Marrocos 2012 - Na Terra do Sol Poente


Viagem a solo por Marrocos, entre 22 Abril e 3 Maio de 2012. Uma aventura fantástica, uma terra de gente hospitaleira, uma viagem que me surpreendeu.

Nota: Este relato foi escrito ao abrigo do DESacordo ortográfico !
 

Domingo, 22 Abril 2012

Deu-me a preguiça e só saí de casa pelas 7h da manhã. Não chove mas está frio. Cruzei Portugal em modo robótico. Como sempre, quando estou na estrada o cérebro pára. À medida que os km avançam deixo de pensar. Entro numa espécie de transe. Estrada fora.

Fui espremendo o depósito para a gasolina chegar até Espanha. Bem mais barata. Só acordei a seguir a Aracena. A uma semana das corridas de Jerez de la Frontera, a estrada está cheia de polícia e operações stop. E stop na Paulinha. Com cara de mau o polícia pede os documentos. Tiro o capacete, o vento solta-me os cabelos. Cara de espanto do polícia. Ainda mais espantado enquanto procuro nos bolsos todos pela carteira, ar de atrapalhada, uma ventania enorme. Faz um sorriso subtil. Com um sorriso ainda maior, entrego-lhe os papéis e afasto o cabelo da cara.

Pergunta: Vais para Jerez?

Não, vou para tarifa. Quando era jovem ia para Jerez. Agora não. Quero passear. Riu-se e responde: Também eu andava por aqui e fazia corridas nestas estradas. Agora gosto de passear. (prontos, o polícia também é motard). Ficámos um bocado à conversa. Nem olhou para os documentos. Mandou parar o trânsito para eu seguir, debaixo do olhar de inveja e espanto de um grupo de jovens com motos de estrada que estavam a pagar a multa.

Mais à frente outra operação stop. Parei, olhou para mim e mandou seguir. Cada vez mais perto de Jerez e mais polícias, muitos. Sou ultrapassada por uma carrinha em alta velocidade e logo a seguir dois polícias de moto. Carrinha encostada à berma. Poucos km depois, vejo pelo retrovisor uma moto da polícia encostada a mim. Seguiu-me por um bocado, ultrapassou-me, cumprimentou, e seguiu. E passaram mais, que acenaram e seguiram. Parece que o esquadrão todo já sabe que a Kota vai aqui.

Um vendaval de sacrifícios depois cheguei a Tarifa, moto inclinada, dores no pescoço. Raio de vento. Depósito na reserva. Só meto gasolina em Marrocos. Tem de chegar para entrar no Ferry.


2ª Feira, dia 23 Abril 2012

Levantei-me cedo. O Ferry é às 9h da manhã. Pelas 8h era uma fila enorme na bilheteira. Quase perco o barco. O que vale é que o ferry só parte depois de venderem os bilhetes todos. Se fossem ingleses ficava aqui até ao meio dia, hora do próximo. O passaporte foi carimbado dentro do barco. Antigamente os oficiais estavam numa mesa num canto do deck. Agora têm um guichet próprio.

Desembarque e fronteira. Um guarda distribuía os papéis da alfândega. Encosto o papel ao nariz. Tenho de tirar os óculos. Começo a preencher o papel em cima da mala da moto, atrapalhada com o vento, entre segurar o papel, a caneta e o passaporte e os óculos pendurados na ponta do nariz. O guarda olhava para mim... Dá cá, eu ajudo… Preencheu tudo, levou o passaporte e disse para esperar. Está pouca gente na fronteira. Fico a observar o que se passa. Um marroquino, aperaltado de empregado, com uma bandeja, oferece chá aos turistas. Copos de vidro, um sorriso largo. Dois dedos de conversa e pede 10 dirhams por cada chá. Depois de pago, puxa por copos de plástico e recolhe os copos de vidro. Cumprimenta e segue para outro grupo de turistas. Bem-vindos a Marrocos.



Logo à saída do porto, vou ao banco trocar dinheiro. Um arrumador indica-me o estacionamento. Paro à beira da estrada. Quando volto, mete conversa comigo. Dá-me as boas-vindas. Fala num francês que mal se percebe. Quer a propina … Propina? … diz que é por guardar a moto. Digo-lhe que a moto não foge. Rio e faço ar de parva. Arranco a pensar que esta vai ser a minha vida nos próximos dias. Faz parte.

Em Tanger, o 1º posto de abastecimento à saída do ferry parece um engolidor de turistas. Os funcionários estão quase no meio da estrada a chamar veículos de matrícula estrangeira. Abastecem com cerimónia, o contador nunca fica com preço certo, arredondam os cêntimos e negoceiam o valor do troco. Ligo o “modo cigano”. Obrigo o funcionário a dar-me o troco todo, incluindo os cêntimos.

A velocidade dentro do perímetro urbano de Tanger é 60 km/h. Desde a saída do ferry até à portagem do autoestrada, contei 7 radares. E perdi a conta aos radares no autoestrada. Segui para Sul até Kenitra. Não me apetece ir pela estrada interior. Quero começar a passear a partir de Meknes. A parte norte de Marrocos não me interessa.

Depois de sair da autoestrada, começo a gostar da paisagem. Campos cultivados, verdes, amarelos, estrada limpa, sem trânsito.




Já perto de Volubilis sente-se a máquina turística. Anúncios de hotéis, auberges. Homens saltam para o meio da estrada a acenar, abrem os braços em gestos abaulados. Lugar para acampar (penso que devem achar piada aos turistas que pagam para montar a tenda no quintal). No acesso para as ruínas romanas, ao longe, um parque de estacionamento a abarrotar de camionetes de turismo. Fico logo arrepiada. Filinhas de turistas movem-se entre ruínas. Não me apetece ver pedras.








Tiro umas fotos ao longe, dou meia volta e saio dali. Vou espreitar Moulay Idriss. Li na Internet que é uma vila típica, …………… Subi até ao centro e encontro uma vila árabe, confusão, casas inacabadas. Mais uma desilusão. Lê-se muita coisa na Net.




4h da tarde e estou cansada. Meknes é já aqui ao lado. 30 km depois entro numa grande cidade. Estou parada numa grande rotunda a tentar sintonizar. Para um automóvel ao meu lado. Um homem pergunta se preciso de ajuda. Estou à procura do posto de turismo. Tenta explicar o caminho mas a minha cara de ignorante fê-lo desistir. Faz um gesto: Vem atrás de mim. E lá vou eu a perseguir um Peugeot igual ao que o meu avô teve, há muitas décadas atrás. Desembocamos na praça central, frente ao posto de turismo … que estava fechado. À porta, dois homens conversavam. O meu ar de desalento deve ter sido tão grande que me perguntaram-me se precisava de ajuda. Explico que gostava de encontrar um Hotel, barato. Afinal eram funcionários do turismo. Abrem a porta e vão buscar uma lista de hotéis. Recomendam-me um, aqui perto, decente e barato. Ainda me dão o mapa da cidade e explicam-me os lugares a visitar. Agradeço e caminho para a moto. Um deles vem atrás de mim. Para me dizer que está à disposição para me acompanhar numa visita pela cidade, mostra-me os museus … e as lojas.

Acho que 90% dos marroquinos são comissionistas de um qualquer hotel, loja, museu ou restaurante. Está-lhes no sangue vender coisas. Assim que vêm um estrangeiro correm cifrões nos olhos. Encaminham-nos para os locais e depois voltam lá para receber a propina.



O Hotel Palace cobra 180 dirhams por um quarto single com WC e duche. Papel higiénico cor-de-rosa. A Internet não funciona. E água quente, só depois das 7h da tarde. Vou dar uma volta para fazer tempo até ao banho, espalhar o mau cheiro pelas ruas cheias de gente. As lojas estão em saldo. Tenho fome. Os Salons de Thé só têm homens. Descubro que as mulheres vão às Patisseries. Entro numa. Aponto para um bolo. Para beber, não percebo o que ela diz. Acenei a qualquer coisa. Sai-me um batido de morango. Fixe.






8h da noite. Finalmente um banho quente e saio para jantar. O recepcionista do Hotel indicou-me um restaurante, barato, um pouco mais abaixo, na avenida. Escolho uma Tagine de almôndegas com ovo, apontando para o menu que tinha fotos com preços marcados. Sento-me dentro do restaurante. Arrependo-me logo. Cheira a fritos. A Tagine parece imensa. Penso que só vou comer metade. Acabo com ela toda. Percebo que estava esfomeada. Não almocei, é normal. Peço um chá e vou para a esplanada. O empregado, um miúdo com os seus 16 anos, corre para uma loja perto para buscar o chá. Já tinha feito o mesmo quando pedi uma garrafa de água (jantar 52 dirhams).

Cá fora sopra uma brisa agradável. As ruas estão cheias de gente, as lojas ainda abertas. Grupos de mulheres olham as montras. Os homens andam aos pares, param e cumprimentam-se com 4 beijos. Está um trânsito caótico. No cimo da avenida, no largo do posto de turismo há uma grande animação. No jardim central está montado um arraial. Carrinhos de choque, carrossel, cadeiras giratórias, miúdos aos saltos de contentes, famílias a passear, tudo ao som de música pop-rock … em árabe.


3ª Feira, dia 24 Abril 2012


Vou tomar o pequeno-almoço na patisserie ao lado do hotel. Bolos e batido de morango. É o que há. Despeço-me do simpático empregado do Hotel e vou dar uma volta pela cidade. A Medina é ao fundo da avenida. Está cercada por uma muralha antiga que deve ter km. Sigo o trânsito e entro na Medina. Acabo numa praça frente às portas do Museu de Meknes. Bem no meio das lojas. Ainda é cedo, as lojas ainda não abriram mas já há muita gente pelas ruas. Não me apeteceu parar para ver bujigangas, nem casas inacabadas. Tiro umas fotos e vou vadiar pelas avenidas de Meknes.







O trânsito até que nem é muito complicado. Para quem tirou um mestrado de condução na Índia, safo-me bem no meio das tangentes que os carros fazem. Os semáforos têm contadores. 5 Segundos antes do sinal verde cair, já os taxistas estão a apitar. É uma tribo universal.

Chego, sem saber como, a um campo junto à muralhas onde se prepara um qualquer festival. Talvez fosse giro de ver. Há tendas montadas e cavalos prontos para o espetáculo. É uma visão interessante.








Rumo à floresta dos Cedros. Faz agora 5 anos que passei por aqui. Debaixo de chuva e neve. Só me lembro de uma cortina de nevoeiro opaca. Reconheço alguns locais. Até o café onde parámos para descongelar. Hoje vou em sentido contrário. De norte para sul. Está uma agradável temperatura de 23 graus, céu limpo, muito espaço aberto. Perfeito!





A paisagem é linda. As chuvas das semanas anteriores deixaram tudo verde. Campos sem fim, muitas ovelhas. Os pastores sentam-se à beira da estrada a ver passar os carros. E as ovelhas também. Vou com cuidado sempre à espera de encontrar um rebanho no meio da estrada. Ainda há uns restos de neve cá em cima. E cedros. Florestas e rebanhos. Tudo verde.






Almoço numa pequena aldeia que não sei o nome. Tagine de carne e legumes é a única coisa que servem. Não têm talheres mas vão pedir na loja do lado. Peço uma garrafa de água mas não há, nem na loja ao lado. Só chá. (Tagine e chá são 32 Dirhams).






À medida que sigo para sul a vegetação vai escasseando. A terra muda de cor. O verde fica para trás. Primeiro os tons de vermelho, terras de pedras. As placas indicam Er Rachilda a uns 100 km. Já perto de Midelt vêm-se as montanhas ao longe. Cinzentas. Está a chover. E a trovejar. Ao longe vem-se raios enormes e fantásticos. Tinha planeado ficar em Midelt e parece que vou mesmo ficar.











À entrada de Midelt encontro uma barreira policial. Faz sinal para parar. Antes que o polícia me peça os documentos, cumprimento e peço-lhe ajuda. Pergunta-me se estou sozinha. Digo que sim. Faz um ar admirado e olha para trás, para a estrada, à espera de ver mais motos. Nem o deixo respirar. Pergunto se me pode recomendar um Hotel, barato e apropriado para mim. Recomenda-me o Hotel Bougafer e dá-me as indicações para o encontrar. Pergunto se a tempestade vem para cá. Responde que vai chover esta noite de certeza. E que não se consegue passar na montanha, está muito vento, chove bastante e a estrada tem gelo. Ainda são 3h da tarde mas vou ter de ficar por aqui.




O Hotel tem Internet. Fixe, vou dar notícias, ver as novidades e escrever. Hoje fiz apenas 200 km. Mas as montanhas cinzentas ao longe avisam-me que é perigoso continuar. O quarto é razoável, tem ar condicionado, TV, duche e sanita. Deve ser um luxo pois o quarto que o rapaz me queria dar não tem sanita. È à francesa, toilette fora do quarto. Mas o preço é mais caro. Quer 300 Dirhams … negoceio … ficou por 200.

O Abdul, que deve ser o dono ou familiar do dono, diz que a moto fica bem frente ao Hotel. Tem um guarda toda a noite. Pergunta-me o nome, de onde venho, ri-se muito. Vou para Merzouga? Ele tem lá familiares que têm um hotel no deserto. Tenho de ver um monte de fotos do Hotel e guardar bem o cartão que me dá. Agradeço a gentileza. Digo-lhe que os marroquinos são muito simpáticos. Fica todo contente. Aproveito para desaparecer. Vou dar uma volta pela vila.

Mal me afasto do Hotel aparece logo um Rachid que diz ser amigo do Rui, um português que já cá veio 2 vezes e foi com ele fazer as pistas do Cirque du Jafar. O Rachid não me larga. Indica-me o souk, o bairro antigo, quer levar-me a todo o lado. Diz que Midelt não tem turistas. Só de passagem para o deserto. Mas ele tem uma loja de souvenirs. Tive de ir perguntar qualquer coisa a um polícia para o rapaz me largar. Vai rua acima a falar sozinho e a praguejar.













Volto para o Hotel. O Abdul deve afastar os melgas. Estou na esplanada e ninguém se aproxima. Isto de ser cliente deve ter alguns privilégios. Só melga quem ele deixa. Mas ainda tenho de agradecer a simpatia de me oferecer lenços para o deserto. Digo-lhe que já tenho. Está na mala da moto. É a 3ª vez que venho a Marrocos. Ele desiste de me vender coisas.

Às 8h da noite estou a jantar no salão do1º andar porque o restaurante parece uma sala de cinema. As mesas foram arrumadas a um canto e as cadeiras então enfileiradas e viradas para um LCD de quase 2 metros. Hoje há jogo da Champions e vêm todos para cá ver. Lá em baixo ouvem-se os gritos dos adeptos do futebol. Já ouvi dois golos. Aqui no salão, tenho a companhia de duas marroquinas que veem a novela da noite.

Quarta-feira, dia 25 abril


O dia começa cedo.No salão da entrada ainda estão os restos do jogo de futebol. Cadeiras desalinhadas, cheiro a fumo. Pergunto o que há para tomar o pequeno-almoço. O empregado aponta para a esplanada do Hotel onde está uma velhota com uma banca a fazer panquecas. Cheira bem. Pergunto o preço – são 3 dirhams cada. Como uma panqueca barrada com doce. Acompanho com chá. São 7h da manhã, há pouca gente na rua. O Abdul está sentado junto à moto. Diz que ficou ali toda a noite. Ri-se contente. Não me pede propina. Já deve ter percebido que não leva nada. Quando vou pagar a panqueca a senhora pede 4 dirhams. Até a velha engana a turista. Lá vai 1 dirham a mais (9 cêntimos). Nem reclamo. Não vale a pena. Isto está-lhes no sangue.

Em direcção a Sul, começo a ver alguns grupos de motociclistas. A estrada tem pouco trânsito. Alguns camiões e muitas camionetes de turismo. E jipes. Aceleram todos a caminho do deserto. Eu rolo devagar .....











Numa estação de serviço, paro para meter gasolina e tomar um café. Há máquinas de café que tiram bicas normais. Com espuma. Bom café. Está uma patrulha do exército cá fora, e muitos polícias. Um deles de moto. Pergunta-me pelo meu grupo. Não tenho, viajo sozinha. Vou para Erfoud. Ele também. Vamos juntos. E lá vou eu, bem acompanhada por uma centena de km. Não deixa tirar foto.

Descobri que em Marrocos o café é espectacular. Não sei a marca do café, nem me interessa. É bom ! Servido em chávena ou em copo de vidro, é saboroso. Tem espuma.




A caminho de Erfoud passa-se por um túnel, chamado de “Tunel do Legionário”. Vem assinalado nos mapas como um ponto de referência, como porta de entrada no Vale do Ziz. Parece que foi escavado pela legião francesa para permitir a ligação por estrada, entre o Norte e o Sul. Mas não passa de … um túnel.







A estrada serpenteia ao longo do vale do ZIZ. É linda. Sobe e desce os montes, ora se tem uma vista do alto, ora corre junto ao palmeiral. As casas têm a cor da terra, ora vermelha, ora amarela de areia. O ar é quente, cheira a pó, cheira a Marrocos-Sul.













Entro na avenida principal de Erfoud. Muitos restaurantes, alguns grupos de motociclistas a almoçar. Vou andado a ver se algum sítio me agrada. Por experiência, os primeiros restaurantes são os mais caros. É onde os turistas esfomeados param logo. Viro numa outra avenida também cheia de esplanadas. Todos acenam e dizem para me aproximar. Vem um jovem de mobilette perguntar se quero almoçar. Sou teimosa. Vou para onde eu quiser. Vejo um tasco minúsculo com frangos a assar à porta. Ninguém a chamar por mim. Apenas uns locais a beber chá na esplanada. É mesmo aqui. Entro por ali dentro e pergunto se posso comer. Um rapazito novo diz-me que só tem frango. São 45 dirhams e acompanha com batatas fritas e azeitonas. Respondo que não quero batatas fritas (penso cá para mim que o óleo deve ser jurássico) nem azeitonas. Basta o frango e pão. O preço baixa para 30 dirhams. Fixe. Almoço na esplanada sem ser incomodada.



Quando acabo o rapazito mete conversa. Ficamos a falar um bom bocado. Pergunto por um Hotel. Ele conhece um mesmo ali ao lado (de familiares, claro). Mas o preço é razoável e o sítio é limpo. Também conhece um em Merzouga (claro). Digo-lhe que vou até Merzouga e talvez volte. Estou cismada em ir lá. São apenas uns 70 km. Ainda é cedo. Mais um bocado de conversa à espera que passe o calor.

Em Rissani, meia perdida à procura da estrada à direita, para um jipe com um marroquino que andava a passear um casal de italianos. Indica-me o caminho e pergunta logo se já tenho Hotel para ficar. Irra, que eles nem em serviço desarmam. Digo-lhe que vou atrás dele. Fica contente e arranca. Sigo-o até encontrar a estrada. Depois vou ao meu ritmo, Devagar. Perdi-o na estrada. Ainda bem.







O alcatrão acaba no pórtico de entrada de Merzouga. Acaba também o sossego. Entro a medo, por uma estrada em gravilha e areia quase sou atacada por vendedores de passeios de camelos, de estadias em hotéis, de cadeaux. Eu a tentar equilibrar-me naquele inferno e os tipos não me largavam. Um deles, numa mobillete, falou em francês, em inglês, em alemão, em espanhol e depois percebeu pelo autocolante que eu era de Portugal. Eu ali a 5 km//h a tentar não cair e o rapaz empoleirado na mobillette gritava em todas as línguas que me arranjava hotel, camelos para passear e um bivouac no deserto. Não se calava. Há falta de resposta disparou em português …

Não falas com berbéres? …

Foi a gota de água. Saí dali a correr. Acelerei pela pista fora. Chego ao fim da linha e aterro bem no meio dos camelos. Ainda nem desliguei a moto já está o cameleiro a vender-me passeio de 1h pelo deserto. Senti-me uma camela em ter ido ali. Povoação desinteressante, lojas e bazares, alguns jipes e motos de TT a chapinhar na areia, anúncios de cruzadas pelo deserto, um chamariz turístico que não dá para mim. Quero asfalto, quero uma boa estrada de alcatrão que não me dê trabalho a conduzir, que não me exija esforço físico. Nem me apetece ficar aqui, nem pelos 170 dirhams que o Auberge Sable D'Or, em Hasselbit cobra pela estadia, jantar e pequeno-almoço. Sigo para Erfoud de novo. Tenho umas 2 horas até cair a noite. O deserto não me atrai. Já chegaram os 3.000 km que fiz em 2009 a caminho de Bissau. Dei punho e voltei para trás.









Se até ali tinha ido a saborear a estrada, agora queria era chegar. Só relaxei quendo me aproximei de Rissani e entrei no palmeiral. Senti a calma de estar rodeada por plantas, gente, vida. O deserto é estéril, parece que a natureza desistiu de viver.










Direita ao Hotel que os miúdos me tinham aconselhado. Por 150 dirhams tenho um quarto espaçoso, ar condicionado, casa de banho com duche e sanita (começo a pensar que ter sanita é um luxo). E ainda Internet wi-fi. O dono do Hotel tem uma garagem para a moto mas é a 15 minutos daqui. Só de pensar que estou longe da vermelhinha e tenho de carregar com as malas até cá …. Depois ele diz que a posso deixar em cima do passeio. Tem um Guardien toda a noite. Fica aqui bem. Está mesmo debaixo da janela do meu quarto.

Já é tarde. Estou transpirada, a roupa colada ao corpo. Meto-me debaixo do duche. Lavo-me com sabonete. Está calor, continuo a sentir-me colada. Lavo-me de novo com sabão azul e branco. Finalmente descasco o calor, a areia, o cansaço. Vou à procura de jantar. O dono do Hotel tem um amigo com um restaurante. Aparece logo um marroquino que me leva lá. Estou farta de marroquinos que me querem vender coisas. Vou ter com o rapazito do restaurante. Acabo por jantar no tasco do lado. Frequentado por locais, deve ser bom. Como uma Tagine de carne com legumes, na esplanada e uma garrafa de água. 35 dirhams. O costume. Já percebi que é o preço normal. Não sei se é preço para turistas ou se é também para eles. Mas não está mal.





Depois de jantar pergunto ao rapaz se sabe onde comprar autocolantes de Marrocos. Claro, 30 segundos depois está um homem que tem uma loja e tem autocolantes. Já estava a ver o filme. Mas vamos lá. Caminhada de 15 minutos pelo meio da vila. Fora do circuito turístico, onde eles vivem. Um armazém cheio de coisas de turistas. Pergunto o preço das pulseiras e dos fios berberes. Diz-me para escolher o que eu gosto. Faz um preço por tudo. Claro, esquema de marroquino. Pede 98 euros por 2 pulseiras, 3 fios e 4 autocolantes. Negociamos a beber chá. Tenho o modo cigano ligado e ofereço 20€. Faço a bitola pelo preço das lojas dos chineses. Choro que não tenho dinheiro, que gostava de levar tudo mas não cabe na moto. Sou jornalista e que posso fazer publicidade à loja dele. (Esta resulta sempre). Fechamos negócio.




Os marroquinos fazem da negociação, um ritual. Quanto mais tempo se demora mais eles querem vender. Usam uma infinidade de argumentos. Depois de estabelecerem o 1º preço e da recusa, perguntam quanto damos. Se fizermos um valor, temos de o defender até ao fim. Não dá, vamos embora. Torna-se uma teimosia vender. Uma obsessão. Não nos deixam sair sem comprar. É preciso paciência e perseverança. Eles querem mesmo vender. Nós compramos se o preço agradar. O tempo é uma arma que temos de usar. 




Quinta-feira, 26 Abril


Pequeno-almoço – 25 dirhams. Leite, café, pão, manteiga e doce. O normal. Bem servido. Na sala de refeições está apenas um americano, já com os seus 60 anos, cabelo grisalho, barrigudo. Olha com atenção para os miúdos que se sentam na porta. Ontem à tarde vi-o a falar com eles, muito interessado. Anda sozinho e fala com tudo o que é garoto. Quando o cumprimentei nem se dignou a olhar. Não gosto dele.

O dono do Hotel, de pele negra escura, está atrás do balcão a falar com as empregadas e a olharem para mim. Devo ser uma espécie rara por aqui. Acenam-me e sorriem. Acabo com o pão todo. Este pão marroquino é uma delícia. Tenho de esperar para tirar a moto do passeio. Estacionaram uma carrinha de 9 lugares mesmo em frente. Não tenho espaço para a tirar, está entalada entre dois postes e a carrinha. Foram chamar o dono, um rapaz jovem que é guia de turistas. Acho que a população do Hotel (excepto eu e o americano que gosta de miúdos) é toda de guias turísticos. A rua está cheia de carrinhas e jipes estacionados.

O preço da estadia está bem visível na recepção. Não há que negociar nem enganar. Pago e vou para a rua esperar. Para me ajudar a tirar a moto do sítio, veio o dono do Hotel, o guia da carrinha e o rapaz que fez de cicerone ontem. As empregadas estão à porta a rir. Todos riem a verem o meu esforço de tirar a moto e quase a deixar cair no chão. Parece um circo. Hoje era quase impossível roubarem-me a vermelhinha, só o trabalhão que deu tirá-la do passeio.






Saio de Erfoud em direcção a Tinejdad por uma estrada sem número. Uma antiga pista que agora tem alcatrão com bom piso. Uma planície imensa de areia. Está calor. Depois de uns km aparecem umas tendas à beira da estrada e uns montes de areia que parecem velhas crateras. E autocarros de turismo. Uma placa indica que podemos visitar “Le sisteme d’irrigacion Tuareg”. Paro por perto a observar os turistas sentarem-se no chão, em estruturas de madeira com roldanas, a dar ao pedal e a ouvir explicações de um sistema de poços e túneis subterrâneos de água (que agora estão secos), muito contentes a ouvirem os homens de azul a que chamam de tuaregs. Tiro umas fotos e arranco quando vejo uns “tuaregs” a virem na minha direcção para me oferecerem fósseis. Um deles ainda me tentou acompanhar de bicicleta, a gritar qualquer coisa que podia ser uma oportunidade única.






Até chegar à estrada principal, a N10, são 87 km de pouco trânsito e muito espaço. Atravesso pequenas vilas por estradas a sufocar de terra e areia. Pouca gente na rua. Tão diferente do romantismo das fotos das cidades imperiais, com edifícios cheios de arabescos. Em Tinejdad paro com fome. Vejo uma patisserie e compro um croissant por 2 dirhams. No café ao lado sento-me na esplanada ao abrigo do sol. Estou fã dos bolos marroquinos. E do café.







Já se avista o vale do Todra. Palmeiral, retalhos verdes cultivados. Em Tinghir vira-se à direita para as gargantas do Todra. O cruzamento está em obras, a estrada está toda picada. Sobe e desce, quanto mais perto das gargantas, mais ratada a estrada. Tem bastante trânsito. Se não são os carros que me atiram para fora da estrada é a deslocação do ar dos autocarros de turismo que passam a grande velocidade, curvam de rodas no ar, quase parece que vão cair pela falésia abaixo. Locais de turismo em países árabes, são perigosos. Já dentro do vale, as montanhas vão apertando o espaço até ficar uma tira estreita onde cabe apenas a estrada e um pequeno rio.









Estou parada numa ponte a tirar fotos às mulheres que lavam roupa no rio quando vejo passar um grupo de motos com matrícula portuguesa. Aceno mas eles não param. Encontro-os mais à frente, nas gargantas do Todra. É um passeio organizado, quase todas motos BMW. Conheço um deles. Os outros não. Mas começamos logo à conversa. Peço para me tirarem uma foto nas gargantas. A única foto em que apareço até agora. Fixe.






Ficam para almoçar no Yasmine, um dos dois hotéis famosos daqui, convidam-me para os acompanhar. Vou ver os preços da ementa. Cada prato está marcado a cerca de 95 dirhams (8,5€). Fora de orçamento. Agradeço a simpatia do Paulo Silva e vou à procura de um tasco mais em conta.

Caminho para o estacionamento a pensar nos km que podia fazer com este valor. Devo estar mal habituada pois ainda nunca paguei tão caro por uma refeição. Mais tarde, explicaram-me que os marroquinos têm três tabelas de preços “oficiais”. Uma para os americanos, franceses, belgas … os que têm dinheiro e pouco negoceiam. Outra para os Tugas e outros pelintras que choram os preços. E finalmente, a tabela de preços real, a que praticam entre eles. Só para comparar, os meus amigos marroquinos pernoitam, quer no Yasmine quer no Les Roches (mesmo ao lado), por cerca de 120 dirhams por jantar, estadia e pequeno-almoço.

Depois de comer umas bolachinhas que trazia de Portugal, para enganar o estômago, parto em busca de almoço. Paro em Tinghir, num restaurante com bom ar. Estão dois motociclistas italianos a almoçar na esplanada. Entro e negoceio o preço do almoço. Mais uma Tagine, a única coisa que demora pouco tempo. As Tagines são uma espécie de estufado de carne e legumes, servido num pote de barro, que preparam de manhã e fica a cozinhar ao vapor. Na hora de almoçar está sempre pronto. O preço máximo são 40 dirhams.

Que diferença entre este pacato restaurante e a confusão do Todra. Almoço calmamente sem ninguém me incomodar. O empregado anda a borboletar em volta da minha mesa, mas não fala. Sinto-o a olhar de soslaio, desertinho para meter conversa. Quando terminei o almoço, não resistiu - Viajas sozinha? – Senta-se e pergunta-me de onde venho, que nunca viu uma mulher sozinha a viajar por aqui. Vêem-se alguns alemães sós, mas os outros viajam sempre em pares ou grupos. Vai falando depressa, num mau francês enquanto abana a cabeça. Não para de repetir que admira a minha coragem. Viajar sozinha em Marrocos. Mulher corajosa. Digo-lhe que acho o país muito seguro e as pessoas muito simpáticas. Abana com a cabeça afirmativamente, parece um pêndulo, todo contente. Incha de orgulho.

Estou com o mapa aberto a ver onde vou parar esta noite. Pergunto-lhe se conhece algum Hotel simpático em Bumalne (estava a ver uma cidade grande perto do vale do Dadés onde quero ir). Responde que lá não há nada para ver e os hotéis são muito caros. Aconselha-me a ficar nas Gorges du Dadés. Bonita estrada e melhores hotéis. Recomenda-me o Auberge de Peuplier, no km 27 da estrada para Msemrir. Costuma ir para lá com a família de férias. Escrevinhou a direcção e indicações para lá chegar no meu livro de apontamentos. Diz que o preço máximo serão 120 dirhams. Vai ligar para o amigo a avisar que eu vou.

Ainda é cedo e estou perto. São apenas uns 70 km. Se não gostar posso sempre voltar para trás e procurar outro local para ficar. Os km que me separam de Boumalne são sempre a direito, uma recta de deserto cortada apenas pelos torreões que limitam as províncias. Um espaço enorme de pedras e vegetação rasteira, com as montanhas ao fundo. Continua muito calor. Ando com o forro do casaco amarrado à mota. Já não cabe nas malas. Tenho duas garrafas de água de 1,5 Lt e um saco com bolachas a encher o espaço que era para o forro.






Atravesso Boumalne e viro em direcção ao vale do Dadés. De repente a paisagem muda. A terra já não é amarela. É vermelha. Muitas aldeias, pessoas de bicicleta, mulheres com fardos de erva às costas, construções em terra e argila. A estrada serpenteia junto ao oásis verde, pelo meio da montanha. Rebanhos cortam a estrada. Os km vão passando. Veem-se muitos hotéis e pequenos albergues, com bom aspecto, pendurados na encosta ou à beira da estrada. Não há trânsito, passam apenas camiões de vez em quando, a andar devagar, parecem das obras. Vou controlando pelo conta-km parcial para saber onde estou. As paredes da montanha estreitam, o espaço só chega para o rio e a estrada. Quando penso que já passei o albergue, quase a desistir, encontro uma pequena casa, encostada à parede de rocha, em cima da estrada e do rio com um cartaz a dizer “Auberge des Peupliers”.








Assim que estaciono, sai um senhor dos seus 60 anos. Estava à minha espera. Mostra o quarto, apresenta os filhos. O mais novo trata da horta e das refeições. O mais velho anda a estudar, sabe de computadores mas também trabalha. Limpa os quartos. As mulheres andam no campo. O albergue é acolhedor. Simples, pouca mobília e limpo. Tem Internet Wireless. Oferecem-me chá. Afinal o empregado do restaurante em Tinghir tinha razão. Este local é lindo e agradável. Sento-me à entrada a beber chá e a ver passar algumas motos e jipes. Veem da direcção de Imilchil, cobertos de terra, passam rápido. A maioria, alemães.

Arrumo a moto dentro da loja de artesanato ao lado. Depois de um banho quentinho, o jantar. Sopa Harira, seguida de Tagine. O meu estomago está a reclamar de qualquer coisa. Não consigo comer tudo. Para sobremesa, um doce com um aspecto delicioso. Já não vai. Estou a ver isto muito complicado. Ligo-me à internet para ver as novidades. Na salinha da entrada, está tudo calmo, pela porta aberta ouvem-se os grilos. Lá fora, a noite está escura. As estrelas são aos milhares. Brilhantes.





Sexta-feira, 27 Abril

Durmo mal. Nem o som calmo da água do rio, nem a paz que se sente, acalmam as minhas entranhas. Já conheço os sintomas. Estou lixada. De manhã, desço cedo. Peço um chá e torradas. Estou enjoada, engulo a custo. Aviso que talvez fique mais um dia. Passo a manhã, a caminho da casa de banho. Sonolenta e quente. De 2 em 2 horas, como um bocado de pão, com chá, para tomar Dimicina. Está decidido. Isto não melhora hoje. Vou ficar por aqui. Adormeço profundamente. Acordo, já ao princípio da tarde, com barulho de conversa. Muitas pessoas lá em baixo.

Tenho fome. Desço à recepção meia zonza. Estão cinco mulheres, de trajes brancos, cabeça tapada, a falar alto, todas ao mesmo tempo. Assim que apareço faz-se silêncio. Encolhem-se, escondem-se atrás umas das outras. A mais velha diz qualquer coisa que não entendo. Olho para o rapaz do albergue. Ele traduz. Ela está a perguntar se estou bem. Sorrio e respondo. Começamos a falar, elas aproximam-se, miram-me de alto a baixo. São as irmãs do dono. Ouviram falar da estrangeira que anda sozinha de moto e está doente. Vieram fazer companhia e ver se precisava de alguma coisa. Enquanto me servem mais um chá com torradas, vamos conversando, o rapaz a traduzir. Querem saber de onde venho, não conhecem os nomes dos países nem dos locais que falo. Ouvem com muita atenção, olhos arregalados. Ficam horas a fazer perguntas sobre mim, a minha família, o que faço. A cada resposta, lançam exclamações e riem-se. Sorrisos alegres. Passam as mãos na minha cabeça e testa, dizem que já passou, amanhã estou boa. Têm a palma das mãos castanha, pintadas com Henna. É da tradição. Vão fazer uma sopa de ervas que me vai ajudar.

Ao final da tarde, sinto-me melhor. As mulheres estão na cozinha. Arrisco a dar um passeio. Está um dia fantástico. Pego na moto e vou estrada acima. Lá ao fundo sobe por uma rampa enorme. Curvas apertadas, ingreme. No alto, sopra vento forte. A paisagem é magnífica.

A estrada é fantástica. Continua pela encosta, o rio é uma linha fina lá em baixo. Depois desce de novo. As paredes de rocha quase que se tocam. Chego à passagem do Dadés (Gorges do dadés). Bem mais bonito e muito mais calmo que no Todra. Um casal de americanos anda a passear por ali. Aproveito para umas fotos.












Sábado, 28 Abril

Acordo cedo. Estou pronta para continuar viagem. Ao pequeno-almoço continuo com chá e torradas. É mais seguro. Arrumo a bagagem, pago 120 dirhams por cada noite mais 30 dirhams pelos litros de chá que tomei ontem. As refeições estão incluídas.

Vou rolando através do vale do Dadés calmamente. Este vale encheu-me as medidas. Respira-se espaço, calma, pessoas a trabalhar nos campos férteis junto ao rio, terra vermelha, muitos kasbah, não há turistas nem trânsito. Estou sozinha na estrada estreita a olhar para o horizonte. Penso que foi um bom lugar para descansar. Tive a sorte de adoecer num paraíso.










Rumo ao vale das flores, um local que tinha visto na Net como a não perder. Em Kelaat M’Gouna, uma pequena vila onde se corta à direita para o vale já se respira a indústria de rosas. Filas de lojas cheias de garrafas plásticas, cor-de-rosa, com aspecto de linha de produção, mas que em vez de serem de detergente têm água de rosas. Cheira a pó.

Entro na estrada do vale das rosas, à espera de ser surpreendida. Não fui. Mais um vale fértil, campos verdes, crianças ao longo da estrada com sacos de pétalas de rosas. As roseiras, nem vê-las. Rolo uns 20 km sem encontrar as expectativas. Começa a estar fresco. Estaciono à beira da estrada para voltar a cozer o forro do blusão. De uma casa perto saem crianças que me olham de longe com curiosidade. Não se aproximam.

Não me apetece ir mais longe à procura de roseiras. Estou a 50 km de Ouarzazate, cidade que já conheço. Também já fiz o trajecto até Marrakesh através do Atlas, uma estrada de montanha com milhares de curvas e entupida de camiões. Dizem que é a pior estrada de Marrocos em termos de trânsito. Decido virar a Norte, para o interior. O rapaz do albergue no Dadés disse que a estrada era em alcatrão e se fazia bem. Passou lá há pouco tempo.





Almoço em Skoura e o empregado do restaurante repete que a estrada é em alcatrão, pela montanha e que demoro umas 2,5h a chegar a Demnate. É 1h da tarde. Mesmo que leve mais tempo, ainda tenho 6 horas de luz até ao final do dia. Estou com o sentido nesta estrada. Há coisas que têm de ser feitas. Nunca percebi porquê mas há uma voz interior que nos manda fazer uma qualquer coisa, inexplicavelmente.

Gosto de espaço, gosto de estradas com pouco trânsito, gosto da descoberta. Parto rumo ao Atlas, uma recta de uns 30 km, a montanha ao fundo. Está um dia limpo, com sol, lindo.






A estrada começa a subir. É estreita mas razoável. Sem dar pelos km estou já bem alto. O vento levanta. Sopra cada vez mais forte. O piso está sujo de terra, as bermas começam a estar comidas. Cada vez mais alto, o alcatrão está picado, buracos enormes, as bermas desaparecerem e bocados de estrada começam a desaparecer, fica apenas um trilho de terra e socalcos onde corre água. Curvas e contracurvas, sempre mais fechadas, sempre mais ventosas. O vento sopra tão forte que está difícil manter a moto direita. Se parar vou ao chão com a força do vento. Tenho de continuar.

A paisagem é agreste. Rocha escarpada, batida pelo vento, sem vegetação. Um cenário de outro planeta, de filmes de catástrofes no futuro. Não passam carros, não há aldeias, não se vê gente. Apenas os abrigos dos pastores indicam que, talvez, alguém anda por aqui … ou não.







E o alcatrão desaparece. A estrada começa a descer suavemente. As chuvas das últimas semanas arrastaram terra e pedras. As descidas parecem campos lavrados, desapareceram as curvas interiores da estrada, sulcos profundos, água que escorre pela montanha abaixo, desfiladeiros estreitos. Ao longo da descida avistam-se pastores e rebanhos de cabras. Mais à frente um jipe sobe a esforço o bocado de picada a quem alguém chama de estrada.

Começo a ficar mais confiante. Aqui há gente. Lá muito ao fundo aparece uma aldeia. Mas até chegar à aldeia são mais 30 km de todo-o-terreno. Parecia mais perto. A estrada serpenteia pela montanha. O filme repete-se. Cada vez que há uma inclinação, não há estrada. O alcatrão apenas sobrevive nas curvas horizontais. Aos bocados.

Tenho a noção que a paisagem é fantástica. Se as condições fossem diferentes, fazia aqui umas fotos excelentes. Mas o tempo corre, a estrada é difícil, cada metro passado é uma vitória, equilíbrio difícil. No meu cérebro martelam os conselhos de quem me ensinou a andar na terra. Velocidade constante, não traves, olha para a frente. Estou a transpirar no meio deste ar gélido.

Finalmente chego a Toufrine. Atravesso a aldeia por um caminho de cabras, estreito. Desemboco numa ponte, com ar de acabada de construir. Insólito. Está um grupo de motos de TT estacionado na ponte. Motociclistas equipados com armaduras. Há duas horas que não falo com ninguém, que ando a comer pó. Meto conversa. Ficam surpreendidos em me ver. Olham admirados. São franceses e andam a fazer as pistas do Atlas. Têm um jipe de apoio com atrelado e mais motos.

Pelas minhas contas, já fiz uns 70 ou 80 km. Só faltam cerca de 60 km. Os franceses confirmam. Estrada boa, dizem eles. Em alcatrão. Está um guia marroquino com eles, tem ar de alucinado. Diz que a pior parte da estrada eu já fiz. A partir daqui é mais suave. Já não sei se acredito. Entre opiniões de marroquinos e adeptos de TT, venha o diabo e escolha.









Odeio estradas de terra, pedras, gravilha, areia, tudo o que implique esforço de condução. Gosto de ter um tapete liso debaixo das rodas para eu poder estar de nariz no ar a olhar em volta. Ainda pondero voltar para trás. Só que estou no ponto sem retorno. Preciso chegar a Demnate com luz. Tenho 3 h até ao pôr-do-sol. A noite cai pelas 7,30h da tarde. De repente fica escuro como breu.

Despeço-me dos franceses. Dizem que admiram a minha coragem. Respondo-lhes que não sei se é coragem ou se sou doida. Rimo-nos todos. Subo de novo para a montanha. A estrada está melhor, há mais alcatrão. Só que já não confio. Até podia ir mais depressa mas em cada curva estou à espera de ter uma estrada lavrada pela frente. Já estou do lado Norte do Atlas, começo a descer, a paisagem é mais verde. O percurso sobe e desce mais rapidamente. Ora subo alto, ora atravesso vales férteis e pequenas aldeias onde os locais me olham com curiosidade. Apetece-me parar, respirar e tirar fotos. Mas estou sozinha, quero chegar ainda de dia, rolo devagar, não arrisco. Não sou heroína, não quero cair nem partir nada. Vou a pensar como é curioso que a noção de estrada é diferente consoante as pessoas, ou a experiencia ou os gostos. Conheço alguns para quem este caminho é uma auto-estrada, para outros seria impraticável. Para mim, dá para passar. Com calma.

Finalmente avisto o horizonte. Verde. Lindo. O fim da linha está à vista. Lá em baixo há civilização, há estradas em condições, há um Hotel e um banho quente à minha espera. Até acelero pelas curvas abaixo. Estou contente.







Chego a Demnate ao pôr-do-sol. Atravesso a cidade sem ver Hotéis. Raios. Paro e pergunto. Indicam-me um, mais atrás, à direita. Encontro um sinal de Hotel mas não percebo como se chama. Ainda não desliguei a moto já tenho o recepcionista a dar-me as boas-vindas. É velhote e fala mal francês. Tem quartos. A 100 Dirhams (9€). E tem Internet. Vou ver. Em cada andar há quatro quartos, virados para uma entrada onde tem as casas de banho. Não há nenhum quarto com WC e duche no interior. Tudo partilhado. A esta hora, já não tenho forças para ir procurar outro lugar. As instalações são recentes e o local é limpo.

Já na recepção de novo, dá-me a chave de um quarto no 4º andar. Afinal a Internet não chega lá. Aparece o dono. Insisto em ter Internet. O recepcionista velhote diz que é mais caro. Só tem quartos no 4º andar. Falo directamente com o dono. Explico que sou jornalista e tenho de enviar notícias ainda hoje para o patrão. Não consigo estar a trabalhar na recepção. Faço cara de aflita. Falam os dois em árabe e o dono lá diz qualquer coisa. Consigo um quarto no 2º andar. É duplo mas faz o mesmo preço. E ainda me vai abrir a garagem particular para guardar a moto. (Fixe. Não me estava a apetecer subir 4 andares. Esta coisa não tem elevador).

Neste piso só está um casal de franceses que acabaram de sair para jantar. Os restantes quartos estão vazios. Tranco a porta de ligação à escada e estou à vontade. O duche é forte e a água quentinha, sabe tão bem. Vou à procura de jantar. Tenho o estômago colado às costas. As pernas continuam a tremer da aventura de hoje. O recepcionista surge do nada. Não sei como estes tipos conseguem ser invisíveis e aparecer de repente. Indica-me o restaurante do outro lado da estrada. Acompanha-me até lá.

Deve ter comissão de certezinha. Aqui ou pedem a propina directamente ou recebem comissão do local para onde nos encaminham. O Rei deve-se ver aflito para cobrar impostos.

As mesas estão todas ocupadas. Não sei o que falaram que o dono do restaurante manda um cliente levantar-se para me dar lugar. Mesmo à entrada, frente ao balcão do cozinheiro. É a única mesa que está numa espécie de esplanada, pois as paredes começam mais atrás. Peço espetadinhas de peru (brochetes) e pão. Explico que estou doente. Quero chá. Como devagar. As mãos não deixam fazer gestos rápidos. Ainda tremem. Vou observando o cozinheiro a fritar batatas, a preparar hamburgers marroquinos (pão com carne, salada ou batata e ovo). Uns para servir lá dentro, outros que embrulha e mete em sacos. Há muita gente que vem para o Take Away. O rapaz não pára entre a fritadeira, a grelha e as tijelas de saladas. Paguei 20 dirhams por 6 espetadinhas de carne, pão e 3 copos de chá.






Só no final do dia, já instalada no Hotel, depois de investigar bem por onde andei, é que percebi que rolei sempre a cerca de 2.000 metros de altitude e subi até aos 2.800 m. Lá em cima, lembro-me de ver uma placa com um nome e a altitude. E lembro-me que era um bom local para uma foto. Mas o vento era tanto e tão forte que se eu parava a moto ia ao chão. Só pensava em continuar até começar a descer para o vale, na esperança de que o vento acalmasse. Mais importante que o registo do local era meu sentido de sobrevivência a gritar-me por prudência, a avisar-me que não podia arriscar pois estava sozinha naquele fim do mundo. E eu ouvi e obedeci.

Domingo, 29 Abril


Acordo cedo com os barulhos da rua. Sons de motos a passar. Estranho. Depois percebo que estou no meio do Raid D’Amitié, estão a sair para as pista do Atlas. Motos de TT, todos equipados de armaduras, escapes barulhentos, passam em grupos. Sento-me no café ao lado do Hotel a vê-los passar. O café só serve … café, chá, coca-cola e crepes (rijos, barrados com doce). Já experimentei e não me agradam. O dono diz que há uma padaria ao cimo da rua. Manda buscar um croissant. Fixe.





Hoje vou às Cascades D’Ouzoud. Para Norte. Nem me preocupo com o caminho para lá pois comprei um mapa ao Rui Baltazar que tem todos os locais de interesse referenciados. Nunca tinha visto um mapa assim, cheio de estrelinhas a indicar pontos de paisagens e com todos os sítios turísticos sublinhados a vermelho, quer sejam em estradas de alcatrão, quer em pistas. Não tenho GPS nem percebo nada disso. Mas tenho um mapa que me leva onde quero.

A estrada até às cascatas serpenteia pelos restos da montanha. Do lado Norte do Atlas a paisagem é verde, campos de oliveiras, vegetação rasteira. O andamento é lento, as curvas são muitas. O mapa apresenta a estrada toda retorcida. Mas a altitude é mais baixa. Rolo devagar, com a montanha cada vez mais longe, lá ao fundo o pico com neve brilha ao sol.










Paro numa pequena aldeia. Estou com fome. Uma mercearia tem um balcão cheio de croissants a piscar-me o olho. Pergunto o preço – 1 dirham – Cara de espantada. O rapaz a medo repete – 1 dirham – como se fosse muito caro. Compro dois. Na cidade já dei 3 dirhams por um bolo. Até por aqui, no campo, a qualidade de vida é melhor.
É preciso notar que 1 dirham são 9 cêntimos. Só! E não, não havia moscas poisadas nos bolos. Os animais esvoaçantes estavam concentrados na zona dos talhos a picar furiosamente os cabritos pendurados ao sol.






Já muito perto das cascatas, numa estrada bem secundária, há um mercado à beira da estrada. Muita gente, carrinhas ferrugentas, uma multidão de burritos. Não resisto e paro. Hesito em entrar. Há uma casinhota com um homem que parece comandar as coisas. É o Guardien do mercado. Pergunto se posso entrar e ver. Responde-me gentilmente que sim. Mas que apenas posso tirar fotos da estrada de longe para o mercado. As pessoas não gostam de ser fotografadas. Vou caminhando para a entrada e tiro o flash da máquina. Seguro-a descontraidamente como se não a fosse utilizar. Mas vou disparando sem ver. Talvez consiga alguma foto em condições. Já fiz o mesmo num mercado da Mauritânia e resultou.






Sou a única Ocidental por aqui. Vou deambulando por entre caixas de fruta e legumes lustrosos, tendas de sapatos e roupas, toldos que tapam artefactos agrícolas, pipocas e frutos secos. De vez em quando quase tropeço numa cabra. Os mais velhos andam de trajes compridos, rostos tapados com capuzes. As mulheres têm lenços coloridos que tapam o cabelo. Crianças fazem fila para comprar gelados, que saem de bidons, servidos com uma espátula em cones de bolacha.







Não há ruas no mercado, as bancas são desordenadas, quem chega expõe os produtos no espaço que houver livre. São gentes que vivem nas montanhas e chegam em burritos para vender os produtos que cultivam.

Bem no meio do mercado olho para a estrada. Ouço barulho de motos. São dois e param. Tiram apressadamente umas fotos de longe e arrancam. Não percebo se têm pressa ou medo. Passam alguns jipes de matrículas europeias e fazem o mesmo. Ninguém para.












Chego às cascatas perto da hora de almoço. No largo há uma patrulha de polícia. Pergunto onde posso estacionar. Indicam um parque do lado esquerdo. Na entrada está um velhote a chamar para estacionar. Pergunto o preço. São 5 dirhams. 5 Dirhams? O dia todo, responde ele. Não consigo esconder o riso. Corre à minha frente para dizer onde estacionar. Ainda não tirei o capacete já está a oferecer-se para me mostrar as cascatas. Não tenho dinheiro, respondi. Olha-me surpreendido, não sei se por ser mulher se por dizer que estou falida. Coça a cabeça e ri-se. Mostro-te as cascatas de borla. E ri-se. Vou atrás dele.






Pelo meio de umas casas há uma passagem para uma plataforma de onde se tem uma visão total das cascatas. Não há turistas aqui, apenas dois jovens marroquinos que ao me verem se dirigem para mim. Assim que vêm o meu guia afastam-se. Mohamed é o nome do velhote que me guia, homem já na casa dos 60 anos, enrugado, uns restos de bigode, que fala sem parar num francês misturado com inglês. Passo apressado de quem conhece todos os degraus do passeio que desce até às cascatas. Uma passadeira rodeada de lojas onde se vende de tudo. À nossa passagem ele vai cumprimentando todos e apresenta-me. O irmão que tem uma loja de colares, anéis e pulseiras, mais à frente o tio que esculpe figuras em pedra. Logo a seguir mostra-me um restaurante onde a mulher e as irmãs preparam a melhor Tagine do país. Fala e fala, passinhos rápidos, pergunta-me de onde venho, porque ando sozinha, porque não tenho dinheiro. Digo-lhe que estou em Marrocos há duas semanas e que se acabou. Agora vou para Casablanca onde tenho um tio a quem vou pedir dinheiro para voltar para casa. Ainda vais hoje para Casa? (Casa é o diminutivo que em Marrocos chamam Casablanca). È um grande caminho, diz ele. E tens família lá? As perguntas não acabam nem os degraus para chegar às cascatas que se aproximam.

No passadiço há uma vida própria. Velhotes servem chá aos turistas (familiares dele, claro), a sobrinha que pinta as mãos com Henna, o cunhado que tem uns cavalitos engalanados para passear turistas. A meio caminho mostrou-me uma ruela de casas velhas. È onde ele mora. Ao lado há um Auberge de uma irmã. Começo a pensar que o meu guia é o patrono cá do sítio. Certo é que as dezenas de jovens que andam a oferecer serviços de guia não se aproximam. Cumprimentam respeitosamente o Mohamed e seguem.










As cascatas são magníficas, a água cai abruptamente de uma altura enorme, o barulho sobrepõe-se a qualquer ruído. Chegamos a outra plataforma, quase encostada à parede de água, chão molhado, salpicos de água no ar. De repente aponta e grita todo contente:
Regarde, le rainbow!
Não consigo disfarçar. Dou uma gargalhada sonora. A minha sorte é falar francês e inglês, senão não me entendia com ele. Ele acha que estou contente por ver as cascatas. Ri-se de boca aberta, dentes castanhos na frente, os detrás já desapareceram. Tiro umas fotos e sentamo-nos no muro do passeio que ainda não acabou. Faltam uns milhares de degraus até à lagoa lá em baixo, onde os turistas se divertem em barcos de borracha a fazer rafting. Ficamos ali na conversa. Está um calor dos diabos, transpiro por todos os poros, levámos uns bons 20 minutos a chegar aqui debaixo de um sol escaldante.



Diz que hoje é um dia fraco de turistas mas amanhã vai ser um bom dia. Teve informação que vão chegar aviões de turistas a Casablanca e que a rota começa pelas cascatas. É bom para o negócio. Conta que sempre viveu aqui. Costumava ser guia mas agora está reformado e é Guardien da mesquita. Mas eu tenho cara de simpática e ele decidiu guardar-me. Fala apressado, sempre a rir, muito gentil. Fico a pensar se é alucinado ou se está pedrado. Não percebo metade do que diz. Fala que está contente com a vida. Remata com “Sou feliz nas cascatas”. E dá uma gargalhada castanha que faz todos olharem para ele.

Levanta-se e dirige-se para baixo, continuar a descer. Para mim já bastava. Só de ver tantos degraus fiquei cansada. É que depois teria de os subir todos. Digo-lhe que ainda tenho muitos km para fazer hoje. Voltamos para cima. Vestida com o equipamento da mota, a subida foi difícil. Ele a saltitar à minha frente, eu sem fôlego. Paro de vez em quando e sento-me. A cada pausa ele fala e fala. Vou acenando com a cabeça e sorrio como se estivesse a compreender tudo. No caminho para cima ainda me tenta vender os serviços da sobrinha que pinta as mãos. Baixa o preço para metade. Pergunto-lhe quantos dias a tinta dura. Responde que 2 semanas. Pois, não dá porque não posso aparecer no trabalho de mãos pintadas. Olha para mim muito sério e acena. Compreendo. Desiste. (livra, já me safei desta).




(O Mohamed)


Voltamos para o parque onde está a moto. Diz-me que a estrada até ao outro lado da montanha é muito bonita, mas que devo conduzir com muito cuidado nos próximos 35 km. Estrada apertada com muitas curvas. Depois já posso acelerar. E ri-se muito. Está pedrado de certeza. Não resiste a pedir-me um cadeaux. Qualquer coisa, um souvenir da motard portuguesa. Levo a mão ao bolso onde tenho umas moedas, não mais de 10 dirhams. Digo-lhe que é todo o dinheiro que tenho. E não tens mais nada? No outro bolso tenho um maço a acabar, dois cigarros. Ofereço-lhe. Fica todo contente. Cigarros portugueses. Cheira o pacote e ri-se.

Para sair deste labirinto é necessário atravessar uma estrada transformada em parque de estacionamento. Mais à frente a pequena vila de Ouzoud e uma ponte de barras de madeira a cair de podre para atravessar. Esplanadas e bancas de restaurantes. Muita confusão de turistas, lojas e carros estacionados caoticamente.

A estrada que vai ligar à N8 é razoável. Estreita, piso picado, sobe a montanha até às Gorges de L’Ouzoud. Uma paisagem fantástica. Pelo caminho muitas crianças que guardam rebanhos de cabras, acenam e fazem sinal a pedir bebida. Assim que ouvem o barulho da moto, correm para a estrada e pedem água. Estranho. Há água a escorrer da montanha, as curvas parecem rios. Nunca parei com crianças à vista. Mais tarde, explicaram-me que é um truque para fazerem os turistas parar e pedir coisas. Espertezas de crianças.








A seguir às Gorges a estrada desce para o vale. Lá ao fundo avista-se a civilização. Uma planície imensa, vilas e cidades, os campos estão lavrados em quadrados perfeitos. O tempo virou. Levantou o vento. Olho para trás e uma espessa cortina de nevoeiro persegue-me. Começo a não gostar do cenário. Acelero montanha abaixo, sempre com o nevoeiro colado às costas. Céu cinzento, tenho de sair daqui. A chuva só me apanha já no vale, numa estrada larga, sinalizada e muito movimentada. Os últimos 240 km que me separam de Casablanca são feitos debaixo de chuva intensa, por estradas cheias de trânsito que cruzam cidades e vilas atarefadas. Chego a Berrechid ao cair da noite. Encharcada. Felizmente foram as primeiras chuvas de toda a viagem. Espero que sejam as últimas.



Entrar em Casablanca ao final da tarde, em hora de ponta, é um exercício de coragem. Circular, ao cair da noite, numa metrópole de 5 milhões de habitantes, considerada a maior cidade do Norte de África, não seria impossível, mas bastante difícil. Paro numa pequena vila a 30 km de Casablanca e ligo aos meus amigos - Venham-me buscar por favor. Isto está caótico. Eu não vejo nada de noite - Sorrisos do outro lado.

Estou na 1ª rotunda à entrada de Berrechid, no único café à vista. Está cheio de homens. Sou a única mulher. Olham-me com curiosidade e continuam a conversar. Peço um chá enquanto espero que me venham buscar. Entretenho-me a escrever no meu livro as notas da viagem. Às 20h é noite cerrada.

A entrada em Casablanca é alucinante. Parece que todos se lembraram de vir para a rua ao mesmo tempo. Carros por todo o lado, avenidas enormes, cruzamentos e rotundas onde não consigo perceber a prioridade. Aqui não funciona a regra - o carro maior passa primeiro - mas reparo que nas rotundas, quem vai entrar é que tem prioridade. Os cruzamentos são feitos pelo lado de fora, pois no interior os autocarros parados entopem o fluxo de trânsito. Todos conduzem muito rápido. Não se ouve buzinar, apenas eu apito furiosamente quando alguém se aproxima mais de 2 milímetros.

Segunda-feira, 30 Abril


Hoje acordei preguiçosa. Dormi profundamente até às 11h da manhã. Estou em casa da Dalila, uma mulher na casa dos 50 anos, dinâmica, com uma mentalidade Ocidental. É fundadora e presidente do “Miss Moto Marroc”, o primeiro moto-clube feminino de Marrocos e do mundo árabe. Fez questão em me receber em Casablanca e quase me obrigou a ficar em casa dela. Temos um gosto em comum – viajar de moto – e a empatia foi instantânea. Passamos o resto da manhã na conversa. Duas culturas diferentes, vivências distintas, tantas coisas em comum.




De tarde fomos passear. Conduzir em Casablanca é como andar numa pista de carrinhos de choque. A única regra que se observa é a paragem nos semáforos. De resto, salve-se quem puder. Ao fim de um tempo, habituamo-nos a regras diferentes. Mesmo assim, sinto mais segurança que em Lisboa. Noto que ninguém me quer abalroar. Estão apenas com pressa. Ao contrário de Lisboa que os carros se atiram (por vezes) deliberadamente contra nós.

Passamos a tarde na Mesquita Hassan II. Construída nos anos 90, é um edifício de pedra branca, imponente, que domina a baía de Casablanca. Arcadas gigantescas, interior ricamente trabalhado, um espaço enorme onde cabem 25.000 fiéis.






À entrada todos descalçam os sapatos. Dão-nos um saco de plástico para andarmos com eles. Turistas ou locais, todos andam de saco de plástico na mão. Tem um balcão em madeira, separado, para as mulheres. Lá dentro reina a penumbra. Não tenho flash suficiente para tirar fotos. Deve ser de propósito.

No piso inferior há um hammam (um salão de banhos). Uma piscina gigante, uma sala de sauna e um salão ricamente trabalhado, com flores de Liz em pedra de onde sai água para os fiéis lavarem os pés antes de subir para as orações. É a única mesquita que permite a visita de não-muçulmanos. Mas fazem-se pagar. Preços especiais para turistas.


















À noite vamos jantar fora. Um restaurante da moda, “La Scala”, dentro de um antigo bastião do século XVIII. Um espaço agradável, uma ementa que não me surpreendeu, a maioria dos clientes não usa talheres. Os preços até são razoáveis (Devem ter apresentado a ementa para marroquinos. Se não estivesse com eles talvez pagasse o triplo).

O passeio marítimo da marginal, na zona de “La Corniche”, é o local da noite de Casablanca. Bares e restaurantes virados para o mar, um trânsito infernal até altas horas da noite. Cada bar debita música mais alta que o próximo, pop-rock árabe. No passeio junto ao mar há bancas e quiosques de comida, crepes, caracoletas (um petisco muito apreciado por cá). As jovens vestem-se à Ocidental, por vezes demasiado ocidental. Todos andam de telemóvel na orelha. Na esplanada a beber um chá vou apreciando os carros luxuosos e jipes poderosos. É a zona chique da cidade. Dizem que por vezes vêm o Rei passar por aqui, a conduzir o automóvel, sem escolta (aparente).







Terça-feira, 1 de Maio

A Dalila tem um programa especial para hoje. De manhã vamos às compras, passear até à Medina no centro da cidade. Entramos na porta junto à praça onde está a cúpula do Marabout Sidi Bou Smara. Na entrada, escaparates de coisas para turistas. Lenços, candeeiros coloridos, chichas, cinzeiros, toda a espécie de souvenirs com Casablanca estampado. Não ligam à Dalila. Mas eu tenho ar de estrangeira. Perguntam-me de onde venho, chamam para ver. Oferecem o melhor preço. Tentam falar em várias línguas. A ver se respondo. Faço-me de desentendida. A Dalila responde qualquer coisa e eles largam-me.



Mais para o interior, um enorme labirinto de ruelas estreitas, atafulhadas de pequenas lojas, os produtos expostos quase sobre as nossas cabeças. Já ninguém nos incomoda a chamar para comprar. Andamos por ali a ver. A Dalila aproveita para ir ao alfaiate. Num pátio fora da rua comercial, bate a uma grande porta em ferro. Lá dentro há várias pequenas salas, em cada uma, um negócio. Numa delas trabalham cabedal. Uma máquina de costura, bocados de cabedal espalhados, trabalho artesanal. A um canto, um fogareiro de campismo com uma panela de pressão a apitar. Ela mandou fazer coletes para as senhoras do moto-clube feminino. O alfaiate mostra o protótipo, discutem, dão voltas ao colete, observam as costuras. Cheira a couro.

Cá fora, mesmo ao lado, uma tasca que só tem balcão e duas mesas na rua. Mas tem um enorme LCD pendurado a transmitir … futebol.


















De tarde o programa é especialíssimo. Vamos a um Hammam, um banho público, ritual quase obrigatório para os marroquinos. Há muitos e variados estabelecimentos de banhos públicos, com salão separado para mulheres e homens. Os preços variam entre 50 e 170 Dirhams, conforme os serviços que se contratam.



Entramos num edifício enorme que para além do banho público tem piscinas (separadas para mulheres e homens, claro). À porta um letreiro que diz: Centre de remise em forme (este nome soa a SPA de beleza). O acesso é feito por um vestiário onde nos dão um roupão, toalha, chinelos e uma pequena caixa com pasta de Henna. Fico em roupa interior e começa o ritual. Besunto-me com a pasta de Henna (diz a Dalila que é para abrir os poros da pele), uma massa castanha viscosa. Depois vamos para uma sala de sauna, temperatura elevada e muito vapor. Ficamos na conversa durante um bom bocado. A sauna está cheia de mulheres, um grande à vontade, falam muito, riem-se. Não se nota vergonha nem preconceito. É natural utilizarem o banho público.

Ao lado, uma sala com uma fila de 4 camas em pedra quente, onde 4 massagistas fazem a “Gomage”, uma esfoliação com luvas de crina, seguidas de massagem. Quase que sou esfolada viva. A Dalila ri-se, todas se riem da minha admiração e pouco à-vontade. Tenho o corpo cheio de bocados de pele castanha, arrancada à força pela luva. Ela diz que é pele morta. Depois um duche de água quase fria acaba o tratamento. Nesta altura a Dalila já comentou com todas sobre a portuguesa que vem sozinha de moto.

Estamos na sala de lavagens, escorre água por uma fonte ao canto, escorre água por uma parede, há vários lavatórios em pedra onde as mulheres lavam os cabelos ou esfregam a sola dos pés com pedra-pomes. A maioria delas tem pele muito branca e longos cabelos. São todas marroquinas, eu sou a única estrangeira aqui. Todas usam roupa interior Ocidental, de marca, elegante.

Na sala de repouso repito a várias mulheres alguns detalhes da minha viagem. Cada uma que chega pergunta coisas. Algumas conhecem bem outros países. Todas têm mais de um filho. Há famílias completas, avó, filha e neta que vêm juntas aos banhos. Uma simpatia.

Quando se vestem para sair o aspecto muda. Por cima da roupa vestem uma túnica comprida que lhes esconde o corpo. Os cabelos são cobertos por um lenço. Saem do Hammam mulheres tapadas, silenciosas, de olhar no chão. Tão diferente da alegria infantil lá dentro.

Sai dali cheia de fome. Na rua está um homem com uma carreta a vender pão. Com um aspecto delicioso. Compramos o pão e vamos a uma mercearia ao lado comprar manteiga e queijo. Fico a pensar onde vamos arranjar forma de fazer as sandes. Mas é simples. Aqui todos trocam serviços. O senhor da mercearia corta o pão, barra, mete o queijo e ainda nos arranja umas cadeiras para nos sentarmos, bem no meio dos pacotes de bolachas, garrafas de coca-cola e latas de conservas.




À noite a Dalila faz um jantar especial de despedida. Couscous. É feito numa panela de pressão de três andares. Em baixo coloca as carnes (aves ou borrego) temperadas a cozinhar com água. Na parte de meio estão os legumes. Em cima coze a farinha de sêmola. Quer os legumes quer a farinha cozem no vapor da água das carnes. Uma delícia.

É servido num prato enorme, a sêmola em baixo, ao meio as carnes e em volta da carne os legumes decoram o prato. Come-se com colher e todos do mesmo prato. Acompanha com leite desnatado. É a tradição. Comi aquela iguaria até não poder mais.




Quarta-feira, 2 Maio

Hoje é dia de viagem de regresso. A Dalila e o marido acompanham-me até à saída da cidade. Antes, ainda passamos no Rick’s café. Uma desilusão.

Deixei Casablanca já atrasada. Fiz os 400 km até Tanger no limite dos radares da polícia. Em Tanger enganei-me no caminho para o Porto. Quando perguntava direcções mandavam-me para Tanger-Med, o novo porto 30 km a Leste da cidade. Até que um condutor de táxi me perguntou qual dos portos. Lá consegui chegar ao porto velho, onde se apanha o ferry da FRS.






Cheguei ao porto 5 min depois da hora. O Ferry ainda lá estava. Foram 2 minutos para carimbar o passaporte. Na atrapalhação de tirar os óculos com o barco a apitar, o funcionário da alfândega preencheu os papéis. Depois foram 30 segundos para o papel da alfândega. Corria que nem uma maluca pelos guichets. Acho que estavam todos a rir de mim. O oficial olha-me por cima dos óculos e carimba o papel da saída da moto. Corri para o barco. Mostro o bilhete. O funcionário pede-me o papel verde de embarque ... Não tenho .... comunica com a Central ... olha para mim e encolhe os ombros (mulheres, pensou ele)... manda entrar ...

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Marrocos 2012 from Paula Kota on Vimeo.




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