terra que alcatrão, uma subida íngreme até chegar ao cimo de mais outra montanha.











Cá em cima a vista é espectacular. Um mosteiro imponente domina a paisagem. Quadrado, com 3
pisos, está pintado de cores vivas, paredes cobertas de pinturas da vida de Buda, um colorido que contrasta com o verde da floresta e o branco do céu. Alguns turistas e muitos monges, vestidos de vermelho.

O mosteiro de Pemayangtse é um dos mais antigos do Sikkim. Pertence à escola budista – Nyingma - a mais antiga do Tibete que se diz transmitida pelo Guru Rinpoche, considerado como a reencarnação de Buda e por isso chamado de Segundo Buda.













E voltamos a descer e voltamos a subir. Os vales não têm ligação por estrada, só contornando as montanhas, subindo e descendo se consegue passar de um para outro. Os meus ouvidos ora zumbem ora dão estalos. Neste emaranhado de curvas e cotovelos estamos a conseguir fazer médias de 50 km/h. A estrada é razoável, pouco trânsito. Até nos bocados de estrada que não existe não baixamos a velocidade. Os buracos já fazem parte do caminho. Uma velocidade vertiginosa para estas condições.

Circulamos a alta altitude, numa paisagem esmagadora. Ao fundo brilham as neves eternas das montanhas que fazem fronteira com o Tibete. Estamos a 50 km de Nathula Pass, uma das 3 fronteiras entre a Índia e a China, acessível por uma das mais altas estradas circuláveis no mundo, a mais de 4.000 metros de altitude. A fronteira não é permitida a estrangeiros, apenas os indianos podem passar com visto especial. É uma estrada tortuosa que segundo o guia demora umas 4 horas a fazer, para depois ter de se voltar para trás de novo. Estamos parados na berma há quase uma hora. Não nos cansamos desta vista fantástica. Tivemos sorte, o céu está limpo e azul.








Em Romtac paramos para almoçar. Uma pequena vila atarefada que pára quando entramos. Não é costume passarem tantas motos por aqui. Brilham os olhos, tocam no cromado dos depósitos, sorriem. Não metem conversa.

Sentados na esplanada do restaurante, a temperatura está mais amena. O almoço são MOMOS, outra vez. É a comida mais popular e que está sempre pronta. Fazem uma panela de bolinhos de carne e legumes e vão servindo a quem aparece.








Vou dar uma volta pelas lojas ao longo da única rua. Há uma venda de bolos e doces. Um difícil exercício de mímica explicar o que quero. O dono só me mostra fatias de bolo de chocolate. No meio de tanto pacote, consigo descobrir bolachas secas. O preço é em mímica também. Tudo no meio de risos. Todo o chão da loja está cheio de caixas de mercadoria. O dono está sentado no meio da loja, pernas cruzadas, em cima das caixas, ao nível do balcão.

Na parede ao lado um cartaz anuncia a visita de sua santidade o Dalai Lama, no próximo Domingo. Vem fazer uma cerimónia de iniciação no templo local. Já percebi porque no caminho para cá vimos tanta gente a limpar o lixo à beira da estrada.









Mais um desfilar de encostas que contornamos a caminho de Rumtek, o destino de hoje. Serpenteamos entre varandas escavadas nas encostas, cultivadas e verdes. As montanhas são coladas umas às outras. Vales profundos e abafados de calor. Quando subimos a temperatura desce a pique. Passo o dia a pôr e tirar o forro do casaco.












Numa paragem para descansar encostamos junto a uma fila de estacas de bambu com grandes bandeiras. Já tinha visto várias filas de bandeiras pelo caminho sem perceber se havia festa ou se era algum local de culto. Afinal são bandeiras de oração, içadas para trazer felicidade, vida longa, prosperidade, sorte e virtude. Acredita-se que depois de alguém morrer, a oferta de bandeiras de oração ajuda a guiar a alma do falecido para longe do submundo e para o impedir de renascer nos três reinos inferiores.

São hasteadas ao ar livre, em lugares altos, com vista para as cidades ou rios, para que o vento as agite de forma a activar as bênçãos e as espalhar pelo mundo. Nunca ninguém lhes mexe, tratam-nas com respeito, porque os símbolos sagrados e mantras que têm impressos não devem ser perturbados até que o sol, o vento e a chuva desfaçam as bandeiras.








O Hotel é um eco-turismo encavalitado na encosta, a 1.600 metros de altitude. Pequenos bungalows escondidos num jardim bem cuidado. Pertence a uma família que produz tudo o que se consome cá. Recebem-nos com sorrisos e uma bebida de boas vindas à base de iogurte.











A sala de jantar é num edifício separado. Toda construída em madeira, acolhedora, uma vista fantástica para o vale. Descobri o que é DAL, um prato feito à base de lentilhas, cozidas por muitas horas em cebola e tomate até se transformar num molho espesso para cobrir o arroz. Para acompanhar, legumes cozidos ao vapor. São deliciosos, sente-se que estão cozidos mas continuam rijos. E saborosos.

Depois de jantar, já por várias vezes tentei ficar nos serões à conversa. Acabo por desistir pois não percebo nada de alemão. A princípio, simpaticamente, ainda tentam conversar em inglês, mas alguns falam tão bem o inglês como eu falo alemão. Retiro-me discretamente para o quarto e escrevo o diário do dia, em letra atropelada tal é a quantidade de informação que quero guardar.

A noite é escura. A lua está a dormir. Na varanda do meu bungalow olho para a encosta do outro lado do vale estreito onde brilham as luzes das casas. Alinham-se em filas ao longo do que parece ser a estrada que serpenteia montanha abaixo. Reina o silêncio.



QUARTA-FEIRA, DIA 20 MARÇO 2013


De manhã muito cedo saímos para visitar o mosteiro de Rumtek. Como não há espaço para estacionar, o guia diz que é melhor irmos na carrinha de apoio. Conseguimos arrumar-nos todos. Dez pessoas no espaço de seis. Parecemos sardinhas em lata. Só risos. Saímos do hotel e mal andámos 300 metros, trânsito parado. Dois camiões bloqueiam a estrada. Depois de um quarto de hora decidimos ir a pé. Afinal não é assim tão longe.

Rumtek Monastery é a casa do Karmapa Lama o líder espiritual da escola budista de Karma Kagyu, uma das grandes escolas do Budismo Tibetano. Tornou-se o grande centro dos kagyus desde que o 16º Karmapa fugiu do Tibete aquando da invasão chinesa e o mosteiro lhe foi oferecido pelo então Rei de Sikkim. Os Karmapas são eleitos por reconhecimento de uma criança como reencarnação do primeiro Karmapa. Acontece que actualmente existem dois karmapas reconhecidos por diferentes mestres Shamarpa (os sharmapas são os discípulos mais próximos do último karmapa) o que conduziu a uma disputa entre qual será a verdadeira reencarnação. Por isso o mosteiro está fortemente controlado pelo exército indiano e nenhum dos 2 karmapas está autorizado a residir no mosteiro. O complexo tem um templo, um mosteiro, uma escola monástica, um centro de retiro e mais umas coisas.

Estou sentada no pátio, à espera que o guia explique a história do mosteiro em alemão aos companheiros de viagem e depois me venha explicar em inglês. Começo a divagar mentalmente sobre esta coisa da religião. Buda era um príncipe que renunciou à riqueza e aos prazeres da vida para vaguear pelo mundo em busca de respostas para a dor e o sofrimento. Através da meditação entrou num estado de transe em que atingiu a “iluminação” ou um estado superior. Recordo-me de ter lido que o profeta Maomé também tinha por hábito meditar em grutas e que também entrou em estado de transe onde foi contactado pelo Arcanjo Gabriel. E de repente lembrei-me que o novo papa adoptou o nome de Francisco, em homenagem a S. Francisco de Assis, nascido numa família abastada e que renunciou à boa vida para seguir um caminho religioso e de pobreza.


Os profetas das correntes filosóficas religiosas têm percursos semelhantes. Mas o que não entendo é que por todo o mundo os homens veneram pessoas que consideram como exemplos de vida, assistem a rituais religiosos que incentivam à compaixão …. Mas não o praticam no seu dia-a-dia. Cada vez me faz mais confusão esta história da religião, da idolatria, da beatice. Todos profetas de um Deus que transmite ensinamentos de bondade e virtude. Mais de 2.000 anos depois a humanidade ainda não aprendeu nem pratica nada disto. Muito pelo contrário, sempre fizeram guerras para impor o seu profeta ou a sua versão da religião. Deve ser mais importante defender uma religião que seguir os seus ensinamentos. Não consigo entender. Há uma coisa que tenho de concordar. Os templos, em qualquer lado do mundo, têm um ambiente calmo que convida a pensar (ou meditar) … se tudo isto fará sentido.






























A estrada que dá acesso ao mosteiro tem um muro completo de rodas de oração – Praying Wheel. São cilindros ocos, sustentados por um eixo e que foram enchidos com pergaminhos de oração. São revestidos em metal ou couro com gravações de mantras sagrados. Segundo a crença budista fazer girar uma roda de oração é tão eficaz como recitar os mantras. Reparei que é um gesto automático as pessoas passarem junto de uma roda de oração e fazerem-na girar sempre no sentido dos ponteiros do relógio porque é o direcção de leitura dos mantras e o sentido da rotação do sol.


















Pelas 11h da manhã voltámos ao Hotel. Vestimos o equipamento para voltar à estrada. É costume no Sikkim os anfitriões fazerem uma cerimónia de despedida. A simpática dona do hotel vem oferecer um lenço comprido que pendura ao pescoço de cada um de nós, agradece a visita e deseja boa viagem. Já em Darjeeling o dono do hotel tinha feito o mesmo.










Partimos para Kalimpong. Vamos descendo a montanha, estrada estreita, rodeadada de muitas aldeias. Esta zona é muito povoada. É raro fazermos mais de 20 km sem atravessar uma localidade. De repente apanhamos uma fila de trânsito parado. Carros, jipes, camiões, estacionados, pessoas na conversa na estrada. Numa curva, a chuva arrastou terra e pedras, a encosta desabou sobre estrada. Terra e árvores cortam a passagem. Alguns homens tentam desimpedir a estrada. Uns metros de lama e pedras por onde conduzimos rapidamente com medo de apanhar com a terra que continua a cair aos poucos. Outras vezes apanhamos a estrada em obras de alargamento. Quando vejo uma nuvem de poeira ao longe já sei que vou fazer todo-o-terreno.






Saímos do estado do Sikkim e entramos de novo no West Bengal. Temos de passar na fronteira e carimbar o passaporte com o visto de saída. Poucos km, sempre pelo vale, a acompanhar o rio Teesta. Estrada boa, paisagem fantástica. Chegamos ao Hotel cerca das 3h da tarde, já depois de almoçar num tasco à beira da estrada onde o meu almoço foi arroz branco solitário. O cheiro dos acompanhamentos deu-me um ataque de espirros que me fez desistir logo. No ar paira o cheiro a picante.









Outro hotel de bungalows escondidos na folhagem do jardim. Desde o estacionamento até ao jardim temos de subir quase uma centena de degraus. Mas a vista vale o esforço. Como de costume, à chegada a cada hotel, sentamos-nos à conversa. Os alemães bebem sempre umas cervejas. Aparentemente a cerveja indiana é boa. Nunca ficam pela primeira rodada. O guia já sabe que não bebo cerveja. Pede sempre chá para mim e bolinhos. A minha sorte são as bolachas e bolinhos, senão passava fome com tanto picante na comida.








Kalimpong foi outrora o centro de comércio entre a Índia e o Tibete antes da invasão chinesa. Continua uma cidade movimentada. Partimos à descoberta da cidade. Outra vez ensardinhados na carrinha de apoio até ao largo principal. O guia leva-nos a uma pequena fábrica de papel onde o dono nos explicou a arte de fabrico artesanal. Parecem resmas de papiros.


O resto da tarde é passado a deambular pela cidade. Ruas estreitas, uma selva de canos de água e fios eléctricos, mercados de rua, lixo amontoado aos cantos, porcos a passear na rua e carros que passam a buzinar. Um cenário normal na Índia a que não estamos habituados. Para eles, é a vida que conhecem, é como a sociedade está organizada. Para nós é um caos. São mundos diferentes que não se podem comparar.





























QUINTA-FEIRA, DIA 21 MARÇO 2013


Mais um dia a levantar de madrugada. Às 6h da manhã já estamos na estrada. Hoje vamos enfrentar duas centenas de km pela Highway 31. Descer a montanha até ao vale é um tormento. A estrada está em obras de alargamento, em muitas curvas a terra deslizou da encosta e obstruiu a estrada. 2 horas de inferno para mim que não gosto de todo-o-terreno e 2 horas de divertimento para os meus companheiros de estrada que adoram isto.













Finalmente no vale, atravessamos uma ponte e estamos na famosa Highway. Mais parece uma estrada Nacional mas para os indianos, uma estrada com bom alcatrão e uma faixa para cada lado, é uma auto-estrada. Uma placa avisa sobre o “Project Swastik”. O guia explica que está em curso um projecto de alargamento da Highway para a tornar uma auto-estrada de alta qualidade, ou seja, duas faixas de rodagem para cada lado. Não consegui disfarçar um sorriso. Nem os alemães.

E explica também que o símbolo Swastik é um símbolo muito usado na tradição hindu e budista. Está associado a “uma coisa boa” e “auspiciosa”. Faz questão de afirmar que o símbolo dos nazis é uma adaptação invertida deste antigo ornamento sagrado e que eles estragaram a pureza do significado. Já percebi porque vi esta cruz em muitos mosteiros por onde passámos.











A auto-estrada indiana, que para nós é uma estrada Nacional, é uma estrada larga com muito trânsito, sem bermas, atravessada por bicicletas, peões e animais. Mesmo assim, conseguimos uma velocidade razoável, por vezes acima dos 80 km/h. As Royal Enfield até esgotam o punho. Já não sabia o que era andar numa estrada com poucas curvas.

Sempre junto aos campos de chá, o dia está bonito. Km de campos de chá onde se vêem pessoas a trabalhar, pequenos pontos coloridos no meio do verde. Rolamos junto a uma linha de comboio. Descubro que o comboio atravessa a auto-estrada porque estamos quase uma hora numa passagem de nível à espera que passe o comboio. Aproveito para tirar fotos.














A meio da manhã, paramos para descansar e tomar um chá. Um restaurante-hotel espaçoso, chão em cimento pintado, cheio de locais. Ainda são 11h e já há pessoas a almoçar. Comem com as mãos, enrolam o arroz no molho, rapam o prato. Ando a tirar fotos. Espreito para a cozinha. Fogão de bicos de gás, panelas no chão, cheira a especiarias. Fico sem vontade nem sequer de tomar chá. Nem uma garrafa de água. O espaço é curioso, tem duas áreas reservadas para refeições privadas. Um luxo.









À saída o guia comunica com ar solene: vamos fazer o pior bocado de estrada de toda a viagem. Penso que está a brincar connosco. Estamos a 30 km da fronteira com o Butão e numa auto-estrada. Não pode ser assim tão terrível.
Arranco a pensar que nos está a pregar uma partida. Depois de andar pelas montanhas em estradas de buracos, com partes da estrada que não existem, nada pode ser pior. Enganei-me.

Poucos km à frente entramos num estradão de gravilha. Menos mal, ainda se faz. Meia hora depois paramos. Ele avisa que vai ficar pior. Começo a acreditar em tudo. Então um dos alemães lembra-se que podemos fazer um vídeo do pessoal a passar na estrada. Como só eu tenho máquina de vídeo combinamos eu ir à frente fazer umas paragens para os filmar. Lá vou eu com atenção ao caminho a procurar sítios onde possa parar. Depois eles vão esperando por mim, passo por eles outra vez e mais à frente paro para filmar. Com isto tudo até me distraio da estrada do inferno. Doem-me as pernas de andar em pé. Não há outra forma. Os buracos são crateras. Há pontos onde a moto bate no chão. Penso que ainda bem que não é minha. O trânsito é contínuo. Camiões enormes avançam devagar por onde conseguem. Não há regras, qualquer pedaço de estrada pode ter dois sentidos. É onde se conseguir passar melhor. Nem tenho tempo de ter medo. Só quero chegar ao fim sem cair. Acho que nunca andei tão depressa numa estrada de terra. Tenho alguns amigos que se me vissem agora iriam ficar espantados comigo. A medricas da Paula de moto por maus caminhos. Até me dá vontade de rir quando penso que o pessoal do TT anda com motos todas artilhadas de protecções e pneus de tacos e eu ando por aqui com pneus de estrada, carecas. O instinto de sobrevivência faz milagres.



Highway 31 - India 2013 from Paula Kota on Vimeo.


Finalmente chegamos à fronteira entre Jaigaon (Índia) e Phuntsholing (Butão). Temos de carimbar o visto de saída da Índia. O controlo de fronteira é feito por dois funcionários com ar enfadado, sentados atrás de um guichet. Além disso temos de mostrar o visto de entrada no Butão para ser carimbado o visto de saída da Índia, senão não deixam sair. O guia apanha os passaportes de todos e trata com os funcionários. Já o conhecem, faz isto muitas vezes.

Enquanto esperamos na sala de entrada, sentados e exaustos da tareia dos buracos entra um grupo de turistas ingleses. Olham para nós com curiosidade e risos. Uma senhora aproxima-se e mete conversa - Eram vocês nas motos que vimos agora na estrada?! É que vínhamos a pensar que estávamos a viver uma enorme aventura passar aquela estrada de jeep … até os vermos passar por nós …

Ya, Ya responderam os alemães. Alguns sorriram. Não me apetece nada rir disto, apanhei um susto daqueles. Mas por simpatia, acenei com a cabeça. Já tinha feito uns bocadinhos de estrada em más condições quando fui até Bissau … mas bem devagar (ainda hoje os companheiros dessa odisseia me gozam por eu andar tão devagar). Mas nunca com este trânsito infernal.












A linha de fronteira é apenas um arco colorido que separa os dois países. A fronteira é aberta e tem um polícia sentado debaixo do arco e que vai cumprimentando quem passa. Não se percebe se há vigilância sobre as pessoas. Mas, indirectamente, ela existe. Os estrageiros só entram no Butão com viagens programadas e acompanhados de um guia que tratou das formalidades. Os negociantes e camiões têm obrigatoriamente de ter uma autorização para circular no país. O Polícia da entrada sabe disso e não se preocupa muito em controlar quem entra ou quem saí. Como a “cidade” é muito pequena, os habitantes conhecem-se todos e sabem quem é novo por aqui. Têm o dever de informar as autoridades se detectarem alguma situação estranha. Faz-me lembrar um Big Brother em tamanho real.






(do outro lado da fronteira, já dentro do Butão)






Chegamos ao hotel depois das 3h da tarde. Um almoço tardio de MOMOS, outra vez. Mudo de roupa rapidamente para visitar a cidade. O guia diz que é seguro eu ir passear sozinha pela cidade. No Butão não há criminalidade. O pior que costuma acontecer é alguém beber um copo a mais e discutir com o vizinho. E parece que não é necessário ir trocar dinheiro ao banco (a moeda oficial é o ngultrum) porque o câmbio é igual à Rupia indiana que é aceite em todo o lado. Já a sair do Hotel o guia atirou mais um aviso – não te surpreendas se olharem fixamente para ti. Só tenho 3 grupos de motociclistas por ano. A esta hora já todos sabem que entrou um grupo de motos e que uma condutora é mulher. Nunca aconteceu. Fiquei a perceber porque os empregados do Hotel me olharam com tanta curiosidade.

Phuntsholing é a cidade fronteira do Butão por onde entra a maioria dos bens importados. Predominantemente comercial, a cidade (com cerca de 22 mil habitantes) resume-se a duas ruas de grandes lojas de venda por atacado e um largo onde há um pequeno templo e uma roda de oração. A maioria da população vive nos arredores, espalhada pelos campos.

Aqui a vida é diferente. Ao passar o arco da fronteira tudo muda. As ruas estão bem asfaltadas, têm passeios para peões, não há lixo nem vacas nas ruas. As pessoas vestem trajes típicos do Butão. Há pouco tráfego de carros, à excepção da estrada principal por onde passam alguns camiões.

As lojas são movimentadas, vendem tecidos, lã a granel, electrodomésticos, electrónica ou bugigangas. São completamente abertas para a rua. Como o hábito dos butaneses é sentarem-se de pernas cruzadas, o espaço interior das lojas está ocupado por um grande colchão onde os comerciantes recebem os clientes, estendem os tecidos, bebem chá. Cadeiras é uma coisa recente por aqui. Coisas de turistas ocidentais.

Os butaneses de Phuntsholing não têm concorrência. Não estão virados para o turismo. É uma cidade de comércio de bens essenciais à economia. Entramos numa loja e não nos ligam. Nem um cumprimento. Se não lhe perguntarmos algo nem nos falam. Nunca me tinha sentido tão invisível dentro de uma loja.












Como de costume, o jantar estava marcado para as 19:30h. Chegamos todos atrasados. No Butão a hora é diferente. Do arco para cá é meia hora mais tarde. Acertamos todos os relógios.

Olho com curiosidade para o buffet de jantar. O guia disse que a comida no Butão não é tão condimentada e não usam picante. Galinha guisada, legumes cozidos ao vapor e DAL. O arroz é vermelho, uma espécie característica do Butão. O cozinheiro deve-se ter esquecido do arroz ao lume porque parece argamassa. Por sorte há nuddles – massa chinesa fininha. Estou safa. O meu jantar é massa com legumes. O frango cheira a mofo.

O guia está a contar um pouco da história do país, em inglês para eu perceber. Uma área de pouco mais de 38 mil km2 (menos de metade da área de Portugal) com uma população de cerca de 700.000 habitantes. Um país muito jovem com uma média de idade que ronda os 24 anos. Até a dinastia real é jovem. Vão no 5º Rei. O Butão foi unificado apenas em 1907 quando foi coroado o 1º Rei. Antes disso era uma terra de feudos, cada um com um governador.

Só entrou na ONU em 1971, a conselho e com a ajuda da Indira Gandhi que se tornou amiga da família real depois de uma visita ao Butão. Também as relações externas do país foram governadas até há pouco tempo sob a tutela da Índia. Isto serviu para reforçar a independência do Butão relativamente à China, com quem têm antigas disputas de soberania de território. A China anda a pressionar as relações comerciais com o Butão e em jeito de piada, o Tenzin comenta que os chineses andam a construir grandes estradas até poucos km da fronteira leste. A Norte sempre estiveram protegidos pelo maciço de montanhas, uma barreira natural que impediu os chineses de chegar ao Butão quando ocuparam o Tibete.
As emissões de radio começaram apenas em 1973 e no ano seguinte o país abriu ao turismo. Isto significa que a cultura butanesa só há 40 anos é que teve contacto com estrangeiros. A Internet e televisão apareceram em 1999. Tudo é muito recente comparativamente ao resto do mundo.

Lá fora está a chover e a trovejar novamente. Raios fantásticos iluminam o céu. A terra treme.



SEXTA-FEIRA, DIA 22 MARÇO 2013


Partimos de Phuntsholing muito cedo. Dormir 8h por noite começa a ser um sonho. Os dias são ambiciosos e as estradas tortuosas. O plano é fazer da parte da manhã os 180 km que nos separam de PARO, uma das grandes cidades do Butão. Saímos sem tomar pequeno-almoço. Só há chá preto e uns pacotes de biscoitos que o vigilante do turno da noite nos presenteou cheio de cerimónias. Às 5:30h da manhã ainda estão todos a dormir.

Só existe uma estrada que liga a fronteira da cidade mais próxima – PARO – e nesta estrada há (pelo menos) três controlos policiais de veículos, pessoas e bens. Não há outra forma de entrar país dentro pois tudo o resto são montanhas altas sem caminhos para se atravessarem. É quase uma barreira natural que ajuda as autoridades a controlarem quem entra no Butão.

A estrada é fantástica, larga, bom piso. A paisagem é avassaladora. Montanhas verdes, altas, florestas densas. O horizonte apenas mostra picos de mais montanhas. Está frio e húmido, o sol esconde-se atrás das nuvens cinzentas. O céu continua branco. Mas a estrada é fabulosa, o nirvana nas alturas. Curva e contracurva, a cada curva uma nova visão do mundo, sempre a subir. Das encostas escarpadas correm ribeiros de água. Vamos serpenteando pela montanha, há pouco trânsito, a estrada é nossa. Em pouco mais de uma hora subimos até aos 2.500 metros. Nesse curto espaço de tempo deixei de transpirar de calor e comecei a tiritar de frio. Parei para cozer o forro do blusão. Depois parei para vestir o polar e finalmente para trocar de luvas. Pelas 7h da manhã começamos a cruzar com camiões coloridos, carregados, circulam devagar e dão passagem às motos. Tão diferente da Índia.















Contornamos para o outro lado da primeira montanha, descemos ao vale para subir de novo a próxima montanha. Cada vez mais alto, um sobe e desce contínuo, montanha após montanha. Pelas 9h da manhã paramos em GEDU uma aldeia de poucas casas e um pequeno restaurante. O pequeno-almoço é o que há … arroz, ovos mexidos e chá. Tenho o estômago colado às costas. Não sei se as tonturas são de fome ou das curvas. Os locais olham-nos com curiosidade. Não falam, não metem conversa. Apenas olham.

As casas estão encavalitadas nas encostas, quadradas, frisos coloridos ornamentam as janelas e as sancas. Parecem casinhas de brincar. Não se vê lixo no chão.







Partimos de novo. A estrada, escavada a custo na escarpa rochosa, por vezes fica estreita e só cabe um carro de cada vez. De um lado a parede da montanha, do outro o precipício. As curvas são apertadas, sem visibilidade. Muitas pedras no chão, atiradas pela tempestade de ontem. Um perigo em cada curva. Encontramos um camião virado na estrada. Já lá deve estar há uns tempos. De repente vemos uma mulher pequenina e magra, embrulhada num xaile, a agitar uma pequena bandeirola vermelha. Mais à frente homens trabalham porque a encosta está a deslizar sobre a estrada.











Desde a fronteira que passámos por dois controlos de polícia. Paramos em ambos para o guia mostrar a autorização de circulação das motos. Como são indianas têm de ter autorização especial. Não pedem passaportes nem visto de entrada. Os guardas olham-nos com atenção. São todos muito jovens.

Já do outro lado de um sem número de montanhas, um planalto alberga um rio que corre com velocidade. A estrada voltou a ser larga outra vez, acompanha o rio. No terceiro controlo de polícia estão todos parados. jeeps de turistas, camiões de carga e camionetes de passageiros. Toda a carga está a ser inspeccionada as malas, os bolsos. Fazem uma revista nas malas laterais das motos, perguntam de onde somos, carrancudos. O guia fala com o que parece ser o chefe. Aponta para nós e para a carrinha cheia de bagagem, tapada com um oleado e amarrada com cordas. Deixam-nos partir.

Mais tarde o guia disse-nos que é uma operação de controlo de tabaco. É proibido fumar no Butão e considerado uma ofensa fumar em locais públicos. No entanto, algumas pessoas têm autorização para o fazer, mas apenas podem importar 200 cigarros por mês e têm de ter o talão de pagamento de imposto (200% sobre o valor de custo) para mostrar à polícia. Por isso, há muito contrabando de cigarros, mercadoria que atinge preços altos no mercado negro. Quem for apanhado com cigarros ou tabaco de mascar sem documentos pode incorrer numa pena até 3 anos de prisão. Ao que parece, não costumam ser muito rígidos com os turistas.



















Já no final da viagem aproximam-se nuvens cinzentas, as montanhas estão cobertas de neblina. Quando chegamos a PARO começa a chover. Estragou-nos os planos. Tínhamos reservado a tarde para ir ao Tiger’s Nest um mosteiro perdido nas montanhas. É frequente aqui de repente desabar chuva e trovoada. O nome do Butão até está relacionado com isso. The Land of the Thunder Dragon ou o reino do dragão trovejante.







Enquanto chove vou à procura de presentes numa pequena loja mesmo ao lado do hotel. A senhora é simpática, num mau inglês explica-me os símbolos, mostra os sininhos usados pelos monges para a meditação, diz que faz um bom preço. Como sempre os meus olhos são puxados para as coisas mais caras. Tento explicar que quero pequenas lembranças de preço barato. Mostra-me algumas coisas. Acabo por gastar 25 euros em presentes. Mas comprei bastantes. E ainda consigo uma redução de 30%. Nada mau para os costumes butaneses. O guia tinha-me avisado que aqui não há negociação nem descontos. Como não há concorrência e a maior parte dos preços são tabelados pelo governo, os locais ainda não perceberam a técnica de aumentar o valor para depois fazer um desconto. Bem, alguns, porque a simpática senhora fez desconto do preço tabelado e de certeza que não perdeu dinheiro. Já deve estar habituada ao turismo.






A chuva parou tão depressa como começou. O céu abriu num azul lindo. Está uma tarde maravilhosa. Passo a tarde a descobrir PARO, uma pequena vila que aqui chamam de cidade, uma rua principal com muitas lojas, uma rua secundária paralela à principal e temos cidade.

PARO, uma cidade com cerca de 15.000 habitantes, situada a 2.000 metros de altitude é um dos destinos mais turísticos do país. Alberga o único aeroporto do Butão operado pela Druk Air, a linha aérea nacional Butanesa com ligações regulares para a Índia e outros países vizinhos.

As casas são construídas em madeira e pintadas de cores alegres, segundo a tradição arquitetónica do país. As lojas de turistas intervalam com lojas de produtos para locais. Pequenas vendas de doces e ainda mais lojas de bugigangas. Os Butaneses adoram coisas douradas resplandecentes e doces. As gomas, rebuçados e chocolates são coisas relativamente recentes por cá. Fazem as delícias dos jovens e adultos. Muitas lojas de roupa e tecidos. A maioria tem na etiqueta “Made in Bangladesh”. O Butão não tem indústrias, é quase tudo importado. E parece que não aposta na indústria por ser poluente. Como têm um rendimento confortável pela exportação de eletricidade, podem comprar aos vizinhos. E como no Bangladesh é onde se fabricam muitas das mercadorias que vão para a Europa, a moda aqui está sempre actualizada. Uma T-shirt de alças parecida com a moda de verão em Lisboa custa menos de um euro. Já estou arrependida de não ter trazido uma mala maior. Fartava-me de fazer compras.

Entro numa loja cheia até ao tecto de tecidos e trajes típicos. Túnicas, saias, camisas coloridas. Algumas mulheres escolhem padrões, falam depressa. Não me ligam nenhuma.

Por lei, durante o dia os butaneses têm de usar os trajes tradicionais. Os homens usam uma espécie de túnica – GHO – atada na cintura com um cinto – KERA. Fazem um fole acima da cintura que serve de bolso. As mulheres usam uma saia justa até aos pés – KIRA - e blusas coloridas.

Ao fundo da rua principal há uma fortaleza enorme. Está fechada e apenas a consigo fotografar de fora. Amanhã é aqui que vai ser o festival. Depois de deambular umas horas a ver montras e observar os locais volto para o hotel. É hora de jantar. São 7h da tarde, hora normal de jantar. Nunca tinha feito um horário destes. O despertar tem sido às 5h da manhã, o almoço às 2h da tarde e o jantar às 7h da tarde. Ando toda baralhada com as horas. Já nem uso relógio. É o que for.



















A comida do Hotel não sabe a nada. O guia tinha razão em dizer que era diferente da comida indiana. Mas até que podiam usar alguns temperos. Mais uma refeição de massa chinesa com legumes. Estou quase vegetariana. Ainda antes de terminarmos a refeição o empregado vem cobrar as cervejas. Mal pousamos o garfo já está com a conta na mão. Até me tentou cobrar o chá. Comento com o guia se desconfiam que não pagamos as bebidas alcoólicas e se o chá não está incluído no pacote da viagem. Lá desfez o mal-entendido com o empregado. Explica que eles têm pouca experiência com turismo e pede-nos para desculpar o rapaz. Comenta também que eles não percebem porque os turistas ficam à conversa depois de comer. Por cá uma refeição é apenas uma refeição. As pessoas só falam quando têm alguma coisa para dizer. Há poucas conversas. Comem e vão às suas vidas. Ele entende porque já viveu na Alemanha e percebe os estrangeiros.

Depois de jantar combinamos o programa do dia seguinte. Alguns de nós continuam com a ideia de subir ao mosteiro. Descubro que quando parou a chuva, 3 dos alemães ainda pediram ao guia para ir lá acima. Fico aborrecida. Também queria ir. Eu e mais alguns. O dia seguinte que tinha sido planeado como um dia calmo, com mais horas de sono acabou por ser alterado. Para ir ao mosteiro e para assistir ao festival anual de PARO temos de nos levantar de madrugada outra vez. Raios, nestas férias dormir é um luxo. Quando chegar a casa vou estar 24h seguidas a dormir.


SÁBADO, DIA 23 MARÇO 2013

Às 5h da manhã ouço vozes no corredor. Um sono ainda não acabado e uma vozinha lá no fundo que me diz para ir ver o que se passa. Levanto-me e visto-me à pressa. Desço e descubro que estão todos prontos para sair. O empregado da noite esqueceu-se de me acordar. Isto começa mal. Têm de esperar 30 minutos para me arranjar e tomar o pequeno-almoço. Ainda atabalhoada, saímos em direcção a Tigers Nest.

O sol ainda não acordou. Uma luz difusa e nevoeiro. 20 min de jipe até um parque de estacionamento no meio da floresta, o local transitável mais perto do mosteiro. Daqui até lá acima é uma hora de caminhada até ao primeiro ponto (view point) de onde se vê o mosteiro mais de perto.

Tiger’ nest Monastery é o nome por que é também conhecido o Taktsang Palphug Monastery, construído à entrada de uma gruta onde se acredita que o notável Padmasambhava meditou durante 3 anos, 3 meses, 3 semanas e 3 horas no século VIII. Padmasambhava, o grande mestre budista Nyingmapa (segundo Buda) é conhecido no Butão como "Guru Rimpoche”, pertencente à mais antiga escola budista (Red Hat sec) e à qual são atribuídas as primeiras traduções dos escritos de Buda, de sânscrito para tibetano. Foi ele quem trouxe o budismo para o Butão e reza a lenda que voou no dorso de um Tigre desde o Tibete até aqui.










Começamos a subir. Estamos a 2.000 mtrs de altitude e o mosteiro fica a 3.000 mtrs (para comparação, a nossa serra da estrela fica a 1.900 mtrs de altitude). A caminhada não é fácil. O terreno é muito inclinado. Não há estrada nem caminho que mereça esse nome. É mesmo um carreiro, batido pelos muitos caminheiros que como eu têm curiosidade de ver o mosteiro mais de perto. Uma subida íngreme, feita devagar para o coração não sair pela boca. Para que os pulmões consigam respirar. A esta altitude o coração bate forte. O cansaço vem rapidamente. Falta o fôlego. As pernas doem. Eu que faço apenas uns passeios ao fim de semana. Não sou caminheira mas pensei que seria uma boa experiência subir a montanha.

Ao longo da subida a paisagem revela-se. Há locais onde o mundo se estende aos nossos pés. Montanhas abruptas, intensamente verdes. As fotos não conseguem retratar esta maravilha. Uma hora e 15 min depois chegamos à falésia mesmo em frente ao mosteiro. Tem-se uma vista o mais perto possível. A partir daqui tem de se descer a ravina e subir um número interminável de degraus escavados na pedra, junto à cascata que corre numa garganta que separa do mosteiro. É mais uma hora de caminhada. Decido que chegar aqui já foi bom. Não vou continuar até lá. Fico bastante tempo sentada na cafetaria a olhar aquela construção encavalitada na falésia. Os monges queriam um local remoto e isolado para poderem meditar. Conseguiram. E o Governo respeita e ajuda pois não constrói estrada nem sequer uma passagem mais suave.



















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Durante a subida ainda tive a sorte de ver dois pequenos monges com burritos que desciam à vila para comprar víveres. Na descida encontrei-os a subir, com os cavalitos carregados

A descida foi mais fácil. Já não está tanto frio. Vou descendo devagar, em cada passada tiro uma foto. Cruzo com mais turistas que se esfalfam a subir. De várias nacionalidades, uns caminham, outros sobem em cima de burritos. A subida custa 400 ngultrum (o câmbio é igual à Rupia – 5,5 euros) e o preço foi estabelecido pelo governo. Qualquer pessoa que more na região e que tenha uma mula ou um cavalito pode ir para lá e fazer o serviço. Preço fixo.












São 11h da manhã. Vamos a caminho da grande fortaleza ver o festival. Foi uma sorte estar aqui na data do festival. Um acontecimento anual que chama muitos turistas e que é uma ocasião sagrada para os butaneses.

O festival de PARO, um dos mais movimentados do Butão, é realizado uma vez por ano no 10º dia do mês do calendário lunar Tibetano. É um “Tsechus”, uma festa religiosa budista, realizadas nos Dzongs (fortalezas) ou em mosteiros, onde os monges realizam uma série de danças com máscaras que retractam acontecimentos da vida de Padmasambhava.

Reza a história que este importante monge visitou o Tibete e Butão nos séculos oitavo e nono. Ele costumava converter os adversários do budismo através da realização de ritos, recitando mantras e praticava uma dança de subjugação para conquistar os espíritos e deuses locais. Sabendo disso, o moribundo Rei Sindhu Raja pediu-lhe ajuda. Padmasambhava realizou uma série de danças e restabeleceu a saúde do rei. O rei, agradecido, ajudou a espalhar o budismo no Butão.
Padmasambhava organizou o primeiro tsechu em Bumthang, onde as oito manifestações de Guru Rinpoche (Padmasambhava sendo a forma humana) foram apresentadas através de oito formas de danças.

As danças, consideradas sagradas, só podem ser realizadas por monges que se preparam semanas antes do festival, envolvidos em profunda oração e meditação. Os monges usam máscaras inspiradas em seres iluminados da história e os butaneses acreditam que assistir essas danças místicas é essencial para alcançar a iluminação.

Os Tsechus são grandes encontros sociais, que desempenham a função de ligação social entre pessoas que vivem espalhadas por aldeias remotas. Anualmente é uma oportunidade para os butaneses comemorarem com familiares e amigos. As pessoas se vestem as melhores roupas e usam jóias de coral e turquesa. Trazem cestas de bambu com comida e ficam o dia todo nos festivais. Todos os butaneses tentam assistir a um festival pelo menos uma vez na vida e muitos consideram uma bênção ser capaz de ver as danças.
















































Tivemos uma experiência curiosa. No meio da multidão anda um homem de meia-idade a falar com todos, sorridente. Muita gente o ouve. Não é monge. Aproximamos-nos para ver o que se passa. Metemos conversa. É um deputado do parlamento que anda em campanha eleitoral. Com um sorriso ainda mais largo explica-nos. Em 2008 o anterior Rei ofereceu a democracia ao povo. Estabeleceu um regime parlamentar, organizou eleições e formou-se o primeiro governo do país, com 1º Ministro e vários ministérios. Na altura concorreram 2 partidos. Daqui a uns meses vão ser as 2ªs eleições livres do Butão. Há 5 partidos a concorrer para o Governo. A campanha eleitoral é feita por visita dos candidatos a deputados às cidades e aldeias. Em muitos locais remotos têm de explicar o que são eleições pois muitas pessoas ainda não entendem. O Rei continua a ser muito respeitado e as suas opiniões são sempre muito consideradas.

Este senhor anda a incentivar as pessoas a votar. Pertence ao maior partido do país, pelo menos ao que teve mais votos em 2008. Acredita que vai ganhar as próximas eleições. Defende convictamente o princípio que o Rei estabeleceu há anos – que o Índice Nacional de Felicidade (Gross National Hapiness) é mais importante que o PIB. Este princípio, que já foi reconhecido pela ONU, é baseado em quarto pilares:

Igualdade no desenvolvimento socioeconómico;
Preservação e promoção do património cultural e espiritual;
Conservação do meio ambiente;
Boa governança.

Explica-nos demoradamente que os ricos não são sempre felizes enquanto que as pessoas felizes geralmente se consideram ricas.

O conceito traduz a ideia de que deter a propriedade de bens não conduz à felicidade. Como exemplo diz que mesmo sendo deputado, não tem carro e desloca-se de transportes públicos. Mora numa casa simples que partilha com mais irmãos, alegremente. Diz que a herança cultural é o que identifica um povo e lhe dá as raízes. Defende a conservação da Natureza e que não é necessário abater as florestas para ganhar dinheiro.

Se eu fosse butanesa votava nele. E talvez em qualquer um dos outros candidatos pois todos eles defendem coisas parecidas. Dito pelo próprio. Engraçado como ele fala tão bem dos seus adversários. Respeitam-se todos. Aliás, o respeito é O pilar da sociedade. Estou a gostar tanto de o ouvir que até me esqueci das horas. Ainda hoje partimos para o próximo destino. Antes de me despedir ainda tiramos uma foto. Quem sabe se acabei de ser fotografada com o futuro 1º ministro do Butão.








Depois de almoço partimos para Thimpu, a capital do Butão. A saída de PARO a estrada está em reparações. Enormes camiões descarregam pedras apanhadas no leito dos rios, pedras redondas de vários tamanhos que depois são partidas pelos trabalhadores com grandes maços de madeira, para fazer a cama de brita. A seguir o alcatrão a ferver é espalhado à pazada e alisado à mão com barras de madeira forradas a metal. Depois passa um pequeno compactador e está acabada a estrada. A maioria dos trabalhadores são mulheres jovens, vestidas de colorido, que param de levantar pedras para nos observarem sorridentes.






Uma viagem curta de 80 km, sempre a acompanhar o rio que corre ao longo do vale (aqui chamam vale a um planalto a 2.000 mts. de altitude). Um caminho rápido por uma estrada larga e piso razoável, com uma paisagem fantástica.

Lá em baixo há uma ponte suspensa com uma pequena torre em cada lado. Já temos passado por várias destas. Finalmente perguntei o que era isto, isolado no meio do nada. A estrada asfaltada foi construída por cima dos trilhos usados antigamente, por onde as pessoas viajavam a pé ou em burros. Para atravessarem os rios foram construídas pontes que eram assinaladas pelas torres para que os viajantes soubessem onde podiam atravessar. Hoje em dia o Governo entende que deve preservar o património, então todas as pontes suspensas junto à estrada foram arranjadas. E aqui aprendi outra coisa – a estrada que andamos a percorrer é a única que atravessa o país, de Este a Oeste, foi a primeira a ser alcatroada e foi baptizada de “Lateral Road”. As obras começaram nos anos 60 … e ainda continuam. Depois desta só há mais meia dúzia de estradas alcatroadas que ligam a Lateral Road a outros pontos do país. O resto são trilhos.












O nosso Hotel é mesmo no centro de Thimpu. Nota-se que é uma cidade importante do país, muito movimentada e já com edifícios em betão, misturados com casas de arquitectura tradicional. Um bocado descaracterizado. Não me apetece ir explorar a cidade. Doem-me as pernas de ter caminhado tanto esta manhã. O dia foi muito intenso. Há tanto para escrever. Vou aproveitar para descansar e para tomar um bom banho. Este Hotel tem banheira e água com pressão. Nem acredito.



DOMINGO, DIA 24 MARÇO 2013


De manhã cedo começamos a subir a montanha outra vez. No Butão, para se passar de um vale ao outro não basta contornar as encostas. É preciso subir até ao cimo e atravessar as passagens de montanha. Em pouco mais de 30km subimos do vale e estamos a 3.100 metros de altitude, no Dochula Pass. Um dia lindo e azul, um frio de rachar. A paisagem é indescritível. O local está cheio de pequenas construções que fazem lembrar templos em miniatura.

A família real mandou construir 108 Chortens – marcos de homenagem aos militares que faleceram quando expulsaram uns rebeldes indianos do território há 10 anos. Surpreendeu-me esta história pois não estou a ver os pacíficos butaneses em guerra. Parece que havia uns problemas com uns opositores indianos que assentaram base no Butão e que a Índia disse ao Rei que se não os expulsava o exército indiano entrava por aqui adentro e fazia o serviço. Coisas da política.















Contornamos a montanha por uma estrada estreita mas boa. Farrapos de nevoeiro pairam presos nas copas das árvores. Parecem colunas de fumo por cima da floresta densa. No caminho encontramos YAKs, uma espécie de boi de pelo comprido e preto e grandes chifres. Andam em estado selvagem. Não se assustam à nossa passagem.













Avistamos o vale de Punakha. Lá em baixo avistam-se os campos cultivados em escada, povoações e um pequeno rio. E de repente, mais uma descida a pique. É engraçado como eles constroem as estradas. Quer para subir quer para descer, um zig-zague de 1 km é suficiente para atingir uma altitude considerável ou se chegar ao vale. É quase vertical a espiral e os cotovelos. A floresta tapa a estrada senão tinha aqui centenas de fotografias de Stelvios butaneses.







Assim que entramos no meio do vale fico sem respiração. O guia já deve estar habituado a estas coisas. Parou na estrada. A vista é soberba, fenomenal. Incrível. Tenho à minha frente todo o meu imaginário do Oriente. Um rio azul, uma fortaleza branca, as montanhas recortadas no céu azul.

Punakha Dzong, ou "o palácio da grande felicidade" é uma antiga fortaleza monástica que foi o centro administrativo do país e assento do governo até 1955, ano em que a capital mudou para Thimpu. Foi também aqui que se realizou o casamento do actual rei. Uma fortaleza imponente, considerada como a mais bonita do Butão e arquitectonicamente mais rica.


























Há aqui muitos jovens, vestidos com túnicas vermelhas, aprendizes da filosofia budista. Observo-os a tomar banho no rio, brincam na água, ouvem-se risos. Segundo a explicação do guia, historicamente as famílias mais pobres enviavam um dos filhos para um mosteiro para que tenham acesso à educação e também por razões de sobrevivência. As crianças transformam-se em monges muito cedo para aprender a renunciar às tentações e às comodidades da vida. É considerado uma honra a família ter um monge num mosteiro.

O meu pai dizia o mesmo. Contava-me que há uns 50 ou pouco mais anos, em Portugal (e pela Europa toda) havia o hábito de mandar um filho para o seminário. Ser padre era sinónimo de conseguir uma vida melhor, de saber ler, escrever e aprender a não cair em pecado.

Países tão distantes, religiões/filosofias tão diferentes e … mais do mesmo.








Enquanto visitamos a fortaleza o mecânico anda a verificar a pressão dos pneus. Com uma bomba de pé, enche de ar. Apalpa o pneu. Dá mais ar. Por fim, encosta a orelha na roda, dá umas batidas na borracha com um martelo e ouve o som. Está pronto para rolar.







Dentro dos mosteiros, os butaneses têm de vestir obrigatoriamente o traje tradicional. O nosso guia anda normalmente com o equipamento da moto. Antes de entrarmos tivemos de estar à espera que ele se vestisse. Foi hilariante. Vestiu a túnica e atou com o cinto. Tirou as botas e as calças e calçou uns ténis. Estava pronto. Quando saímos continuou assim. O almoço era num restaurante perto e foi de perna à mostra até lá. Parecia que ia a conduzir de saia.









Ainda temos uns 150 km pela frente. Circulamos pela estrada de montanha, umas vezes estreita, outras vezes mais larga, mas sempre com alguns troços em obras porque a encosta desabou sobre a estrada. Passamos por bastantes YAKs. Uns andam pelos campos, outros estão mesmo à beira da estrada. Perto das povoações vemos muitas vaquinhas. Mas ao contrário das indianas, andam pela borda da estrada, acompanhadas pelo dono. Aqui as vacas não são sagradas. Deve ser por isso que são mais gordinhas e lustrosas. E também por isso que as crianças têm leite para beber.

Nunca entendi esta obsessão dos homens pelo sagrado e proibido. Em vez de pensarem no bem estar e em serem felizes pensam em criar regras. Muitas delas só podem ter sido criadas por deficientes ou velhos alzeimers sem noção nenhuma da realidade. Talvez já tenham sido homens sábios mas a verdade é que a idade trás a doença e leva o discernimento. E o que ainda me faz mais confusão é as pessoas seguirem essas regras. Deveriam avaliar se quem manda ainda tem condições para o fazer. Não me faz sentido entronizar como sagradas as vacas e obrigar tantos milhões a passar fome. Não me faz sentido seguir uma ordem para matar pessoas só porque são de outra religião ou de outra cor ou sei lá que mais desculpas arranjam para fazer guerras. Que raio, avançámos tanto em todas as ciências mas o pensamento continua a ser o mesmo de há 2.000 anos.











Atravessamos mais uma passagem de montanha – Pele La Pass – a 3.300 metros de altitude. Está frio. Para assinalar a passagem há outro Chorten e uma selva de bandeirolas. Diferentes das grandes bandeiras hasteadas em estacas, são também bandeiras de oração. Cordas muito compridas, cheias de pequenas bandeirinhas de cores fortes – amarelas, verdes, vermelhas, brancas e azuis. Cada cor simboliza um dos elementos – terra, água, fogo, ar e espaço. Penduradas em locais altos e ventosos, em pontes ou na frente das casas, os budistas acreditam que estas bandeiras trazem boa fortuna e purificam o karma negativo. O Guia já deve estar farto de me explicar coisas. Fala disto tudo com muita reverência e diz que antigamente as orações e mantras eram pintadas à mão em pedaços de tecido. Desde que as bandeiras começaram a ser impressas por máquinas, agora é mais fácil as populações pendurarem muitas bandeiras e espalhar a felicidade e a fé no Budismo. Realmente é bonito de ver uma quantidade enorme de bandeirolas coloridas a abanar ao sabor do vento. Dá um ar de festa. Eu como Ocidental associo as bandeiras a ocasiões festivas. E festa é sinal de boa disposição.

Este marco está mesmo no meio da estrada. Um ponto onde a estrada é bastante larga. Há uma barraca de madeira com tecidos, tapetes e lenços à venda. Duas mulheres esperam pelos turistas que param obrigatoriamente aqui.














Na descida para o vale encontramos outro Chorten. Este foi construído no séc XVIII para tapar um espírito maligno que era contrário à filosofia budista e foi derrotado neste sítio. Este espírito, segundo reza a lenda, manifestava-se em forma de uma serpente gigante. No cimo da construção uma pedra quadrada tem olhos desenhados em todas as direcções. Um bocado assustador.







Quase no final do dia fazemos uma paragem para descansar à beira da estrada. Do outro lado da montanha, bem pertinho, o guia mostra o hotel onde vamos ficar. Parece tão perto mas ainda temos de contornar a montanha e fazer 17 kms para lá chegar.













 



SEGUNDA-FEIRA, DIA 25 MARÇO 2013


Mais um despertar de madrugada. A vista do hotel é mais uma vez fabulosa. Montanhas e florestas cobertas por nevoeiro. Pedaços de nuvens estão presos nas árvores. Ando a tirar umas fotos do hotel porque ontem chegámos já não havia muita luz. Nem me apercebi da vista fantástica sobre a fortaleza de Trongsa.




Às 9h da manhã já estamos à porta da torre de vigia da fortaleza de Trongsa. Está transformada em museu onde estão guardadas muitas das relíquias da religião budista butanesa. Não se pode fotografar no interior (como em todos os mosteiros) e os guardas obrigam a deixar todos os pertences à entrada. Até revistam os bolsos. A torre tem 3 pisos e está cheia de estátuas, manuscritos e uma cópia da coroa dos antigos governadores da região que tem uma cabeça de corvo. Foi daqui que apareceu a actual monarquia do Butão, que é descendente do governador desta parte central do país.

Do último andar tem-se uma vista fantástica. A torre e a fortaleza estão construídas numa encosta que domina a junção de quatro vales. É ponto de passagem obrigatória para quem se desloca entre o Este e o Oeste. Uma localização estratégica para quem quer dominar as rotas de comércio.






Apenas é permitido visitar o pátio interior da fortaleza – Trongsa Dzong. Entramos por uma pequena ponte de madeira, subimos a estrada de acesso e uma porta estreita leva-nos por um corredor cheio de pinturas de Buda ao pátio interior. Não me canso de ver esta arquitectura cuidada, os pormenores do trabalho em madeira, as pinturas de cores fortes.










O destino de hoje é o vale de Bumthang que está a 2.600 metros de altitude. Eu que nasci e sempre vivi numa cidade ao nível do mar acho engraçado eles chamarem vale a um planalto tão alto. Mais uma situação que prova que tudo é relativo, condicionado pela vivência das pessoas.

Para lá chegar temos de atravessar mais uma passagem de montanha, o Yutong-la pass, a 3.400 metros de altitude. Andamos cada vez mais alto. Cada vez mais frio. Mas o frio daqui é mais fácil de suportar. Não sentimos a humidade do ar porque é seco. Tenho uma t-shirt de algodão vestida por debaixo do casaco e é suficiente. O casaco é quentinho. Outro marco assinala a passagem e mais outra selva de bandeirolas, estas já um pouco estragadas do vento que sopra forte. Não ficamos parados por muito tempo.







Tenho reparado que em muitos locais há uma enorme quantidade de pequenas formas pontiagudas, algumas coloridas outras brancas. O guia explica que são feitas de terra, moldadas em formas. Têm dois propósitos: ou são apenas para trazer boa sorte e longa vida a quem as faz e neste caso são purificadas pelos monges numa cerimónia especial e depois são colocadas em lugares “limpos” ou então … são as cinzas dos falecidos que depois de cremados as famílias misturam com terra e fazem estas pequenas formas para que o falecido tenha uma “boa reencarnação”.

Não sei o que me faz mais confusão – se a superstição de que moldar um montículo de terra vai trazer uma vida mais longa se o facto de haver cinzas de corpos humanos espalhadas por todos os lados. Não consigo acreditar em nada disto. Por todo o mundo, a religião mistura-se com as antigas crenças pagãs. Através dos séculos os homens tiveram necessidade de acreditar em qualquer coisa, seja lá o que for. Até coisas sem sentido. Talvez o mundo mude quando começarmos a acreditar em nós próprios e que uma longa vida se constrói dia-a-dia.





Estamos mesmo no centro do país, no meio da floresta negra, num vale que é considerado o centro cultural e espiritual do Butão. Rolamos por entre aldeias e quintas, campos cultivados, animais e casas rurais que mais parecem pequenos templos.

Numa das aldeias há uma loja de artesanato que vende produtos de tecelagem. Cá fora está um tear manual. Tapetes, mantas ou faixas de cores garridas, umas em lã, outras em fio de seda. Todas incríveis, com motivos espirituais, parecidos com os padrões que vi nos mosteiros. Feitas à mão por artesãos. Caras, caríssimas. A loja até tem um terminal de pagamento automático. Enquanto os alemães fazem compras entretenho-me a fotografar o interior da loja. Para além dos tecidos, há máscaras espectaculares.












Muitas crianças correm para nos ver. Curiosas, riem-se para nós. Reparei no caminho muitos grupos de crianças, com lancheiras, a caminhar à beira da estrada, saídas da escola de certeza. O Tenzin diz que esta região do país tem uma taxa de nascimento muito elevada. Até há poucos anos os jovens casavam muito cedo. As raparigas aos 12 anos e os rapazes aos 14 anos. Por tradição os casamentos são combinados pelos pais que escolhem famílias do mesmo estatuto social ou melhor. Agora é proibido. Só podem casar a partir dos 18 anos. E se dois jovens se quiserem casar podem pedir autorização ao tribunal. Mas é raro acontecer porque os filhos respeitam muito a opinião dos pais. O divórcio é permitido e a taxa de divórcios é muito alta. Ele próprio já vai no segundo divórcio. Casamentos arranjados pelos pais. Depois da explicação remata com uma frase que me arrepiou – Sabes, o conceito de amor e estar apaixonado é muito recente no Butão. Fiquei sem palavras. Acho que vou demorar a mastigar isto.




Mais um hotel encavalitado na encosta com uma vista soberba sobre o rio e o vale. Só nas cidades os hotéis são em edifícios. Pelo interior usam os bungalows. Fixe. Os quartos são grandes, as camas duras, pouca mobília. A noite é gelada. Este tem um pequeno forno em metal que aquece o quarto rapidamente. Mas usam madeira de pinho que arde num instante. Enquanto fui jantar apagou o lume. Imaginei-me a acordar de noite, de hora a hora, para meter lenha no forno. Acabei por pedir um aquecedor eléctrico. Cara de espanto do dono. Explico que venho de um país tropical, em que a temperatura no inverno é mais quente que agora aqui. E eles consideram esta temperatura como uma boa primavera.

O alemães ainda estão na sala de jantar à volta das cervejas. Enquanto espero que vão por o aquecedor no quarto começamos a falar do frio. Um deles pergunta-me qual a melhor época para andar de moto em Portugal. Respondo com um ar muito sério e distraído – de Janeiro a Dezembro.

De repente param de conversar e olham todos para mim de olhos muito abertos. Faço-me de desentendida. Voltam a perguntar de novo. Repito que se pode andar de moto durante todo o ano. Apenas em Fevereiro e Março chove um bocado mas anda-se bem. E não há neve? Sim, temos uma montanha com neve no Inverno mas mesmo assim ainda conseguimos subir lá acima.

Estou a fazer um esforço enorme para não me rir da cara de espanto deles. Quase sou obrigada a explicar que temos um clima bastante ameno e que costumamos andar de moto todo o ano sem problema. Com um ar de desalento um deles explica que neste momento há metros de neve na Alemanha e que apenas podem rolar 8 meses por ano. Faço um ar admirado como se aquilo fosse algo de muito estranho. Respondo com um sorriso que têm de ir viver para Portugal.

Saio da sala de jantar ainda com o meu ar composto mas por dentro estou esfusiante. Chego ao quarto a rir-me sozinha. Satisfeita. Eles podem ter mais dinheiro ou melhores motos. Mas eu vivo num paraíso.







TERÇA-FEIRA, DIA 26 MARÇO 2013


Hoje deixaram-nos dormir até às 9h da manhã. Youpieee. Vamos ficar neste hotel duas noites. O dia vai ser passado a visitar o vale. Sem pressas. O pequeno-almoço é demorado. Estamos na conversa à espera que o mecânico acabe de arranjar uma das motos. Abriu o motor e desmanchou-o todo. No meio do estacionamento. Está a limpar engrenagens. Depois de fechar o motor mete óleo com um bocado de plástico cortado de um garrafão de água. É um trabalho admirável. Mesmo sem perceber alemão adivinho os comentários dos companheiros de estrada. Pelos risos e caras de admiração.







O primeiro mosteiro chama-se Jambey Monastry. Foi dos primeiros a ser construído no Butão. Pertence aos 108 mosteiros que um remoto Rei do Tibete mandou construir por toda a região dos Himalaias para difundir o budismo. Já percebi o porquê do número 108 – os chortens que construíram no Dochula Pass onde passamos há 2 dias. Nota-se bem que o mosteiro é antigo. Está um pouco degradado e anda em trabalhos de restauro.

À entrada há 4 rodas de oração enormes, duas de cada lado. Cada vez que giram fazem tocar uma campainha. Andam muitos velhotes por aqui, a dar voltas ao mosteiro, com rodas de oração na mão. Uma velhota está de joelhos, inclina o corpo até ao chão e endireita-se, canta umas rezas. O guia diz que são habitantes da aldeia próxima. Vêm para aqui porque não têm mais nada para fazer. Fez-me lembrar das beatas que passam a vida enfiadas nas igrejas.

















Cá fora, na entrada estão mulheres a vender artesanato, made in China. Já começo a reconhecer os artigos. São todos iguais em todo o lado. Colares de grandes pedras que todos dizem serem semipreciosas, pulseiras de osso de YAK em plástico, vasos em metal que quando se tocam fazem o barulho dos gongos dos mosteiros. O costume.

O turismo entrou no Butão há pouco tempo mas as pessoas aprenderam depressa. Até estou contente de não ter ido na conversa dos vendedores das lojas em PARO. Poupei umas massas em não comprar “artigos raros”. Um dos alemães pergunta-me como é que sendo mulher resisti às compras. Respondo-lhe que tirei o diploma de negociação com os marroquinos e a pós-graduação na Índia. Logo à noite explico melhor.




Uns poucos km mais à frente e estamos no Kurje Lhakhang, um conjunto de 3 mosteiros. O muro que rodeia o complexo tem 108 pequenos chortens (de novo o número 108). Entra-se por um arco em madeira para um enorme pátio. Só um se pode visitar um dos mosteiros mas é o mais sagrado. Foi construído na entrada de uma gruta onde Padsambhava - o Guru Rimpoche, meditou. Tal era o seu poder que deixou gravado na rocha a marca do seu corpo enquanto meditava. É considerado um local santo. Não deixam tirar fotos no interior.







Mais uma estrada que não existe, um caminho de terra e poças de água para chegar a outro mosteiro - Tamshing Lhakhang. Este também é muito antigo e foi construído por um monge que se dizia ser a reencarnação do Guru. Tem umas pinturas espantosas mas em muito mau estado. No corredor interior estão pintados mil Budas. O templo está quase em ruínas e é mantido pelos aldeões.

No pátio há uma banca de venda de artigos feitos pelos monges e uma caixa para donativos. Como o mosteiro não é apoiado pelo Governo, precisam de recolher dinheiro para recuperar o mosteiro. O engraçado é que está à venda uma tapeçaria em fio de seda por 150 euros igualzinha a uma que vimos ontem na loja de artesanato e que custava 800 euros. Um dos alemães ficou todo contente e comprou.










Vêem-se corvos às centenas. Enormes, pretos, em bandos ou em pares, estão em todo o lado. Voam em bandos até tapar o céu. Poisam perto de nós, quase a desafiar-nos. As pessoas coabitam calmamente com eles. Já dei por mim a baixar a cabeça com medo das razias que nos fazem ao poisar. Não deve ser por acaso que o corvo é um dos símbolos nacionais e que a coroa de Rei tem um corvo no topo.


Acabámos de almoçar e temos a tarde livre. Acho que vou dormir uma sesta. Depois volto para o restaurante e aproveito que aqui há Internet. Vou falar com a família e espreitar as novidades de casa. Não me apetece fazer mais visitas hoje.

Desde que entrei no Butão que reparo em algumas mulheres com os lábios pintados de vermelho vivo e até alguns homens com os cantos da boca vermelhos. Não percebia porquê, até cheguei a pensar que seria um hábito de maquilhagem local. A deambular dentro da fortaleza e a fotografar as pessoas apercebi-me que quase todos andam a mastigar qualquer coisa, todos com lábios vermelhos. Pergunto ao guia o que significa aquilo. Parece que nesta zona da Ásia, há uma tradição ancestral de mascar Betel Nut, uma semente conhecida por noz de Betel, uma espécie de palmeira encontrada nesta região. A noz é enrolada numa folha fresca da palmeira e pincelada com cal. Este preparado é mastigado por várias horas e muito popular quer em mulheres quer em homens. Contém substâncias químicas semelhantes à nicotina, o que significa que tem um efeito narcótico e viciante no consumidor. A mastigação mistura os ingredientes e transforma-se numa massa vermelha que pinta os dentes e estimula a salivação. Também fiquei a perceber porque tenho visto tanta gente a cuspir para o chão.











QUARTA-FEIRA, DIA 27 MARÇO 2013
 
Hoje vamos ter uma odisseia pela frente. 210 km de montanha bem alta. Vamos atravessar duas passagens de montanha, uma delas a quase 4.000 metros de altitude. Vesti o polar e cozi os forros todos do casaco. Está muito frio. O resto do pessoal anda todo contente. Eu confesso que estou apreensiva. A única coisa que não esperava nesta viagem foi o estado das estradas. Um paraíso para quem gosta de andar por maus caminhos. Péssimo para mim. Vamos embora. Hei-de conseguir.


Vamos subindo (ainda mais) por entre curvas de céu limpo e horizonte sem fim. Lá ao fundo os picos de neve vão espreitando por entre as nuvens. Atravessamos Ura La Pass, mais uma passagem de montanha para o outro lado. Descemos de novo ao vale. Isto parece um carrossel, sobe e desce. Em cada subida a paisagem é mais espectacular que a anterior, cada vale é mais escondido e mais bonito. Neste as casas estão todas viradas para o mesmo lado. Para o sol. Visto cá de cima parece uma montagem de Legos, casinhas todas iguais, arrumadinhas, coloridas.










Isto de viajar com companhia é quase um luxo. Nunca tive tantas fotos minhas nos sítios por onde andamos. Como na maior parte das vezes ando por esse mundo fora sozinha, acabo por não ter fotos minhas. Uma vez perguntaram-me porque tirava tantas fotos da minha moto. Acho que é para um dia mais tarde eu saber que lá estive. Um bocado hilariante mas verdade. A moto é a minha companheira de viagem. Se ela soubesse tirar fotos eu também aparecia nelas. Também já podia ter começado a usar a função de retardador da máquina. Mas nunca me lembro disso. Fico sempre tão feliz por estar num local e por ver coisas diferentes que nem me lembro de (me) tirar fotos.



Ainda estamos na região conhecida por Black Mountains, as montanhas negras. As árvores são escuras, altas e agrestes. A floresta é densa. O nevoeiro não larga as copas das árvores. Desce até à estrada, não se vê quase nada. Há neve nas encostas, nas curvas da estrada, blocos brancos que se confundem no nevoeiro. Não percebo onde estou, a paisagem desapareceu. É tudo branco à minha volta.


A estrada é terra e lama. Vamos devagar. Conduzo um bocado em automático. Tenho tanto medo que nem sinto nada. Acho que os outros também estão um bocado impressionados. Nem me ultrapassam. Vamos todos em fila, com cuidado, encostados à parede da montanha. Meio metro ao lado deve haver uma ravina medonha.







Atingimos a passagem mais alta. Estamos a cerca de 3.900 metros de altitude. Assinalado com um marco de estrada que nos diz onde estamos. Paramos para as fotos da praxe. Tiro o capacete só para a foto e tenho de fazer esforço para não se notar que estou a tremer de frio. Afasto-me um pouco dos outros. Vejo-os esbatidos através do nevoeiro. O silêncio é impressionante. Parece que nos esmaga.









O guia está mais que habituado à altitude e ao frio. Estamos todos a tiritar e ele está pausadamente a explicar coisas. Nesta região há bastantes mosteiros escondidos na floresta. Não se podem visitar, só entram monges. Fazem uma vida de privação, comem apenas o que cultivam, não têm aquecimento, não há TV ou Internet nem sequer telefone. Vivem completamente afastados do mundo, em retiro, em meditação. Diz-se que para conseguir atingir um grau de iluminação superior têm de meditar profundamente durante cerca de três anos. Para limpar todos os pensamentos impuros, as tentações.


Fiquei a pensar que tentações eles têm de limpar. Num país onde tudo está num estado quase puro, onde não existem as tentações da civilização a que assistimos todos os dias, ainda assim eles pensam que precisam de se purificar. Quando se viaja e se conhecem outros mundos, outras formas de viver, fica-se com a certeza que nada está certo e nada está errado. As nossas certezas são tão incertas.

Seguimos pela montanha adentro, o nevoeiro acompanha-nos. Depois de estarmos parados lá em cima fiquei mais calma. Se cheguei até aqui também posso continuar. Estou tão satisfeita comigo própria que me dá vontade de rir. Ando numa moto com pneus de estrada, fininhos e quase carecas a fazer todo-o-terreno. Cada vez que penso que a malta vai fazer terra com motos potentes, preparadas com pneus de tacos e artilhados com protecções para tudo, lembro-me como tudo na vida é relativo e sem importância. Aqui estou eu, no topo do mundo, a ultrapassar obstáculos que em casa seriam uma catástrofe. Estou apavorada com a estrada mas vou continuando. Não vale a pena bloquear. O caminho é para a frente. Vai melhorar de certeza.

Os meus ouvidos apitam e estalam a avisar que estamos a descer. Este é o país das curvas. Faz as delícias de quem gosta de conduzir no limite do pneu. Faz as delícias de quem gosta de maus caminhos. Na minha mente passam imagens dos meus amigos do Trail, enlameados, cansados, olhos brilhantes de satisfação e a pular de contentes por andar aqui. Imagino-os a dizerem-me que sou uma medrosa e que é tudo psicológico. Pois deve ser. Cada um com os seus medos. Mas uma coisa é certa, há lugares que são difíceis para se chegar. Mas valem a pena. Valem todo o esforço. E ajudam a ultrapassar os medos.

O nevoeiro ficou lá em cima, a estrada de terra também. Rolamos montanha abaixo, embalados pelas curvas que contornam a encosta. Numa paragem para descansar há um pequeno café pendurado na encosta. Tem um nome interessante. Lá dentro estão 4 monges a comer. Também devem andar em viagem para um qualquer mosteiro. Olham-nos com curiosidade.









Por aqui não existe o conceito de casa de banho. As populações utilizam o campo. Cada vez que preciso tenho de ir atrás de um arbusto. Hilariante. Também é raro haver um local com uma mera latrina. Aqui há. Mas foi uma experiência assustadora. Um cubículo em madeira pendurado no abismo. No chão há espaços entre as madeiras a olhar para o vazio lá em baixo. Foi preciso um auto controlo muito forte para conseguir fazer as necessidades. Não vai ser difícil contar piadas sobre esta odisseia.






Finalmente chegamos a Mongar, numa altitude mais razoável. Só da altura da nossa serra da Estrela. A temperatura é mais agradável. O quarto do hotel é …. celestial. Paredes azuis, colcha azul, cortinas azuis. O chuveiro é no tecto. A água cai no meio da casa de banho e escorre para um ralo no canto. Depois do duche o chão está todo alagado, pinga para dentro do quarto. A TV deve ter uns 30 anos, está encalhada no canal nacional do Butão a passar uma novela dramática. O som é altíssimo e não baixa. O comando não funciona e a TV tem buracos nos sítios dos botões.

O que salva tudo é a simpatia das funcionárias. Ao jantar, a mais velha ensina a servir à mesa. Ficam com cara de felicidade depois de conseguirem por os pratos na mesa, um por um. Uma missão que lhe arranca sorrisos de contentamento. Saltitam à volta da mesa, coram quando lhes falamos, respondem num mau inglês. Estamos todos com um ar divertido, dispostos a perdoar a péssima comida e as casas de banho inundadas.


 
 

QUINTA-FEIRA, DIA 28 MARÇO 2013


Esta noite tive pesadelos. Sonhei com a estrada que fizemos ontem. Estava a cair num abismo. Sonhei com as ambulâncias que vi passar durante a tarde quando atravessámos o vale. Viaturas recentes com bom aspecto. Mas foi um pesadelo. Confundia o branco do nevoeiro com o branco das ambulâncias. Quando ando nestas aventuras o meu medo real é saber que o próximo hospital está a longas horas de distância e provavelmente com poucos recursos. Por isso não arrisco a conduzir depressa. Prefiro cair devagar e ter só umas esfoladelas que cair depressa e partir algum osso. Acho que o pesadelo foi de ver as ambulâncias a passar.

Ao pequeno-almoço perguntei ao guia se sabia de algum acidente grave nas redondezas porque tínhamos passado por 3 ambulâncias. Olhou para mim e riu. Nada disso. Aqui há poucos acidentes. São técnicos de saúde que andam nas aldeias a fazer rastreios e ensinar às populações os cuidados de higiene e alimentação. As ambulâncias estão equipadas com tudo o necessário para fazer análises básicas, raios-X ou cuidados de enfermagem. No Butão, o sistema de saúde é completamente gratuito e os médicos andam mais tempo a correr o país do que ficam nos hospitais. O Governo sabe que as populações não têm o hábito de ir ao médico, por isso manda os médicos às aldeias. Se eu tivesse perguntado ontem sobre as ambulâncias se calhar tinha dormido melhor.

Hoje temos só uns 100 kms de curvas. Já digo só porque é metade do caminho de ontem. Na passagem de montanha, o Korilla Pass a 3.000 metros de altitude tiramos a primeira foto de Grupo. É engraçado, andamos juntos há quase duas semanas e no penúltimo dia é que nos juntamos para a foto. Acho que se fossemos todos Tugas já tínhamos tirado um monte de fotografias de grupo. Entre a Alemanha e Portugal são pouco mais de 2.000 kms mas a distância entre culturas é abismal.





Rolamos mais rápido. Finalmente uma estrada em condições. Linda, linda. Vamos serpenteando pela encosta, sempre a descer em cotovelos, rodeados de floresta. Por vezes a encosta de pedra inclina-se sobre a estrada. A vegetação é mais baixa, deixa espalhar o olhar pelo horizonte. Lindo, lindo, lindo.











Paramos em Trashigang para almoçar. Um restaurante que é apenas uma cozinha. Tem uma esplanada no meio da rua, protegida por um biombo feito de folhas de bambu. Lá vou almoçar apenas para não sentir fome e ter energia. Como sempre é buffet. Mas tenho uma surpresa. A comida cheira bem. É saborosa, deliciosa, sabe a temperos, um ligeiro travo de picante, coentros e gengibre. A galinha tem um molho fantástico. É a melhor massa chinesa que comi até hoje. Ganho coragem e experimento o arroz vermelho. Não é argamassa, está solto, cozido q.b., aromático. Só depois de acabar é que reparo que os alemães estão a olhar para mim e a rir. Devo ter feito um ar muito esfomeado. Já várias vezes me perguntaram porque não comia nada, só bolachas cada vez que paramos para descansar na estrada.




Estou satisfeita. Comi com gosto. E comi demais. Estou tão cheia que me deu o sono. Vou dar uma volta pela cidade para ver se acordo. Um largo e uma rua principal. Algumas lojas. Pouco turismo. Mesmo como eu gosto. Descubro uma loja com uma pequena vitrina cheia de garrafas de whisky nacional, destilado no país. É uma taberna escura, duas mesas com homens sentados a beber. Todos olham espantados. Pergunto ao dono se tem garrafas miniaturas. Em linguagem mímica aponto para uma garrafa e faço sinal de pequeno. Responde em inglês. Fixe. Compro 4 garrafitas para levar de presente. Diz-me em voz baixa e com ar cúmplice – whisky butanês é muito forte, tens de misturar com água. Explico que não é para mim, é para levar de recordação. Acena com a cabeça mas acho que não ficou convencido. Embrulha em folhas de jornal. Aqui está um presente genuíno embrulhado nas notícias do dia.

Volto ao restaurante e informo o pessoal do que encontrei. Nem 5 minutos depois estavam todos enfiados na taberna. Foi uma hora de bom negócio para a loja. Saíram todos de saco na mão. Cá fora estão muitos locais a olhar para nós. Riem-se.






Antes de partir para Ranjgung ainda tivemos tempo de visitar rapidamente o Trashigang Dzong, uma fortaleza que alberga o centro administrativo da região, o tribunal e o templo. À entrada estavam uns monges com ar simpático. Não resisti e pedi para tirar uma foto com eles. Concordaram.




Como de costume só deixam tirar fotos no pátio central. No interior é proibido. Lá ao fundo ouvem-se cânticos. Por detrás de uma porta estão os monges a estudar os escritos de Buda. Desta vez deixaram-nos espreitar dentro do templo. Jovens vestidos de vermelho, todos de igual, sentados no chão de pernas cruzadas, leem pequenos manuscritos a cantar. Uma melodia monótona, gritos comandados por um monge mais velho cuja voz sobressai da ladainha geral. São todos muito novos, uns mais distraídos olham-nos pelo canto do olho. Outros mais concentrados bamboleiam-se ao som da ladainha. À socapa tirei umas fotos e gravei um pequeno vídeo. Mas senti-me uma intrusa numa cerimónia que para eles tem um significado muito espiritual. Só que a curiosidade foi mais forte. Coisas de ocidentais.








A paisagem é fantástica. A estrada é fantástica. E o melhor de tudo é que o filho do guia que nos tem acompanhado no carro de apoio decidiu tirar umas fotos em andamento. Como eu sou a última da fila, fiquei em (quase) todas. :-)







O alojamento é uma casa de hóspedes que pertence ao Mosteiro de Ranjgung. Uma construção simples com uma decoração ainda mais simples. O quarto tem apenas duas camas e uma pequena mesa-de-cabeceira com uma vela. Nem um banco ou cadeira. Um relvado na frente da casa onde um estrado de cama serve de banco de jardim. Situada no cimo do monte, tem-se uma visão fantástica para as montanhas, o vale e o mosteiro. Um local perfeito para um fim de tarde divino.






A temperatura está morna, o vento calou-se, o pôr-do-sol tingiu as nuvens de cor-de-laranja. Descalça, sentada na relva, penso que estas duas semanas passaram demasiado rápido. Parece que foi ontem que estava contente por ainda faltarem 12 dias. A percepção do tempo é tão ilusória. As horas têm sempre 60 minutos. Quando se vive intensamente, o tempo corre vertiginosamente.

As motos estão estacionadas na relva, mesmo à frente das portas dos quartos. Andamos a tirar fotos ao pôr-do-sol. Na brincadeira sentei-me em cima de uma. Saiu isto.








Já jantámos. Um monge acedeu uma fogueira no jardim. Sentados debaixo das estrelas estamos à conversa. Noto um ambiente de nostalgia. Amanhã é o último dia de viagem. Um dos alemães abriu uma garrafa de whisky butanês o que foi motivo de brindes e conversa à volta da fogueira. A temperatura continua agradável.

Parece que as coisas boas duram pouco tempo ou que a vida é feita de pequenos momentos que nos enchem o coração. mas são apenas momentos a que damos muito valor e por vezes esquecemo-nos dos outros momentos, aqueles por que temos de passar para dar o devido valor a estes.






SEXTA-FEIRA, DIA 29 MARÇO 2013

O dia amanheceu fechado, nevoeiro e chuva. Último dia de viagem, o tempo poupou-nos durante 2 semanas. O dia da despedida é cinzento, tão cinzento como a nostalgia que já me invade o pensamento.

O percurso de hoje são cerca de 200 km para sul, em direcção à fronteira com a Índia. Debaixo de chuva miudinha e de nevoeiro intenso circulamos devagar. Já entendi porque esta estrada que não está marcada no Google Maps.

Porque não existe … está em construção...








Esta espécie de estrada é um martírio de curvas e contracurvas, cotovelos e espirais, toda em construção. Lama, pedras e areia, chuva e nevoeiro cerrado. Se isto já é complicado para mim, a chuva e o nevoeiro cerrado ainda tornam o percurso mais difícil.

Não se consegue ver a paisagem. O horizonte é uma mancha branca. A chuva e o frio embaciam a viseira. Ando com ela aberta, cara molhada. Já nem ligo aos buracos. De vez em quando temos de esperar que um buldózer abra o caminho porque a encosta desabou em cima desta espécie de estrada.

Nós e os camiões. A cada paragem entretenho-me a fotografar as pinturas e os interiores dos camiões. São autênticas obras de arte. Por fora têm pinturas coloridas e pormenores engraçados. Por dentro são forrados a latão trabalhado e tectos com apliques luminosos.









Ao longo da estrada grupos de trabalhadores constroem muros com pedras. São indianos, recrutados no Norte da Índia, num dos estados mais pobres. Ganham 180 dólares por mês e têm arroz e DAL gratuitos. Para eles é um excelente emprego. Há mulheres e homens que trabalham lado a lado. Famílias de trabalhadores que acampam à beira das obras. E crianças a brincar nos acampamentos. O guia diz que todos querem vir para cá trabalhar pois a alternativa é … a fome e a miséria.

Sinto-me privilegiada por ter acesso ao conforto e ter oportunidade de ver outros mundos. Mas também sinto uma revolta interior porque nem todos podem aceder ao mesmo conforto, porque um país rico em recursos tem tanta gente com fome, porque os homens querem dominar outros homens e os meios para o fazerem são desprezíveis – anda tudo à volta da riqueza, da religião, da sede de poder.

















Da parte da tarde em direcção às planícies, quanto mais descemos a montanha, melhor o tempo. O nevoeiro denso ficou lá em cima, a chuva largou-nos. Vamos contornando a montanha, lentamente, a descer. Até a estrada melhorou, já de alcatrão, estreita, mal cabem dois camiões. As curvas são apertadas. Mais um camião virado.






Parámos para descansar numa curva de estrada junto a um pequeno templo Hindu. Um velhote pequenino e magro guarda o templo. Aproxima-se de nós, faz-nos uma marca na testa, entre as sobrancelhas, com uma pasta vermelha, um sinal de bênção ou boas vindas. Depois dá-nos água e um grão de açúcar. Na tradição hindu, a marca no meio dos olhos simboliza o terceiro olho ou o olho da sabedoria.

O altar tem um prato para donativos. Entre todos, enchemos o prato de notas. Não disse uma palavra. Cruzou os braços no peito, esboçou um sorriso e caíram-lhe lágrimas. Este velhote vive aqui. Vive para tocar o sino cada vez que passa uma viatura e abençoar os viajantes. É feliz na sua missão. Não conhece outra vida. Vive num universo diferente do nosso. Pés na terra mas tão longe daqui.






A rolar com calma, perto do destino final, finalmente consegui fazer uma coisa que me andava a fascinar desde que entrámos no Butão. Fotografar cada aviso de segurança na estrada. Com a diplomacia e educação que os caracteriza, a sinalização de perigo contém uma mensagem subtil e divertida que me arrancou sorrisos nos últimos 5 dias.
















Já perto de Samdrup Jongkhar na planície, o ar é abafado, a paisagem subtropical. A influência indiana é fortíssima. As estradas e ruas continuam limpas mas sente-se um cheiro a caos. As casas são descaracterizadas, desapareceram as janelas em madeira e as pinturas coloridas. O hotel é no 2º piso de um edifício. Para subir temos de atravessar um centro comercial movimentado. Não há Internet. Depois de jantar trocamos endereços de e-mail e bebemos mais uma garrafa de whisky.

Acabou a aventura.
Ou quase …

Não resisti a fotografar a mesa de jantar. Os individuais são pequenos quadrados de material de alcatifa, orgulhosamente dispostos em cima de uma velha toalha aos quadrados. Um mimo.








SÁBADO, DIA 30 MARÇO 2013


De manhã cedo há agitação frente ao Hotel … para nos verem a carregar as malas nos 2 jipes que nos vão levar ao aeroporto. São os malucos dos turistas que andaram a correr o país de moto. Apontam para mim e conversam. Sinto-me quase uma extraterrestre. O motorista do jipe trata-me por “madame”.




Daqui até à fronteira com a Índia são meia dúzia de km numa estrada fortemente patrulhada pelo exército. Paramos no meio do nada, duas casas, uma tenda que vende chá e bolachas e um regimento do exército que ladeia a estrada. O condutor do jipe desapareceu pelo meio das árvores. Foi chamar o oficial da fronteira que vive numa casa lá atrás. Não é por ser madrugada é mesmo que a fronteira só abre se se chamar o oficial.

A fronteira é uma pequena casa, tem uma secretária e um velho sofá. O oficial abre com toda a cerimónia, fazemos fila à porta. Uma hora para por um carimbo de reentrada na Índia a 10 pessoas. Tem um livro de registos onde escreve pausadamente com letra floreada os nomes e data de saída.

Demorou 15 minutos a folhear o meu passaporte à procura do visto de saída do Butão. Olhava para mim com ar desconfiado. O meu instinto fez-me agarrar o passaporte e indicar o canto da folha onde estamparam um pequeno carimbo redondo. Com ar humilde fiz-lhe uma vénia com a cabeça e pedi desculpa. Olhou-me de alto a baixo, carimbou o passaporte e mandou seguir. Nestas coisas de fronteiras estou-me nas tintas para se são arrogantes, altivos ou se me discriminam por ser mulher. O objectivo é passar sem problemas. Tenho um avião para apanhar e 180 km de estrada na Índia num dos estados mais caóticos de trânsito. Os alemães tiveram direito a salamaleques e conversa de circunstância. Tenho a certeza que um dia vou ser olhada e respeitada como um ser humano em todo o planeta. Basta esperar com paciência. O mundo está a mudar.








Quatro horas. Quatro! Para fazer uns míseros 180 km desde a fronteira até ao aeroporto de Guwahati numa velocidade alucinante por entre camiões e vacas. A estrada atravessa um sem número de povoações, um trânsito infernal de peões, bicicletas, rickshaws, motoretas, vacas e carros. A esta hora da manhã há centenas de pais que levam os filhos à escola, pendurados nas bicicletas, rickshaws e motoretas com atrelados gradeados cheios de crianças fardadas e sorridentes, carroças com produtos para vender no mercado. Uma azáfama que dura a manhã toda e entope as estradas.














Uma estrada igual a tantas outras por onde passamos de moto neste país. Mas só agora, dentro do jipe e no lugar do passageiro é que consigo perceber a dimensão desta confusão. A conduzir a concentração está virada para a sobrevivência imediata, para os potenciais perigos na nossa trajectória. Não se consegue ter uma visão global deste caos. Ainda bem, costuma-se dizer que o que não se sabe não incomoda.


Finalmente chegados a salvo ao aeroporto. Acho que tremi mais para chegar aqui do que nas estradas de terra e buracos que fizemos. O motorista esgueirava-se por entre os carros e os peões, fazia tangentes milimétricas às bicicletas, andava a maior parte do tempo em contramão, só via frentes de carros em direcção a nós que desapareciam de repente quando o motorista regressava à sua mão. Parecia uma gigantesca pista de carrinhos de choque. No meio de guinadas e buzinadelas, agarrada ao cinto de segurança, a minha cabeça rodava ao mesmo tempo que o Buda giratório que estava colado no tablier do jipe. Um frenesim.

Acabaram as férias, acabou a aventura. Esta pequena viagem teve um gosto especial. Não foi apenas andar de moto pelos Himalaias, foi mais que isso. Foi uma experiência cultural graças ao nosso guia, o Tenzin, que com muita paciência e sabedoria respondia às centenas de perguntas.

Também foi interessante rolar com 9 desconhecidos alemães que nunca me pareceram desconhecidos. Não foi necessário grandes apresentações sobre nós, a paixão comum das duas rodas afasta qualquer distância entre pessoas. Foi como se estivesse a viajar com os meus irmãos mais velhos.

FIM


Nota: Escrito ao abrigo do (Des)acordo ortográfico!







 

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