Sardinhada CKLT 2009



























Em 27 e 28 de Junho de 2009 realizou-se o 1º Festival da Sardinha, organizado pela empresa ACRB - Eventos Mal Organizados, S.A para os membros da Comunidade BMWCKLT. Durante o fim-de-semana estivemos acampados à beira do rio Ceira, acompanhados por muita sardinha e boa disposição.

Aqui fica a história de um acampamento …. em brasa.

Nota: As fotos comentadas são da autoria e foram cedidas pelo fotógrafo de serviço, Mister António Caldeira. Obrigada Mustafá.


Ao que parece, a “festa” começou na sexta-feira quando uma dezena de esfomeados se fez à estrada, ao final da tarde, rumo às margens do rio Ceira. Não devem ter levado as canas de pesca pois as sardinhas estavam à espera, no sábado de manhã, num hipermercado em Lisboa. Pelas 10 horas da manhã, o staff de apoio da empresa ACRB lá estava, de plantão, à pesca das caixas cheias do pitéu que deu o mote ao encontro deste fim-de-semana.

E a festa começou com a arte de malabarismo necessária para carregar quatro gigantescas caixas térmicas cheias de sardinhas num carro de apoio já entulhado de equipamento logístico líquido. Tirar material, voltar a arrumar, tirar outra vez, afinal não cabe, espalhar pelas restantes viaturas, trocar os passageiros de carro, não fosse o expertise do staff de apoio e as sardinhas ficavam estacionadas no ponto de partida.

Desafio superado e o comboio humanitário parte em direcção a Arganil, terra da 1ª paragem para um cafezinho e uns bolinhos numa pastelaria da vila que é uma tentação aos sentidos. Não resistimos e acabámos a comer tanto que o almoço ficou tratado.

Dali ao local do crime foi um pulinho, subimos e descemos a Serra por uma estrada com bom piso, estreita e cheia de curvas, própria para quem gosta de carrosséis em duas rodas. Cheirava a pinheiros, cheirava a terra, a verde e a campo. Pelo caminho começámos a ver o rasto dos pioneiros que, laboriosamente, a meio da noite anterior, andaram a marcar o caminho até ao acampamento, com uns sinais em língua estrangeira que diziam BIVOUAC, parece que é francês e dá chique ao arraial. Ao avistar a Ponte do Cartamil avistámos também o sinal de que tínhamos chegado, uma “sardinha”em trajes menores acompanhada pela garrafita do tintol, tudo isto ornamentado com as tais letras em francês.

O acampamento estava pronto, cheio de faixas a delimitar as áreas das tendas, do assador, das mesas, do estacionamento, do espaço de conversa, tantas faixas que parecia um labirinto de riscas amarelas, uma prova de perícia só para entendidos. Lá consegui começar a cumprimentar os pioneiros que já estavam em traje de campo, tendas mal armadas da escuridão da véspera, assador ligado à espera da ajuda humanitária. Mas não, o Sinhor Regedor não deixou destapar as ditas, era só ao final do dia.

Vingaram-se no equipamento logístico líquido que foi vertiginosamente montado pois o calor apertava e a sede afogava as gargantas. Só que o líquido amarelo demorou a sair, primeiro esperaram um bom par de horas a ver a espuma e a imaginar que se transformava em néctar dos deuses. Sem sardinhas e sem xarope, vai daí, todos ao rio, arrefecer os ânimos.

Durante a tarde foram chegando mais convidados à festa, verificou-se que era necessário ter um diploma de 5º grau para conseguir estacionar as motos por entre o labirinto de faixas, assistiu-se a várias técnicas de montagem de tendas, houve uma romaria para visitar a modernidade arquitectónica das instalações sanitárias e ainda debates sobre a psicologia dos peixes (parece que foi descoberta uma nova espécie de peixe no rio Ceira, cientificamente estudada por engenheiros do ambiente, com direito a reportagem nos diversos meios de comunicação alternativos).


Salvou-nos da fome o saco de pão que por lá deixaram e uns chouriços e morcelas que o Alby levou que souberam que nem ginjas pois o CEO da mal afamada empresa (des)organizadora estava de plantão junto às apetecidas caixas térmicas a guardar as sardinhas e anunciava que os horários são para se cumprir. Entretanto punha a malta a trabalhar, a montar o sistema de iluminação, a acartar com os sacos de carvão, a mandar mensageiros comprar sacos de gelo para arrefecer a máquina das jolas que já estava ao rubro com tanta azáfama.



A tarde foi avançando e a fraqueza também, o que levou alguns convivas até ao posto médico, laboriosamente erigido pelo Dr. Viktor e onde não faltava nada, nem sequer remédios para afugentar os pacientes que quando viam os pequenos tubinhos compridos diziam logo que estava tudo bem, que já nem sentiam tonturas nem o estômago dava horas.

O pessoal bem tratava do fogo, atiçava o carvão, dispunham todos os utensílios necessários à volta da grelha, mas nada, as sardinhas não apareciam. O nosso tubarão-moderador resmungava com larica, perseguia pobres casais românticos, agitava os braços, ameaçava com armas brancas, mas não tinha sucesso. Lei é Lei.

Numa ponta do acampamento, alguns mágicos descascavam fruta, misturavam uns líquidos esquisitos, mexiam um caldeirão enorme que foi recolhido pelo pelotão de segurança do recinto e levado para marinar em local secreto, até que percebemos que tínhamos uma bela sangria para animar a noite.


E finalmente o Adolfo H. secundado pelo Almirante do Estado-maior deu ordem de marcha às brasas. As tropas reuniram-se ao som crepitante das sardinhas na grelha, vigiada pelo penitente Pega-monstros que lá esteve de castigo até ser noite cerrada, pegado à grelha (foi visto já tarde, escondido num cantinho solitário, a devorar sardinhas e a olhar sorrateiramente em volta não fosse ser descoberto pelo Adolfo que o mandava de volta às brasas do inferno).

E as sardinhas foram desaparecendo a uma velocidade proibida por lei, mal pousavam no tabuleiro evaporavam-se, tal era a qualidade. Eram gordas, gostosas, a pele saia inteira, o pão ficava molhadinho e marchava que era obra. Foram horas de degustação dos animais marinhos, horas em que a conversa esmoreceu, horas de felicidade.


Num ambiente com uma iluminação intermitente, ora fazia luz, ora mergulhava no escuro, a conversa prolongou-se noite dentro (é claro que já todos sabemos os assuntos em debate) e quando se pensava que a festa tinha acabado, apareceu a sobremesa, uns pastelinhos de Tentúgal fantásticos para acamar a barriguita antes da hora de deitar. Ainda tinham a marca do trabalho do Elias que não dormiu nada na noite anterior, de volta da massa e do forno, por isso apareceu tão cansado no acampamento que nem falou sobre um fenómeno estranho que dá pelo nome de Wuaipóinte.

Pouco a pouco, os heróicos participantes recolheram às tendas e foram-se preparando para o concurso nocturno, afinavam trombetas, ensaiavam gritos de guerra. Durante a noite o espectáculo foi sublime. Para entrada, música africana em triplo stereo, gritada por uns aparelhos sonoros de marca conceituada no mercado, todos afinadinhos na mesma estação de rádio e que se ouviu por todas as aldeias num raio de 50 km. O concerto acabou em êxtase com o remate do Maestro D’Oliveira que tirou as chaves das ditas e só as devolveu no dia seguinte à força de ameaças violentas. Depois do aperitivo musical deu-se início ao tão esperado concurso.

Do lado direito do acampamento, o batalhão do Norte (comandado pelo Maestro d’Oliveira e pelo V. Soares) fazia jus às vendedoras do Bulhão, com inspirações sonoras e intermitentes e estrondosos roncos. A meio, os manos grandes não deixavam os créditos por mãos alheias e ora roncavam em uníssono, ora roncavam intervalados, numa sinfonia digna de uma salva de canhões. Mas o ponto alto do concerto vinha do outro lado, um ex-combatente que disparava em todas as direcções, grandiosos roncos estridentes que fizeram o Baltazar sair do banho nocturno a pensar que afinal os peixes eram perigosos. Depois de medidos os decibéis, decidiram acordar o autor e oferecer-lhe umas bifanas para o Calar. Mas o homem não se deu por vencido e depois de voltar a adormecer recuperou a embalagem e acelerou toda a noite para afirmar a sua posição vencedora.
Embalados pela orquestra ruidosa, lá enfrentámos a noite, a fingir que dormíamos até que o amanhecer nos presenteou com um dilúvio matinal. Debaixo de uma chuva persistente, conseguiu-se tomar o pequeno-almoço, todos ensonados e remelados, de volta do pão, queijo, fiambre, sumos, bifanas e cascas de sardinhas.

Quando finalmente abrimos os olhos para a vida notou-se um certo sossego estranho. Que se passa, falta alguém, onde está o Adolfo Costa? Os resultados da investigação judicial apontavam para uma deserção nocturna, facto testemunhado por um aflito que tinha ido à moto buscar um jogo adicional de tampões de ouvidos e que viu o sócio AC a pirar-se de fininho e a resmungar que não conseguia dormir e que com o barulho dos grilos nem conseguia roncar em condições. Foi condenado sumariamente e a sentença executada com brilhantismo (Baltazar e Bip Bip eu não vou dizer quem foi, ok?) – rapidamente a tenda do malvado desceu a margem, atravessou o rio e pousou em cima dos nenúfares e por lá ficou a meter água devagarinho. Felizmente a execução foi à porta fechada, a fila de mirones estava a olhar para a beleza do rio e nem existem milhares de fotos a comprovar o sucedido.

E a manhã foi passada debaixo dos toldos que o RB descobriu dentro da carrinha humanitária, em conversas e apostas que a chuva vai acabar, está a abrir lá ao longe, molhados mas satisfeitos. Alguns desistiram e debandaram para o aconchego dos lares mas um grupo de bravos não arredou pé. E o São Pedro foi solidário a acabou com a chuva.

E os bravos solidários desmontaram as tendas ensopadas, conseguiram o milagre de as arrumar nas malas das motos e ainda arrumaram o acampamento, limparam o chão, desmontaram o sistema eléctrico que afinal nunca funcionou e lavaram tudo à mangueirada pois em época de falta de água as moscas invadem tudo. Mais um desafio de encaixar tudo de novo no carro de apoio, com a preciosa colaboração dos manos grandes que pegaram na máquina da cerveja como se fosse um brinquedo de crianças. Quando chegou a vez dos barris fizeram greve. Então e não há mais concursos?

Era o que o pessoal queria ouvir. Rapidamente se formou um túnel se assistentes ao lançamento do barril, com palmas e hurras a quem conseguia ultrapassar o limite do anterior, vários concorrentes que foram abafados pelo despique entre os manos gigantes e até houve quem tentasse técnicas inovadoras de levar o barril até à meta, a correr e a tropeçar com o barril às costas. Uma festa de força, de apostas e de risos.

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Estava na hora de alimentar os bravos do pelotão. Foi anunciada a existência de um afamado restaurante da zona, com pratos típicos, morcelas e queijos regionais, arroz de ervilhas, salada e febras na brasa. Abandonámos o local do acampamento já com saudades da festa e subimos a Serra para mais uma prova de resistência. Para chegar ao restaurante era necessário apanhar um trenó para ultrapassar uma descida arriscada, valeram os equipamentos de protecção para evitar traseiros arranhados. Os progenitores do AC receberam-nos com a simpatia usual, a mesa estava posta, devorámos o almoço e os digestivos de produção caseira e alguns dormiram uma sesta. Hora de regressar, voltar à estrada e descansar deste evento mal organizado mas que voltou a ser uma prova que as amizades dentro da Comunidade são únicas e preciosas.
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Obrigada ao Tozé Costa e ao Rui Baltazar pela ideia, pelo trabalho, pela disponibilidade.

Obrigada a todos pelo excelente convívio.

Mais uma iniciativa para entrar no calendário oficial da Comunidade CKLT
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5 comentários:

  1. Esta 5*

    um beijo

    Rui baltazar

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  2. texto ao nivel que estamos habituados, obrigado Paula, em meu nome e dos que trabalharam para que isto fosse possivel um muito obrigado e para o ano ha mais,

    Antonio Jose Costa o AC de ACRB S.A.

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  3. Paula, palavras para quê?
    a seguir a esta cronica fabulosa, vem aí a do peixe Huauuu!
    obrigado a todos pela vossa presença.

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  4. Já querida amiga Paula, sou Maria Barros, amiga brasileira de Ari! Estou aqui encantada com seu Blog e a história de sua grande aventura!!!Você está de parabéns pela fibra, pela beleza, pelo espírito de aventura e pelo seu adorável bom humor que constatei aqui no texto. Estou ainda lendo seus escritos de suas aventuras e estou amando!

    Um grande abraço para Você.
    Maria Barros

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