No Reino do Dragão 

Sikkim - Bhutan Tour 2013


Duas semanas a viajar pelos Himalaias. Paisagens fantásticas, templos coloridos, uma sociedade diferente. Uma viagem que não foi apenas andar de moto. Teve uma componente cultural e de aprendizagem muito forte.


Parte II
(há mais para ler)




TERÇA-FEIRA, DIA 19 MARÇO 2013 

Às cinco da manhã já há alvoroço no Hotel. Uma família indiana – avós, tios, jovens e crianças – está na entrada do hotel a tirar fotos na paisagem. Alegres e barulhentos, fazem poses teatrais iguais às estrelas do Bollywood. Uma algazarra que acorda o hotel todo até aqui mergulhado no silêncio da montanha. Não consigo voltar a adormecer. Mais um colchão de tábua. Doí-me o corpo todo.

O pequeno-almoço é chá e torradas. A única coisa que consigo comer. Os indianos estão a comer grandes pratos de arroz com legumes e carne. Cheira a picante. Os meus companheiros comem omeletes com um preparado parecido com chili. Até o cheiro me agonia.

Saímos para a estrada. O céu está limpo, finalmente azul. Fios de nevoeiro dançam por cima da floresta. Está frio. Muito frio. Descemos a montanha e subimos de novo para visitar o mosteiro de Pemayangtse. Uma estrada estreita e estragada, mais terra que alcatrão, uma subida íngreme até chegar ao cimo de mais outra montanha.











Cá em cima a vista é espectacular. Um mosteiro imponente domina a paisagem. Quadrado, com 3
pisos, está pintado de cores vivas, paredes cobertas de pinturas da vida de Buda, um colorido que contrasta com o verde da floresta e o branco do céu. Alguns turistas e muitos monges, vestidos de vermelho.

O mosteiro de Pemayangtse é um dos mais antigos do Sikkim. Pertence à escola budista – Nyingma - a mais antiga do Tibete que se diz transmitida pelo Guru Rinpoche, considerado como a reencarnação de Buda e por isso chamado de Segundo Buda.













E voltamos a descer e voltamos a subir. Os vales não têm ligação por estrada, só contornando as montanhas, subindo e descendo se consegue passar de um para outro. Os meus ouvidos ora zumbem ora dão estalos. Neste emaranhado de curvas e cotovelos estamos a conseguir fazer médias de 50 km/h. A estrada é razoável, pouco trânsito. Até nos bocados de estrada que não existe não baixamos a velocidade. Os buracos já fazem parte do caminho. Uma velocidade vertiginosa para estas condições.

Circulamos a alta altitude, numa paisagem esmagadora. Ao fundo brilham as neves eternas das montanhas que fazem fronteira com o Tibete. Estamos a 50 km de Nathula Pass, uma das 3 fronteiras entre a Índia e a China, acessível por uma das mais altas estradas circuláveis no mundo, a mais de 4.000 metros de altitude. A fronteira não é permitida a estrangeiros, apenas os indianos podem passar com visto especial. É uma estrada tortuosa que segundo o guia demora umas 4 horas a fazer, para depois ter de se voltar para trás de novo. Estamos parados na berma há quase uma hora. Não nos cansamos desta vista fantástica. Tivemos sorte, o céu está limpo e azul.










Em Romtac paramos para almoçar. Uma pequena vila atarefada que pára quando entramos. Não é costume passarem tantas motos por aqui. Brilham os olhos, tocam no cromado dos depósitos, sorriem. Não metem conversa.

Sentados na esplanada do restaurante, a temperatura está mais amena. O almoço são MOMOS, outra vez. É a comida mais popular e que está sempre pronta. Fazem uma panela de bolinhos de carne e legumes e vão servindo a quem aparece.








Vou dar uma volta pelas lojas ao longo da única rua. Há uma venda de bolos e doces. Um difícil exercício de mímica explicar o que quero. O dono só me mostra fatias de bolo de chocolate. No meio de tanto pacote, consigo descobrir bolachas secas. O preço é em mímica também. Tudo no meio de risos. Todo o chão da loja está cheio de caixas de mercadoria. O dono está sentado no meio da loja, pernas cruzadas, em cima das caixas, ao nível do balcão.

Na parede ao lado um cartaz anuncia a visita de sua santidade o Dalai Lama, no próximo Domingo. Vem fazer uma cerimónia de iniciação no templo local. Já percebi porque no caminho para cá vimos tanta gente a limpar o lixo à beira da estrada.











Mais um desfilar de encostas que contornamos a caminho de Rumtek, o destino de hoje. Serpenteamos entre varandas escavadas nas encostas, cultivadas e verdes. As montanhas são coladas umas às outras. Vales profundos e abafados de calor. Quando subimos a temperatura desce a pique. Passo o dia a pôr e tirar o forro do casaco.















Numa paragem para descansar encostamos junto a uma fila de estacas de bambu com grandes bandeiras. Já tinha visto várias filas de bandeiras pelo caminho sem perceber se havia festa ou se era algum local de culto. Afinal são bandeiras de oração, içadas para trazer felicidade, vida longa, prosperidade, sorte e virtude. Acredita-se que depois de alguém morrer, a oferta de bandeiras de oração ajuda a guiar a alma do falecido para longe do submundo e para o impedir de renascer nos três reinos inferiores. 

São hasteadas ao ar livre, em lugares altos, com vista para as cidades ou rios, para que o vento as agite de forma a activar as bênçãos e as espalhar pelo mundo. Nunca ninguém lhes mexe, tratam-nas com respeito, porque os símbolos sagrados e mantras que têm impressos não devem ser perturbados até que o sol, o vento e a chuva desfaçam as bandeiras. 








O Hotel é um eco-turismo encavalitado na encosta, a 1.600 metros de altitude. Pequenos bungalows escondidos num jardim bem cuidado. Pertence a uma família que produz tudo o que se consome cá. Recebem-nos com sorrisos e uma bebida de boas vindas à base de iogurte.











A sala de jantar é num edifício separado. Toda construída em madeira, acolhedora, uma vista fantástica para o vale. Descobri o que é DAL, um prato feito à base de lentilhas, cozidas por muitas horas em cebola e tomate até se transformar num molho espesso para cobrir o arroz. Para acompanhar, legumes cozidos ao vapor. São deliciosos, sente-se que estão cozidos mas continuam rijos. E saborosos.

Depois de jantar, já por várias vezes tentei ficar nos serões à conversa. Acabo por desistir pois não percebo nada de alemão. A princípio, simpaticamente, ainda tentam conversar em inglês, mas alguns falam tão bem o inglês como eu falo alemão. Retiro-me discretamente para o quarto e escrevo o diário do dia, em letra atropelada tal é a quantidade de informação que quero guardar.

A noite é escura. A lua está a dormir. Na varanda do meu bungalow olho para a encosta do outro lado do vale estreito onde brilham as luzes das casas. Alinham-se em filas ao longo do que parece ser a estrada que serpenteia montanha abaixo. Reina o silêncio.



QUARTA-FEIRA, DIA 20 MARÇO 2013 


De manhã muito cedo saímos para visitar o mosteiro de Rumtek. Como não há espaço para estacionar, o guia diz que é melhor irmos na carrinha de apoio. Conseguimos arrumar-nos todos. Dez pessoas no espaço de seis. Parecemos sardinhas em lata. Só risos. Saímos do hotel e mal andámos 300 metros, trânsito parado. Dois camiões bloqueiam a estrada. Depois de um quarto de hora decidimos ir a pé. Afinal não é assim tão longe.

Rumtek Monastery é a casa do Karmapa Lama o líder espiritual da escola budista de Karma Kagyu, uma das grandes escolas do Budismo Tibetano. Tornou-se o grande centro dos kagyus desde que o 16º Karmapa fugiu do Tibete aquando da invasão chinesa e o mosteiro lhe foi oferecido pelo então Rei de Sikkim. Os Karmapas são eleitos por reconhecimento de uma criança como reencarnação do primeiro Karmapa. Acontece que actualmente existem dois karmapas reconhecidos por diferentes mestres Shamarpa (os sharmapas são os discípulos mais próximos do último karmapa) o que conduziu a uma disputa entre qual será a verdadeira reencarnação. Por isso o mosteiro está fortemente controlado pelo exército indiano e nenhum dos 2 karmapas está autorizado a residir no mosteiro. O complexo tem um templo, um mosteiro, uma escola monástica, um centro de retiro e mais umas coisas.

Estou sentada no pátio, à espera que o guia explique a história do mosteiro em alemão aos companheiros de viagem e depois me venha explicar em inglês. Começo a divagar mentalmente sobre esta coisa da religião. Buda era um príncipe que renunciou à riqueza e aos prazeres da vida para vaguear pelo mundo em busca de respostas para a dor e o sofrimento. Através da meditação entrou num estado de transe em que atingiu a “iluminação” ou um estado superior. Recordo-me de ter lido que o profeta Maomé também tinha por hábito meditar em grutas e que também entrou em estado de transe onde foi contactado pelo Arcanjo Gabriel. E de repente lembrei-me que o novo papa adoptou o nome de Francisco, em homenagem a S. Francisco de Assis, nascido numa família abastada e que renunciou à boa vida para seguir um caminho religioso e de pobreza. 


Os profetas das correntes filosóficas religiosas têm percursos semelhantes. Mas o que não entendo é que por todo o mundo os homens veneram pessoas que consideram como exemplos de vida, assistem a rituais religiosos que incentivam à compaixão …. Mas não o praticam no seu dia-a-dia. Cada vez me faz mais confusão esta história da religião, da idolatria, da beatice. Todos profetas de um Deus que transmite ensinamentos de bondade e virtude. Mais de 2.000 anos depois a humanidade ainda não aprendeu nem pratica nada disto. Muito pelo contrário, sempre fizeram guerras para impor o seu profeta ou a sua versão da religião. Deve ser mais importante defender uma religião que seguir os seus ensinamentos. Não consigo entender. Há uma coisa que tenho de concordar. Os templos, em qualquer lado do mundo, têm um ambiente calmo que convida a pensar (ou meditar) … se tudo isto fará sentido.  






























A estrada que dá acesso ao mosteiro tem um muro completo de rodas de oração – Praying Wheel. São cilindros ocos, sustentados por um eixo e que foram enchidos com pergaminhos de oração. São revestidos em metal ou couro com gravações de mantras sagrados. Segundo a crença budista fazer girar uma roda de oração é tão eficaz como recitar os mantras. Reparei que é um gesto automático as pessoas passarem junto de uma roda de oração e fazerem-na girar sempre no sentido dos ponteiros do relógio porque é o direcção de leitura dos mantras e o sentido da rotação do sol.


















Pelas 11h da manhã voltámos ao Hotel. Vestimos o equipamento para voltar à estrada. É costume no Sikkim os anfitriões fazerem uma cerimónia de despedida. A simpática dona do hotel vem oferecer um lenço comprido que pendura ao pescoço de cada um de nós, agradece a visita e deseja boa viagem. Já em Darjeeling o dono do hotel tinha feito o mesmo.










Partimos para Kalimpong. Vamos descendo a montanha, estrada estreita, rodeadada de muitas aldeias. Esta zona é muito povoada. É raro fazermos mais de 20 km sem atravessar uma localidade. De repente apanhamos uma fila de trânsito parado. Carros, jipes, camiões, estacionados, pessoas na conversa na estrada. Numa curva, a chuva arrastou terra e pedras, a encosta desabou sobre estrada. Terra e árvores cortam a passagem. Alguns homens tentam desimpedir a estrada. Uns metros de lama e pedras por onde conduzimos rapidamente com medo de apanhar com a terra que continua a cair aos poucos. Outras vezes apanhamos a estrada em obras de alargamento. Quando vejo uma nuvem de poeira ao longe já sei que vou fazer todo-o-terreno.






Saímos do estado do Sikkim e entramos de novo no West Bengal. Temos de passar na fronteira e carimbar o passaporte com o visto de saída. Poucos km, sempre pelo vale, a acompanhar o rio Teesta. Estrada boa, paisagem fantástica. Chegamos ao Hotel cerca das 3h da tarde, já depois de almoçar num tasco à beira da estrada onde o meu almoço foi arroz branco solitário. O cheiro dos acompanhamentos deu-me um ataque de espirros que me fez desistir logo. No ar paira o cheiro a picante.









Outro hotel de bungalows escondidos na folhagem do jardim. Desde o estacionamento até ao jardim temos de subir quase uma centena de degraus. Mas a vista vale o esforço. Como de costume, à chegada a cada hotel, sentamos-nos à conversa. Os alemães bebem sempre umas cervejas. Aparentemente a cerveja indiana é boa. Nunca ficam pela primeira rodada. O guia já sabe que não bebo cerveja. Pede sempre chá para mim e bolinhos. A minha sorte são as bolachas e bolinhos, senão passava fome com tanto picante na comida.










Kalimpong foi outrora o centro de comércio entre a Índia e o Tibete antes da invasão chinesa. Continua uma cidade movimentada. Partimos à descoberta da cidade. Outra vez ensardinhados na carrinha de apoio até ao largo principal. O guia leva-nos a uma pequena fábrica de papel onde o dono nos explicou a arte de fabrico artesanal. Parecem resmas de papiros.


O resto da tarde é passado a deambular pela cidade. Ruas estreitas, uma selva de canos de água e fios eléctricos, mercados de rua, lixo amontoado aos cantos, porcos a passear na rua e carros que passam a buzinar. Um cenário normal na Índia a que não estamos habituados. Para eles, é a vida que conhecem, é como a sociedade está organizada. Para nós é um caos. São mundos diferentes que não se podem comparar.






























(continua) ...


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