Marrocos - Na Terra do Sol Poente


2ª parte (há mais uma no forno)

Quinta-feira, 26 Abril


Pequeno-almoço – 25 dirhams. Leite, café, pão, manteiga e doce. O normal. Bem servido. Na sala de refeições está apenas um americano, já com os seus 60 anos, cabelo grisalho, barrigudo. Olha com atenção para os miúdos que se sentam na porta. Ontem à tarde vi-o a falar com eles, muito interessado. Anda sozinho e fala com tudo o que é garoto. Quando o cumprimentei nem se dignou a olhar. Não gosto dele.

O dono do Hotel, de pele negra escura, está atrás do balcão a falar com as empregadas e a olharem para mim. Devo ser uma espécie rara por aqui. Acenam-me e sorriem. Acabo com o pão todo. Este pão marroquino é uma delícia. Tenho de esperar para tirar a moto do passeio. Estacionaram uma carrinha de 9 lugares mesmo em frente. Não tenho espaço para a tirar, está entalada entre dois postes e a carrinha. Foram chamar o dono, um rapaz jovem que é guia de turistas. Acho que a população do Hotel (excepto eu e o americano que gosta de miúdos) é toda de guias turísticos. A rua está cheia de carrinhas e jipes estacionados.

O preço da estadia está bem visível na recepção. Não há que negociar nem enganar. Pago e vou para a rua esperar. Para me ajudar a tirar a moto do sítio, veio o dono do Hotel, o guia da carrinha e o rapaz que fez de cicerone ontem. As empregadas estão à porta a rir. Todos riem a verem o meu esforço de tirar a moto e quase a deixar cair no chão. Parece um circo. Hoje era quase impossível roubarem-me a vermelhinha, só o trabalhão que deu tirá-la do passeio.






Saio de Erfoud em direcção a Tinejdad por uma estrada sem número. Uma antiga pista que agora tem alcatrão com bom piso. Uma planície imensa de areia. Está calor. Depois de uns km aparecem umas tendas à beira da estrada e uns montes de areia que parecem velhas crateras. E autocarros de turismo. Uma placa indica que podemos visitar “Le sisteme d’irrigacion Tuareg”. Paro por perto a observar os turistas sentarem-se no chão, em estruturas de madeira com roldanas, a dar ao pedal e a ouvir explicações de um sistema de poços e túneis subterrâneos de água (que agora estão secos), muito contentes a ouvirem os homens de azul a que chamam de tuaregs. Tiro umas fotos e arranco quando vejo uns “tuaregs” a virem na minha direcção para me oferecerem fósseis. Um deles ainda me tentou acompanhar de bicicleta, a gritar qualquer coisa que podia ser uma oportunidade única.






Até chegar à estrada principal, a N10, são 87 km de pouco trânsito e muito espaço. Atravesso pequenas vilas por estradas a sufocar de terra e areia. Pouca gente na rua. Tão diferente do romantismo das fotos das cidades imperiais, com edifícios cheios de arabescos. Em Tinejdad paro com fome. Vejo uma patisserie e compro um croissant por 2 dirhams. No café ao lado sento-me na esplanada ao abrigo do sol. Estou fã dos bolos marroquinos. E do café.







Já se avista o vale do Todra. Palmeiral, retalhos verdes cultivados. Em Tinghir vira-se à direita para as gargantas do Todra. O cruzamento está em obras, a estrada está toda picada. Sobe e desce, quanto mais perto das gargantas, mais ratada a estrada. Tem bastante trânsito. Se não são os carros que me atiram para fora da estrada é a deslocação do ar dos autocarros de turismo que passam a grande velocidade, curvam de rodas no ar, quase parece que vão cair pela falésia abaixo. Locais de turismo em países árabes, são perigosos. Já dentro do vale, as montanhas vão apertando o espaço até ficar uma tira estreita onde cabe apenas a estrada e um pequeno rio.









Estou parada numa ponte a tirar fotos às mulheres que lavam roupa no rio quando vejo passar um grupo de motos com matrícula portuguesa. Aceno mas eles não param. Encontro-os mais à frente, nas gargantas do Todra. É um passeio organizado, quase todas motos BMW. Conheço um deles. Os outros não. Mas começamos logo à conversa. Peço para me tirarem uma foto nas gargantas. A única foto em que apareço até agora. Fixe.






Ficam para almoçar no Yasmine, um dos dois hotéis famosos daqui, convidam-me para os acompanhar. Vou ver os preços da ementa. Cada prato está marcado a cerca de 95 dirhams (8,5€). Fora de orçamento. Agradeço a simpatia do Paulo Silva e vou à procura de um tasco mais em conta.

Caminho para o estacionamento a pensar nos km que podia fazer com este valor. Devo estar mal habituada pois ainda nunca paguei tão caro por uma refeição. Mais tarde, explicaram-me que os marroquinos têm três tabelas de preços “oficiais”. Uma para os americanos, franceses, belgas … os que têm dinheiro e pouco negoceiam. Outra para os Tugas e outros pelintras que choram os preços. E finalmente, a tabela de preços real, a que praticam entre eles. Só para comparar, os meus amigos marroquinos pernoitam, quer no Yasmine quer no Les Roches (mesmo ao lado), por cerca de 120 dirhams por jantar, estadia e pequeno-almoço.

Depois de comer umas bolachinhas que trazia de Portugal, para enganar o estômago, parto em busca de almoço. Paro em Tinghir, num restaurante com bom ar. Estão dois motociclistas italianos a almoçar na esplanada. Entro e negoceio o preço do almoço. Mais uma Tagine, a única coisa que demora pouco tempo. As Tagines são uma espécie de estufado de carne e legumes, servido num pote de barro, que preparam de manhã e fica a cozinhar ao vapor. Na hora de almoçar está sempre pronto. O preço máximo são 40 dirhams.

Que diferença entre este pacato restaurante e a confusão do Todra. Almoço calmamente sem ninguém me incomodar. O empregado anda a borboletar em volta da minha mesa, mas não fala. Sinto-o a olhar de soslaio, desertinho para meter conversa. Quando terminei o almoço, não resistiu - Viajas sozinha? – Senta-se e pergunta-me de onde venho, que nunca viu uma mulher sozinha a viajar por aqui. Vêem-se alguns alemães sós, mas os outros viajam sempre em pares ou grupos. Vai falando depressa, num mau francês enquanto abana a cabeça. Não para de repetir que admira a minha coragem. Viajar sozinha em Marrocos. Mulher corajosa. Digo-lhe que acho o país muito seguro e as pessoas muito simpáticas. Abana com a cabeça afirmativamente, parece um pêndulo, todo contente. Incha de orgulho.

Estou com o mapa aberto a ver onde vou parar esta noite. Pergunto-lhe se conhece algum Hotel simpático em Bumalne (estava a ver uma cidade grande perto do vale do Dadés onde quero ir). Responde que lá não há nada para ver e os hotéis são muito caros. Aconselha-me a ficar nas Gorges du Dadés. Bonita estrada e melhores hotéis. Recomenda-me o Auberge de Peuplier, no km 27 da estrada para Msemrir. Costuma ir para lá com a família de férias. Escrevinhou a direcção e indicações para lá chegar no meu livro de apontamentos. Diz que o preço máximo serão 120 dirhams. Vai ligar para o amigo a avisar que eu vou.

Ainda é cedo e estou perto. São apenas uns 70 km. Se não gostar posso sempre voltar para trás e procurar outro local para ficar. Os km que me separam de Boumalne são sempre a direito, uma recta de deserto cortada apenas pelos torreões que limitam as províncias. Um espaço enorme de pedras e vegetação rasteira, com as montanhas ao fundo. Continua muito calor. Ando com o forro do casaco amarrado à mota. Já não cabe nas malas. Tenho duas garrafas de água de 1,5 Lt e um saco com bolachas a encher o espaço que era para o forro.






Atravesso Boumalne e viro em direcção ao vale do Dadés. De repente a paisagem muda. A terra já não é amarela. É vermelha. Muitas aldeias, pessoas de bicicleta, mulheres com fardos de erva às costas, construções em terra e argila. A estrada serpenteia junto ao oásis verde, pelo meio da montanha. Rebanhos cortam a estrada. Os km vão passando. Veem-se muitos hotéis e pequenos albergues, com bom aspecto, pendurados na encosta ou à beira da estrada. Não há trânsito, passam apenas camiões de vez em quando, a andar devagar, parecem das obras. Vou controlando pelo conta-km parcial para saber onde estou. As paredes da montanha estreitam, o espaço só chega para o rio e a estrada. Quando penso que já passei o albergue, quase a desistir, encontro uma pequena casa, encostada à parede de rocha, em cima da estrada e do rio com um cartaz a dizer “Auberge des Peupliers”.








Assim que estaciono, sai um senhor dos seus 60 anos. Estava à minha espera. Mostra o quarto, apresenta os filhos. O mais novo trata da horta e das refeições. O mais velho anda a estudar, sabe de computadores mas também trabalha. Limpa os quartos. As mulheres andam no campo. O albergue é acolhedor. Simples, pouca mobília e limpo. Tem Internet Wireless. Oferecem-me chá. Afinal o empregado do restaurante em Tinghir tinha razão. Este local é lindo e agradável. Sento-me à entrada a beber chá e a ver passar algumas motos e jipes. Veem da direcção de Imilchil, cobertos de terra, passam rápido. A maioria, alemães.

Arrumo a moto dentro da loja de artesanato ao lado. Depois de um banho quentinho, o jantar. Sopa Harira, seguida de Tagine. O meu estomago está a reclamar de qualquer coisa. Não consigo comer tudo. Para sobremesa, um doce com um aspecto delicioso. Já não vai. Estou a ver isto muito complicado. Ligo-me à internet para ver as novidades. Na salinha da entrada, está tudo calmo, pela porta aberta ouvem-se os grilos. Lá fora, a noite está escura. As estrelas são aos milhares. Brilhantes.





Sexta-feira, 27 Abril

Durmo mal. Nem o som calmo da água do rio, nem a paz que se sente, acalmam as minhas entranhas. Já conheço os sintomas. Estou lixada. De manhã, desço cedo. Peço um chá e torradas. Estou enjoada, engulo a custo. Aviso que talvez fique mais um dia. Passo a manhã, a caminho da casa de banho. Sonolenta e quente. De 2 em 2 horas, como um bocado de pão, com chá, para tomar Dimicina. Está decidido. Isto não melhora hoje. Vou ficar por aqui. Adormeço profundamente. Acordo, já ao princípio da tarde, com barulho de conversa. Muitas pessoas lá em baixo.

Tenho fome. Desço à recepção meia zonza. Estão cinco mulheres, de trajes brancos, cabeça tapada, a falar alto, todas ao mesmo tempo. Assim que apareço faz-se silêncio. Encolhem-se, escondem-se atrás umas das outras. A mais velha diz qualquer coisa que não entendo. Olho para o rapaz do albergue. Ele traduz. Ela está a perguntar se estou bem. Sorrio e respondo. Começamos a falar, elas aproximam-se, miram-me de alto a baixo. São as irmãs do dono. Ouviram falar da estrangeira que anda sozinha de moto e está doente. Vieram fazer companhia e ver se precisava de alguma coisa. Enquanto me servem mais um chá com torradas, vamos conversando, o rapaz a traduzir. Querem saber de onde venho, não conhecem os nomes dos países nem dos locais que falo. Ouvem com muita atenção, olhos arregalados. Ficam horas a fazer perguntas sobre mim, a minha família, o que faço. A cada resposta, lançam exclamações e riem-se. Sorrisos alegres. Passam as mãos na minha cabeça e testa, dizem que já passou, amanhã estou boa. Têm a palma das mãos castanha, pintadas com Henna. É da tradição. Vão fazer uma sopa de ervas que me vai ajudar.

Ao final da tarde, sinto-me melhor. As mulheres estão na cozinha. Arrisco a dar um passeio. Está um dia fantástico. Pego na moto e vou estrada acima. Lá ao fundo sobe por uma rampa enorme. Curvas apertadas, ingreme. No alto, sopra vento forte. A paisagem é magnífica.

A estrada é fantástica. Continua pela encosta, o rio é uma linha fina lá em baixo. Depois desce de novo. As paredes de rocha quase que se tocam. Chego à passagem do Dadés (Gorges do dadés). Bem mais bonito e muito mais calmo que no Todra. Um casal de americanos anda a passear por ali. Aproveito para umas fotos.












Sábado, 28 Abril

Acordo cedo. Estou pronta para continuar viagem. Ao pequeno-almoço continuo com chá e torradas. É mais seguro. Arrumo a bagagem, pago 120 dirhams por cada noite mais 30 dirhams pelos litros de chá que tomei ontem. As refeições estão incluídas.

Vou rolando através do vale do Dadés calmamente. Este vale encheu-me as medidas. Respira-se espaço, calma, pessoas a trabalhar nos campos férteis junto ao rio, terra vermelha, muitos kasbah, não há turistas nem trânsito. Estou sozinha na estrada estreita a olhar para o horizonte. Penso que foi um bom lugar para descansar. Tive a sorte de adoecer num paraíso.










Rumo ao vale das flores, um local que tinha visto na Net como a não perder. Em Kelaat M’Gouna, uma pequena vila onde se corta à direita para o vale já se respira a indústria de rosas. Filas de lojas cheias de garrafas plásticas, cor-de-rosa, com aspecto de linha de produção, mas que em vez de serem de detergente têm água de rosas. Cheira a pó.

Entro na estrada do vale das rosas, à espera de ser surpreendida. Não fui. Mais um vale fértil, campos verdes, crianças ao longo da estrada com sacos de pétalas de rosas. As roseiras, nem vê-las. Rolo uns 20 km sem encontrar as expectativas. Começa a estar fresco. Estaciono à beira da estrada para voltar a cozer o forro do blusão. De uma casa perto saem crianças que me olham de longe com curiosidade. Não se aproximam.

Não me apetece ir mais longe à procura de roseiras. Estou a 50 km de Ouarzazate, cidade que já conheço. Também já fiz o trajecto até Marrakesh através do Atlas, uma estrada de montanha com milhares de curvas e entupida de camiões. Dizem que é a pior estrada de Marrocos em termos de trânsito. Decido virar a Norte, para o interior. O rapaz do albergue no Dadés disse que a estrada era em alcatrão e se fazia bem. Passou lá há pouco tempo.





Almoço em Skoura e o empregado do restaurante repete que a estrada é em alcatrão, pela montanha e que demoro umas 2,5h a chegar a Demnate. É 1h da tarde. Mesmo que leve mais tempo, ainda tenho 6 horas de luz até ao final do dia. Estou com o sentido nesta estrada. Há coisas que têm de ser feitas. Nunca percebi porquê mas há uma voz interior que nos manda fazer uma qualquer coisa, inexplicavelmente.

Gosto de espaço, gosto de estradas com pouco trânsito, gosto da descoberta. Parto rumo ao Atlas, uma recta de uns 30 km, a montanha ao fundo. Está um dia limpo, com sol, lindo.






A estrada começa a subir. É estreita mas razoável. Sem dar pelos km estou já bem alto. O vento levanta. Sopra cada vez mais forte. O piso está sujo de terra, as bermas começam a estar comidas. Cada vez mais alto, o alcatrão está picado, buracos enormes, as bermas desaparecerem e bocados de estrada começam a desaparecer, fica apenas um trilho de terra e socalcos onde corre água. Curvas e contracurvas, sempre mais fechadas, sempre mais ventosas. O vento sopra tão forte que está difícil manter a moto direita. Se parar vou ao chão com a força do vento. Tenho de continuar.

A paisagem é agreste. Rocha escarpada, batida pelo vento, sem vegetação. Um cenário de outro planeta, de filmes de catástrofes no futuro. Não passam carros, não há aldeias, não se vê gente. Apenas os abrigos dos pastores indicam que, talvez, alguém anda por aqui … ou não.







E o alcatrão desaparece. A estrada começa a descer suavemente. As chuvas das últimas semanas arrastaram terra e pedras. As descidas parecem campos lavrados, desapareceram as curvas interiores da estrada, sulcos profundos, água que escorre pela montanha abaixo, desfiladeiros estreitos. Ao longo da descida avistam-se pastores e rebanhos de cabras. Mais à frente um jipe sobe a esforço o bocado de picada a quem alguém chama de estrada.

Começo a ficar mais confiante. Aqui há gente. Lá muito ao fundo aparece uma aldeia. Mas até chegar à aldeia são mais 30 km de todo-o-terreno. Parecia mais perto. A estrada serpenteia pela montanha. O filme repete-se. Cada vez que há uma inclinação, não há estrada. O alcatrão apenas sobrevive nas curvas horizontais. Aos bocados.

Tenho a noção que a paisagem é fantástica. Se as condições fossem diferentes, fazia aqui umas fotos excelentes. Mas o tempo corre, a estrada é difícil, cada metro passado é uma vitória, equilíbrio difícil. No meu cérebro martelam os conselhos de quem me ensinou a andar na terra. Velocidade constante, não traves, olha para a frente. Estou a transpirar no meio deste ar gélido.

Finalmente chego a Toufrine. Atravesso a aldeia por um caminho de cabras, estreito. Desemboco numa ponte, com ar de acabada de construir. Insólito. Está um grupo de motos de TT estacionado na ponte. Motociclistas equipados com armaduras. Há duas horas que não falo com ninguém, que ando a comer pó. Meto conversa. Ficam surpreendidos em me ver. Olham admirados. São franceses e andam a fazer as pistas do Atlas. Têm um jipe de apoio com atrelado e mais motos.

Pelas minhas contas, já fiz uns 70 ou 80 km. Só faltam cerca de 60 km. Os franceses confirmam. Estrada boa, dizem eles. Em alcatrão. Está um guia marroquino com eles, tem ar de alucinado. Diz que a pior parte da estrada eu já fiz. A partir daqui é mais suave. Já não sei se acredito. Entre opiniões de marroquinos e adeptos de TT, venha o diabo e escolha.









Odeio estradas de terra, pedras, gravilha, areia, tudo o que implique esforço de condução. Gosto de ter um tapete liso debaixo das rodas para eu poder estar de nariz no ar a olhar em volta. Ainda pondero voltar para trás. Só que estou no ponto sem retorno. Preciso chegar a Demnate com luz. Tenho 3 h até ao pôr-do-sol. A noite cai pelas 7,30h da tarde. De repente fica escuro como breu.

Despeço-me dos franceses. Dizem que admiram a minha coragem. Respondo-lhes que não sei se é coragem ou se sou doida. Rimo-nos todos. Subo de novo para a montanha. A estrada está melhor, há mais alcatrão. Só que já não confio. Até podia ir mais depressa mas em cada curva estou à espera de ter uma estrada lavrada pela frente. Já estou do lado Norte do Atlas, começo a descer, a paisagem é mais verde. O percurso sobe e desce mais rapidamente. Ora subo alto, ora atravesso vales férteis e pequenas aldeias onde os locais me olham com curiosidade. Apetece-me parar, respirar e tirar fotos. Mas estou sozinha, quero chegar ainda de dia, rolo devagar, não arrisco. Não sou heroína, não quero cair nem partir nada. Vou a pensar como é curioso que a noção de estrada é diferente consoante as pessoas, ou a experiencia ou os gostos. Conheço alguns para quem este caminho é uma auto-estrada, para outros seria impraticável. Para mim, dá para passar. Com calma.

Finalmente avisto o horizonte. Verde. Lindo. O fim da linha está à vista. Lá em baixo há civilização, há estradas em condições, há um Hotel e um banho quente à minha espera. Até acelero pelas curvas abaixo. Estou contente.







Chego a Demnate ao pôr-do-sol. Atravesso a cidade sem ver Hotéis. Raios. Paro e pergunto. Indicam-me um, mais atrás, à direita. Encontro um sinal de Hotel mas não percebo como se chama. Ainda não desliguei a moto já tenho o recepcionista a dar-me as boas-vindas. É velhote e fala mal francês. Tem quartos. A 100 Dirhams (9€). E tem Internet. Vou ver. Em cada andar há quatro quartos, virados para uma entrada onde tem as casas de banho. Não há nenhum quarto com WC e duche no interior. Tudo partilhado. A esta hora, já não tenho forças para ir procurar outro lugar. As instalações são recentes e o local é limpo.

Já na recepção de novo, dá-me a chave de um quarto no 4º andar. Afinal a Internet não chega lá. Aparece o dono. Insisto em ter Internet. O recepcionista velhote diz que é mais caro. Só tem quartos no 4º andar. Falo directamente com o dono. Explico que sou jornalista e tenho de enviar notícias ainda hoje para o patrão. Não consigo estar a trabalhar na recepção. Faço cara de aflita. Falam os dois em árabe e o dono lá diz qualquer coisa. Consigo um quarto no 2º andar. É duplo mas faz o mesmo preço. E ainda me vai abrir a garagem particular para guardar a moto. (Fixe. Não me estava a apetecer subir 4 andares. Esta coisa não tem elevador).

Neste piso só está um casal de franceses que acabaram de sair para jantar. Os restantes quartos estão vazios. Tranco a porta de ligação à escada e estou à vontade. O duche é forte e a água quentinha, sabe tão bem. Vou à procura de jantar. Tenho o estômago colado às costas. As pernas continuam a tremer da aventura de hoje. O recepcionista surge do nada. Não sei como estes tipos conseguem ser invisíveis e aparecer de repente. Indica-me o restaurante do outro lado da estrada. Acompanha-me até lá.

Deve ter comissão de certezinha. Aqui ou pedem a propina directamente ou recebem comissão do local para onde nos encaminham. O Rei deve-se ver aflito para cobrar impostos.

As mesas estão todas ocupadas. Não sei o que falaram que o dono do restaurante manda um cliente levantar-se para me dar lugar. Mesmo à entrada, frente ao balcão do cozinheiro. É a única mesa que está numa espécie de esplanada, pois as paredes começam mais atrás. Peço espetadinhas de peru (brochetes) e pão. Explico que estou doente. Quero chá. Como devagar. As mãos não deixam fazer gestos rápidos. Ainda tremem. Vou observando o cozinheiro a fritar batatas, a preparar hamburgers marroquinos (pão com carne, salada ou batata e ovo). Uns para servir lá dentro, outros que embrulha e mete em sacos. Há muita gente que vem para o Take Away. O rapaz não pára entre a fritadeira, a grelha e as tijelas de saladas. Paguei 20 dirhams por 6 espetadinhas de carne, pão e 3 copos de chá.






Só no final do dia, já instalada no Hotel, depois de investigar bem por onde andei, é que percebi que rolei sempre a cerca de 2.000 metros de altitude e subi até aos 2.800 m. Lá em cima, lembro-me de ver uma placa com um nome e a altitude. E lembro-me que era um bom local para uma foto. Mas o vento era tanto e tão forte que se eu parava a moto ia ao chão. Só pensava em continuar até começar a descer para o vale, na esperança de que o vento acalmasse. Mais importante que o registo do local era meu sentido de sobrevivência a gritar-me por prudência, a avisar-me que não podia arriscar pois estava sozinha naquele fim do mundo. E eu ouvi e obedeci.


 .

3 comentários:

  1. Um dia ainda vou ganhar coragem para sair assim para destinos de sonho como aqueles que descreves, mas enquanto ganho coragem, vou-me inspirando por aqui ;-)

    Bora lá partilhar a 3ª parte!

    Bjocas
    Paula
    (cristina)

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  2. Como só tu sabes (d)escrever ... gostei
    João

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