Moto Rali de Góis - Uma dura batalha

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Moto Rali de Góis - Uma dura batalha





Cerca de três dezenas de aventureiros aderiram ao Moto Rali de Góis, realizado nos dias 5 e 6 de Julho de 2008, sob o lema “Napoleão da Boa Parte”. Aqui fica a história da participação na batalha do Bussaco, armados com duas rodas e muito boa disposição.



Preparar armas!

Ponto de encontro em Góis, na Praça da Republica, praça estranha para quem apenas a conhece na época da Concentração. Está tão vazia, com apenas umas 30 motos e talvez uns 50 guerreiros com o road book na mão e a olhar para o relógio.Na subida até ao cume da Serra da Atalhada, a estrada era fabulosa. Parei a moto para ouvir o barulho do silêncio, o som do vento a dançar com as folhas, sentir o cheiro dos pinheiros, dos eucaliptos. O sol mostrava-se sob a forma de raios de cor que rompiam por entre as árvores. Acordei daquele sonho com o barulho das motos que se aproximavam. No cimo da Serra, os moinhos esperavam-nos para uma visita guiada pela paisagem até ao infinito das Serras de Bussaco, Luso, Açor e mesmo lá ao fundo, a Serra da Estrela.

À hora marcada saímos para a estrada, rumo à saída do Vale do Ceira, a subir a Serra de Sta. Quitéria, por estradas rurais com bom piso e uma primeira paragem em Pombeiro da Beira, junto ao santuário, onde uns pombinhos da organização nos obrigaram a jogar o Jogo do Prego. O raio do prego era maior que um martelo e o chão era bem duro. Prova falhada, seguimos viagem.

Por uma estradinha cerrada de pinheiros e eucaliptos, subimos a serra e descemos junto ao rio Alva até à Barragem da Fronha, nome que deu o mote à próxima prova. Enfiar e desenfiar uma almofada numa fronha e depois apertar os 537 mil botões da mesma. Ora esta, vim de fim-de-semana e ainda trago trabalho de casa. Mas pronto, prova superada, lá vamos nós atacar mais umas estradas rurais, estreitinhas e com curvas até à praia fluvial do Vimieiro. Paragem para o pequeno-almoço e mais uma prova e mais um local fantástico a marcar uma outra passagem numa outra ocasião.
Descemos e entrámos numa estrada a serpentear junto ao Rio que seguia por entre a Livraria do Mondego, até ao centro de Penacova, onde espiolhamos o posto de turismo para responder às perguntas e descobrimos uma fantástica pastelaria de doces regionais que arrasavam qualquer resistente.
Breve passagem por Lorvão e vamos lá acelerar que o almoço espera no cimo da Serra de Gavinhos, junto aos moinhos. Menina, o arroz já está pronto há muito tempo, dizia o cozinheiro. Pois, obrigaram-me a subir a escarpa para responder se o cavalo do Napoleão era uma égua …. Ora esta … e o almoço à espera.

No bar dos Rebeldes, sob a hospitalidade da Associação de Gavinhos, numa bela esplanada, o arroz de feijão, a entremeada, as febras, as salsichas, a salada e sei lá que mais, desapareceram por magia. E por magia também apareceram uns indígenas, com tatuagens estranhas … tsss … tsss…. o que se pode fazer com rótulos de garrafas.




Vamos à Batalha!

Munições armazenadas e estradas com eles. Depois de passar por terras com nomes estranhos como Cadelos, Entrosgas ou Espichas, mais uma pequena paragem para visitar o museu-moinho Vitorino Nemésio e desfrutar de uma fabulosa vista sob as redondezas. Neste passeio já subimos e descemos um ror de Serras, estamos sempre no alto, sempre por cima do horizonte. Ah, mas não pensem que vai ser sempre assim. Agor-é-ke-é …. Vamos entrar na Estrada Real, por entre a mata, onde Wellington fez frente ao exército francês e foi travada a Batalha do Bussaco.

Curva à esquerda e uma pista de terra desalinhada e pedra rolada acena para nós. Vá, respira fundo e segue em frente. Árvores por todo o lado e no meio um rasgo sem elas onde era suposto passarmos. Uns metros mais ou menos, muitos metros de susto. Mais à frente não havia lado, havia escarpa profunda que se adivinhava pela altura das árvores. Já não sei se era eu que tremia se era a minha mono cilíndrica. O piso era difícil. A moto resvalava, a frente teimava em virar para o lado contrário à traseira.

Parei, naquele bosque inóspito, aterrorizada com uma estrada à minha frente de terra lavrada, a descer, só calhaus, folhas e pedras. O pensamento regrediu à época das invasões napoleónicas e comecei a imaginar um exército de homens duros, cansados sob o peso das fardas e das armas com facas na ponta, a empurrar canhões em ferro em carretas de rodas de madeira, toneladas de peso por ali acima, por ali abaixo, por aqueles caminhos selvagens, numa estrada que quase não existia e onde até de moto era difícil passar (é claro que os praticantes de TT vão rir com isto, mas para quem não está habituado, pode ser um bom remédio para quem sofre de prisão de ventre).

Depois de muito transpirar, de ver os outros passar, devagarinho não vá as motos partirem, lá consegui chegar ao alcatrão. Prova superada. Depois … bem, depois …. esperava-nos a lida doméstica. Em Sto. António do Cântaro, tivemos de ir à fonte com a cantarinha e fazer a cama, tudo isto em minuto e meio. Mais uma prova, salpiçada de muitos guerreiros a saltar para a cama, coitadinha ia-se desfazendo. Mais estrada pela frente. Visita guiada aos postos de comando das tropas, velhos moinhos em ruínas ou apenas pedras com placas comemorativas. Em todos uma vista fantástica, todos por caminhos de terra.

Finalmente chegámos à civilização. Na porta da Rainha, parámos para uma visita ao Museu Militar. Depois de respirar a guerra, subimos à Cruz Alta, por entre a Mata Nacional e acabamos o passeio.




O repouso dos Vencedores

Em procissão, todos juntinhos, lá descemos até ao Luso para um merecido repouso. Todos aproveitaram aquele fim de tarde fantástico para descansar da batalha. Alguns foram até à Vila, até à pequena feira de mimosas barraquinhas em madeira, com coloridos souvenirs para turistas e uma deliciosa casinha de doçaria regional onde não se resistia às regueifas, pastéis de tentúgal ou barrigas de freira.

Outros escolheram ir a banhos em …. Água do Luso. Na piscina juntaram-se as lontras, os leões-marinhos, os cachalotes e duas sereias para brincar, nadar, mergulhar, todos contentes, uns em água lisa, outros … em água com gás. Herr Krull praticava com a máquina nova (parece que a outra ficou a banhos nos Açores), com os animais marinhos a fazer pose para a foto, mergulhos artísticos e incursões submarinas.

A caminho do jantar assistimos a uma prosa by Mister Oliveira que declamou, em tom shakespeariano, a ementa toda, incluído as referências aos impostos em vigor. Prova (de paciência) superada e os soldados esfaimados atacaram e devastaram tudo. Para sobremesa tínhamos a banda filarmónica do Dr. Tocador que conseguiu por alguns a dançar, em poses artísticas, enquanto outros jogavam à batota. Um belo serão de foliões bem dispostos que acabou com o jogo da cadeira, uns sentados outros no chão.


A parada da Glória

Domingo de manhã partida tardia para a zona da pinga. Rumo a Anadia, paragem para visitar o Museu do Vinho, um edifício moderno espaçoso e bem estruturado, onde passeámos por entre a vindima, nos seus artefactos mais antigos. Depois do trabalho árduo de responder às perguntinhas, que nos obrigaram a mirar minuciosamente todas as garrafas de vinho expostas, lá seguimos viagem até …. A adega. O dia hoje é de provas, branco, tinto, espumoso, só mesmo provar que o pessoal vai conduzir. Num alpendre sob as vinhas, os guerreiros conversavam, façanhas de batalha, tiroteios de pastelinhos, guerra ao presunto. Finalmente o almoço, finalmente as classificações.

Um especial agradecimento à pequena-grande mulher, a Susana Rasteirinha do Góis Motoclube, que organizou este passeio e inundou de simpatia todo o fim-de-semana.

Mais um passeio, mais pequenos recantos deste Portugal desconhecido, mais história aprendida, mais histórias para contar, ficamos à espera do próximo moto rali.






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