Marrocos - Na Terra do Sol Poente


3ª parte

Domingo, 29 Abril


Acordo cedo com os barulhos da rua. Sons de motos a passar. Estranho. Depois percebo que estou no meio do Raid D’Amitié, estão a sair para as pista do Atlas. Motos de TT, todos equipados de armaduras, escapes barulhentos, passam em grupos. Sento-me no café ao lado do Hotel a vê-los passar. O café só serve … café, chá, coca-cola e crepes (rijos, barrados com doce). Já experimentei e não me agradam. O dono diz que há uma padaria ao cimo da rua. Manda buscar um croissant. Fixe.





Hoje vou às Cascades D’Ouzoud. Para Norte. Nem me preocupo com o caminho para lá pois comprei um mapa ao Rui Baltazar que tem todos os locais de interesse referenciados. Nunca tinha visto um mapa assim, cheio de estrelinhas a indicar pontos de paisagens e com todos os sítios turísticos sublinhados a vermelho, quer sejam em estradas de alcatrão, quer em pistas. Não tenho GPS nem percebo nada disso. Mas tenho um mapa que me leva onde quero.

A estrada até às cascatas serpenteia pelos restos da montanha. Do lado Norte do Atlas a paisagem é verde, campos de oliveiras, vegetação rasteira. O andamento é lento, as curvas são muitas. O mapa apresenta a estrada toda retorcida. Mas a altitude é mais baixa. Rolo devagar, com a montanha cada vez mais longe, lá ao fundo o pico com neve brilha ao sol.










Paro numa pequena aldeia. Estou com fome. Uma mercearia tem um balcão cheio de croissants a piscar-me o olho. Pergunto o preço – 1 dirham – Cara de espantada. O rapaz a medo repete – 1 dirham – como se fosse muito caro. Compro dois. Na cidade já dei 3 dirhams por um bolo. Até por aqui, no campo, a qualidade de vida é melhor.
É preciso notar que 1 dirham são 9 cêntimos. Só! E não, não havia moscas poisadas nos bolos. Os animais esvoaçantes estavam concentrados na zona dos talhos a picar furiosamente os cabritos pendurados ao sol.






 Já muito perto das cascatas, numa estrada bem secundária, há um mercado à beira da estrada. Muita gente, carrinhas ferrugentas, uma multidão de burritos. Não resisto e paro. Hesito em entrar. Há uma casinhota com um homem que parece comandar as coisas. É o Guardien do mercado. Pergunto se posso entrar e ver. Responde-me gentilmente que sim. Mas que apenas posso tirar fotos da estrada de longe para o mercado. As pessoas não gostam de ser fotografadas. Vou caminhando para a entrada e tiro o flash da máquina. Seguro-a descontraidamente como se não a fosse utilizar. Mas vou disparando sem ver. Talvez consiga alguma foto em condições. Já fiz o mesmo num mercado da Mauritânia e resultou.






Sou a única Ocidental por aqui. Vou deambulando por entre caixas de fruta e legumes lustrosos, tendas de sapatos e roupas, toldos que tapam artefactos agrícolas, pipocas e frutos secos. De vez em quando quase tropeço numa cabra. Os mais velhos andam de trajes compridos, rostos tapados com capuzes. As mulheres têm lenços coloridos que tapam o cabelo. Crianças fazem fila para comprar gelados, que saem de bidons, servidos com uma espátula em cones de bolacha.







Não há ruas no mercado, as bancas são desordenadas, quem chega expõe os produtos no espaço que houver livre. São gentes que vivem nas montanhas e chegam em burritos para vender os produtos que cultivam.

Bem no meio do mercado olho para a estrada. Ouço barulho de motos. São dois e param. Tiram apressadamente umas fotos de longe e arrancam. Não percebo se têm pressa ou medo. Passam alguns jipes de matrículas europeias e fazem o mesmo. Ninguém para.












Chego às cascatas perto da hora de almoço. No largo há uma patrulha de polícia. Pergunto onde posso estacionar. Indicam um parque do lado esquerdo. Na entrada está um velhote a chamar para estacionar. Pergunto o preço. São 5 dirhams. 5 Dirhams? O dia todo, responde ele. Não consigo esconder o riso. Corre à minha frente para dizer onde estacionar. Ainda não tirei o capacete já está a oferecer-se para me mostrar as cascatas. Não tenho dinheiro, respondi. Olha-me surpreendido, não sei se por ser mulher se por dizer que estou falida. Coça a cabeça e ri-se. Mostro-te as cascatas de borla. E ri-se. Vou atrás dele.






Pelo meio de umas casas há uma passagem para uma plataforma de onde se tem uma visão total das cascatas. Não há turistas aqui, apenas dois jovens marroquinos que ao me verem se dirigem para mim. Assim que vêm o meu guia afastam-se. Mohamed é o nome do velhote que me guia, homem já na casa dos 60 anos, enrugado, uns restos de bigode, que fala sem parar num francês misturado com inglês. Passo apressado de quem conhece todos os degraus do passeio que desce até às cascatas. Uma passadeira rodeada de lojas onde se vende de tudo. À nossa passagem ele vai cumprimentando todos e apresenta-me. O irmão que tem uma loja de colares, anéis e pulseiras, mais à frente o tio que esculpe figuras em pedra. Logo a seguir mostra-me um restaurante onde a mulher e as irmãs preparam a melhor Tagine do país. Fala e fala, passinhos rápidos, pergunta-me de onde venho, porque ando sozinha, porque não tenho dinheiro. Digo-lhe que estou em Marrocos há duas semanas e que se acabou. Agora vou para Casablanca onde tenho um tio a quem vou pedir dinheiro para voltar para casa. Ainda vais hoje para Casa? (Casa é o diminutivo que em Marrocos chamam Casablanca). È um grande caminho, diz ele. E tens família lá? As perguntas não acabam nem os degraus para chegar às cascatas que se aproximam.

No passadiço há uma vida própria. Velhotes servem chá aos turistas (familiares dele, claro), a sobrinha que pinta as mãos com Henna, o cunhado que tem uns cavalitos engalanados para passear turistas. A meio caminho mostrou-me uma ruela de casas velhas. È onde ele mora. Ao lado há um Auberge de uma irmã. Começo a pensar que o meu guia é o patrono cá do sítio. Certo é que as dezenas de jovens que andam a oferecer serviços de guia não se aproximam. Cumprimentam respeitosamente o Mohamed e seguem.










As cascatas são magníficas, a água cai abruptamente de uma altura enorme, o barulho sobrepõe-se a qualquer ruído. Chegamos a outra plataforma, quase encostada à parede de água, chão molhado, salpicos de água no ar. De repente aponta e grita todo contente:
Regarde, le rainbow!
Não consigo disfarçar. Dou uma gargalhada sonora. A minha sorte é falar francês e inglês, senão não me entendia com ele. Ele acha que estou contente por ver as cascatas. Ri-se de boca aberta, dentes castanhos na frente, os detrás já desapareceram. Tiro umas fotos e sentamo-nos no muro do passeio que ainda não acabou. Faltam uns milhares de degraus até à lagoa lá em baixo, onde os turistas se divertem em barcos de borracha a fazer rafting. Ficamos ali na conversa. Está um calor dos diabos, transpiro por todos os poros, levámos uns bons 20 minutos a chegar aqui debaixo de um sol escaldante.



Diz que hoje é um dia fraco de turistas mas amanhã vai ser um bom dia. Teve informação que vão chegar aviões de turistas a Casablanca e que a rota começa pelas cascatas. É bom para o negócio. Conta que sempre viveu aqui. Costumava ser guia mas agora está reformado e é Guardien da mesquita. Mas eu tenho cara de simpática e ele decidiu guardar-me. Fala apressado, sempre a rir, muito gentil. Fico a pensar se é alucinado ou se está pedrado. Não percebo metade do que diz. Fala que está contente com a vida. Remata com “Sou feliz nas cascatas”. E dá uma gargalhada castanha que faz todos olharem para ele.

Levanta-se e dirige-se para baixo, continuar a descer. Para mim já bastava. Só de ver tantos degraus fiquei cansada. É que depois teria de os subir todos. Digo-lhe que ainda tenho muitos km para fazer hoje. Voltamos para cima. Vestida com o equipamento da mota, a subida foi difícil. Ele a saltitar à minha frente, eu sem fôlego. Paro de vez em quando e sento-me. A cada pausa ele fala e fala. Vou acenando com a cabeça e sorrio como se estivesse a compreender tudo. No caminho para cima ainda me tenta vender os serviços da sobrinha que pinta as mãos. Baixa o preço para metade. Pergunto-lhe quantos dias a tinta dura. Responde que 2 semanas. Pois, não dá porque não posso aparecer no trabalho de mãos pintadas. Olha para mim muito sério e acena. Compreendo. Desiste. (livra, já me safei desta).




(O Mohamed)


Voltamos para o parque onde está a moto. Diz-me que a estrada até ao outro lado da montanha é muito bonita, mas que devo conduzir com muito cuidado nos próximos 35 km. Estrada apertada com muitas curvas. Depois já posso acelerar. E ri-se muito. Está pedrado de certeza. Não resiste a pedir-me um cadeaux. Qualquer coisa, um souvenir da motard portuguesa. Levo a mão ao bolso onde tenho umas moedas, não mais de 10 dirhams. Digo-lhe que é todo o dinheiro que tenho. E não tens mais nada? No outro bolso tenho um maço a acabar, dois cigarros. Ofereço-lhe. Fica todo contente. Cigarros portugueses. Cheira o pacote e ri-se.

Para sair deste labirinto é necessário atravessar uma estrada transformada em parque de estacionamento. Mais à frente a pequena vila de Ouzoud e uma ponte de barras de madeira a cair de podre para atravessar. Esplanadas e bancas de restaurantes. Muita confusão de turistas, lojas e carros estacionados caoticamente.

A estrada que vai ligar à N8 é razoável. Estreita, piso picado, sobe a montanha até às Gorges de L’Ouzoud. Uma paisagem fantástica. Pelo caminho muitas crianças que guardam rebanhos de cabras, acenam e fazem sinal a pedir bebida. Assim que ouvem o barulho da moto, correm para a estrada e pedem água. Estranho. Há água a escorrer da montanha, as curvas parecem rios. Nunca parei com crianças à vista. Mais tarde, explicaram-me que é um truque para fazerem os turistas parar e pedir coisas. Espertezas de crianças.








A seguir às Gorges a estrada desce para o vale. Lá ao fundo avista-se a civilização. Uma planície imensa, vilas e cidades, os campos estão lavrados em quadrados perfeitos. O tempo virou. Levantou o vento. Olho para trás e uma espessa cortina de nevoeiro persegue-me. Começo a não gostar do cenário. Acelero montanha abaixo, sempre com o nevoeiro colado às costas. Céu cinzento, tenho de sair daqui. A chuva só me apanha já no vale, numa estrada larga, sinalizada e muito movimentada. Os últimos 240 km que me separam de Casablanca são feitos debaixo de chuva intensa, por estradas cheias de trânsito que cruzam cidades e vilas atarefadas. Chego a Berrechid ao cair da noite. Encharcada. Felizmente foram as primeiras chuvas de toda a viagem. Espero que sejam as últimas.



Entrar em Casablanca ao final da tarde, em hora de ponta, é um exercício de coragem. Circular, ao cair da noite, numa metrópole de 5 milhões de habitantes, considerada a maior cidade do Norte de África, não seria impossível, mas bastante difícil. Paro numa pequena vila a 30 km de Casablanca e ligo aos meus amigos - Venham-me buscar por favor. Isto está caótico. Eu não vejo nada de noite - Sorrisos do outro lado.

Estou na 1ª rotunda à entrada de Berrechid, no único café à vista. Está cheio de homens. Sou a única mulher. Olham-me com curiosidade e continuam a conversar. Peço um chá enquanto espero que me venham buscar. Entretenho-me a escrever no meu livro as notas da viagem. Às 20h é noite cerrada.

A entrada em Casablanca é alucinante. Parece que todos se lembraram de vir para a rua ao mesmo tempo. Carros por todo o lado, avenidas enormes, cruzamentos e rotundas onde não consigo perceber a prioridade. Aqui não funciona a regra - o carro maior passa primeiro - mas reparo que nas rotundas, quem vai entrar é que tem prioridade. Os cruzamentos são feitos pelo lado de fora, pois no interior os autocarros parados entopem o fluxo de trânsito. Todos conduzem muito rápido. Não se ouve buzinar, apenas eu apito furiosamente quando alguém se aproxima mais de 2 milímetros.

Segunda-feira, 30 Abril


Hoje acordei preguiçosa. Dormi profundamente até às 11h da manhã. Estou em casa da Dalila, uma mulher na casa dos 50 anos, dinâmica, com uma mentalidade Ocidental. É fundadora e presidente do “Miss Moto Marroc”, o primeiro moto-clube feminino de Marrocos e do mundo árabe. Fez questão em me receber em Casablanca e quase me obrigou a ficar em casa dela. Temos um gosto em comum – viajar de moto – e a empatia foi instantânea. Passamos o resto da manhã na conversa. Duas culturas diferentes, vivências distintas, tantas coisas em comum.




De tarde fomos passear. Conduzir em Casablanca é como andar numa pista de carrinhos de choque. A única regra que se observa é a paragem nos semáforos. De resto, salve-se quem puder. Ao fim de um tempo, habituamo-nos a regras diferentes. Mesmo assim, sinto mais segurança que em Lisboa. Noto que ninguém me quer abalroar. Estão apenas com pressa. Ao contrário de Lisboa que os carros se atiram (por vezes) deliberadamente contra nós.

Passamos a tarde na Mesquita Hassan II. Construída nos anos 90, é um edifício de pedra branca, imponente, que domina a baía de Casablanca. Arcadas gigantescas, interior ricamente trabalhado, um espaço enorme onde cabem 25.000 fiéis.






À entrada todos descalçam os sapatos. Dão-nos um saco de plástico para andarmos com eles. Turistas ou locais, todos andam de saco de plástico na mão. Tem um balcão em madeira, separado, para as mulheres. Lá dentro reina a penumbra. Não tenho flash suficiente para tirar fotos. Deve ser de propósito.

No piso inferior há um hammam (um salão de banhos). Uma piscina gigante, uma sala de sauna e um salão ricamente trabalhado, com flores de Liz em pedra de onde sai água para os fiéis lavarem os pés antes de subir para as orações. É a única mesquita que permite a visita de não-muçulmanos. Mas fazem-se pagar. Preços especiais para turistas.


















À noite vamos jantar fora. Um restaurante da moda, “La Scala”, dentro de um antigo bastião do século XVIII. Um espaço agradável, uma ementa que não me surpreendeu, a maioria dos clientes não usa talheres. Os preços até são razoáveis (Devem ter apresentado a ementa para marroquinos. Se não estivesse com eles talvez pagasse o triplo).

O passeio marítimo da marginal, na zona de “La Corniche”, é o local da noite de Casablanca. Bares e restaurantes virados para o mar, um trânsito infernal até altas horas da noite. Cada bar debita música mais alta que o próximo, pop-rock árabe. No passeio junto ao mar há bancas e quiosques de comida, crepes, caracoletas (um petisco muito apreciado por cá). As jovens vestem-se à Ocidental, por vezes demasiado ocidental. Todos andam de telemóvel na orelha. Na esplanada a beber um chá vou apreciando os carros luxuosos e jipes poderosos. É a zona chique da cidade. Dizem que por vezes vêm o Rei passar por aqui, a conduzir o automóvel, sem escolta (aparente).







 

Terça-feira, 1 de Maio

A Dalila tem um programa especial para hoje. De manhã vamos às compras, passear até à Medina no centro da cidade. Entramos na porta junto à praça onde está a cúpula do Marabout Sidi Bou Smara. Na entrada, escaparates de coisas para turistas. Lenços, candeeiros coloridos, chichas, cinzeiros, toda a espécie de souvenirs com Casablanca estampado. Não ligam à Dalila. Mas eu tenho ar de estrangeira. Perguntam-me de onde venho, chamam para ver. Oferecem o melhor preço. Tentam falar em várias línguas. A ver se respondo. Faço-me de desentendida. A Dalila responde qualquer coisa e eles largam-me.



Mais para o interior, um enorme labirinto de ruelas estreitas, atafulhadas de pequenas lojas, os produtos expostos quase sobre as nossas cabeças. Já ninguém nos incomoda a chamar para comprar. Andamos por ali a ver. A Dalila aproveita para ir ao alfaiate. Num pátio fora da rua comercial, bate a uma grande porta em ferro. Lá dentro há várias pequenas salas, em cada uma, um negócio. Numa delas trabalham cabedal. Uma máquina de costura, bocados de cabedal espalhados, trabalho artesanal. A um canto, um fogareiro de campismo com uma panela de pressão a apitar. Ela mandou fazer coletes para as senhoras do moto-clube feminino. O alfaiate mostra o protótipo, discutem, dão voltas ao colete, observam as costuras. Cheira a couro.

Cá fora, mesmo ao lado, uma tasca que só tem balcão e duas mesas na rua. Mas tem um enorme LCD pendurado a transmitir … futebol.


















De tarde o programa é especialíssimo. Vamos a um Hammam, um banho público, ritual quase obrigatório para os marroquinos. Há muitos e variados estabelecimentos de banhos públicos, com salão separado para mulheres e homens. Os preços variam entre 50 e 170 Dirhams, conforme os serviços que se contratam.



Entramos num edifício enorme que para além do banho público tem piscinas (separadas para mulheres e homens, claro). À porta um letreiro que diz: Centre de remise em forme (este nome soa a SPA de beleza). O acesso é feito por um vestiário onde nos dão um roupão, toalha, chinelos e uma pequena caixa com pasta de Henna. Fico em roupa interior e começa o ritual. Besunto-me com a pasta de Henna (diz a Dalila que é para abrir os poros da pele), uma massa castanha viscosa. Depois vamos para uma sala de sauna, temperatura elevada e muito vapor. Ficamos na conversa durante um bom bocado. A sauna está cheia de mulheres, um grande à vontade, falam muito, riem-se. Não se nota vergonha nem preconceito. É natural utilizarem o banho público.

Ao lado, uma sala com uma fila de 4 camas em pedra quente, onde 4 massagistas fazem a “Gomage”, uma esfoliação com luvas de crina, seguidas de massagem. Quase que sou esfolada viva. A Dalila ri-se, todas se riem da minha admiração e pouco à-vontade. Tenho o corpo cheio de bocados de pele castanha, arrancada à força pela luva. Ela diz que é pele morta. Depois um duche de água quase fria acaba o tratamento. Nesta altura a Dalila já comentou com todas sobre a portuguesa que vem sozinha de moto.

Estamos na sala de lavagens, escorre água por uma fonte ao canto, escorre água por uma parede, há vários lavatórios em pedra onde as mulheres lavam os cabelos ou esfregam a sola dos pés com pedra-pomes. A maioria delas tem pele muito branca e longos cabelos. São todas marroquinas, eu sou a única estrangeira aqui. Todas usam roupa interior Ocidental, de marca, elegante.

Na sala de repouso repito a várias mulheres alguns detalhes da minha viagem. Cada uma que chega pergunta coisas. Algumas conhecem bem outros países. Todas têm mais de um filho. Há famílias completas, avó, filha e neta que vêm juntas aos banhos. Uma simpatia.

Quando se vestem para sair o aspecto muda. Por cima da roupa vestem uma túnica comprida que lhes esconde o corpo. Os cabelos são cobertos por um lenço. Saem do Hammam mulheres tapadas, silenciosas, de olhar no chão. Tão diferente da alegria infantil lá dentro.

Sai dali cheia de fome. Na rua está um homem com uma carreta a vender pão. Com um aspecto delicioso. Compramos o pão e vamos a uma mercearia ao lado comprar manteiga e queijo. Fico a pensar onde vamos arranjar forma de fazer as sandes. Mas é simples. Aqui todos trocam serviços. O senhor da mercearia corta o pão, barra, mete o queijo e ainda nos arranja umas cadeiras para nos sentarmos, bem no meio dos pacotes de bolachas, garrafas de coca-cola e latas de conservas.




À noite a Dalila faz um jantar especial de despedida. Couscous. É feito numa panela de pressão de três andares. Em baixo coloca as carnes (aves ou borrego) temperadas a cozinhar com água. Na parte de meio estão os legumes. Em cima coze a farinha de sêmola. Quer os legumes quer a farinha cozem no vapor da água das carnes. Uma delícia.

É servido num prato enorme, a sêmola em baixo, ao meio as carnes e em volta da carne os legumes decoram o prato. Come-se com colher e todos do mesmo prato. Acompanha com leite desnatado. É a tradição. Comi aquela iguaria até não poder mais.




Quarta-feira, 2 Maio 

Hoje é dia de viagem de regresso. A Dalila e o marido acompanham-me até à saída da cidade. Antes, ainda passamos no Rick’s café. Uma desilusão.

Deixei Casablanca já atrasada. Fiz os 400 km até Tanger no limite dos radares da polícia. Em Tanger enganei-me no caminho para o Porto. Quando perguntava direcções mandavam-me para Tanger-Med, o novo porto 30 km a Leste da cidade. Até que um condutor de táxi me perguntou qual dos portos. Lá consegui chegar ao porto velho, onde se apanha o ferry da FRS.







Cheguei ao porto 5 min depois da hora. O Ferry ainda lá estava. Foram 2 minutos para carimbar o passaporte. Na atrapalhação de tirar os óculos com o barco a apitar, o funcionário da alfândega preencheu os papéis. Depois foram 30 segundos para o papel da alfândega. Corria que nem uma maluca pelos guichets. Acho que estavam todos a rir de mim. O oficial olha-me por cima dos óculos e carimba o papel da saída da moto. Corri para o barco. Mostro o bilhete. O funcionário pede-me o papel verde de embarque ... Não tenho .... comunica com a Central ... olha para mim e encolhe os ombros (mulheres, pensou ele)... manda entrar ...

By ... by ...Marrocos


4 comentários:

  1. Muito bom.


    agora estou cansado... ,as valeu .

    bj

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  2. Parabéns pelo seu relato. Quem não conhece Marrocos fica apaixonado.

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  3. Viva

    Li o pimeiro (Escócia), por acaso, tendo partido do CKLT. Depois fui lendo e lendo como quem devora um best seller.
    Fico a aguardar a finalização dos Himalais.
    Obrigado pelos seus relatos.

    Vitor Almeida

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  4. Parabéns por esta aventura. Adorei ler estas crónicas!!

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